Delegacias do idoso: atenção, biscoito e suco para superar falta de estrutura

Nas unidades de São Paulo, capital, policiais fazem às vezes de psicólogos e assistentes sociais

São Paulo – Sem estrutura adequada, os policiais que trabalham nas delegacias do idoso em São Paulo se desdobram em outras funções para dar conta do atendimento em áreas que fogem de sua alçada. Na maior parte da procura, a queixa não é criminal. Em alguns casos, basta uma boa conversa. 

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Na 6ª Delegacia do Idoso, em Santo Amaro, zona Sul, a aposentada Ana Luíza de Oliveira, de 81 anos, e a filha, Jéssica de Oliveira, de 55, buscaram orientação por conta do sumiço da escritura da casa de Ana Luíza. Mas não queriam fazer um boletim de ocorrência por furto, por exemplo. O investigador Luiz Fernando Voltarelli, de 52 anos, explicou que a delegacia é para queixas de crimes, deu exemplos, orientou-as a buscar um cartório para expedir uma segunda via do documento, deu-lhes o endereço do estabelecimento mais próximo e explicou como chegar, com o auxílio de um guia de ruas.

Para Ana Luíza, o atendimento foi muito melhor do que ela esperava. “A gente ouve tanto falar mal de delegacia, que os policiais são grosseiros, que o lugar é tenso, que dá até medo de ir. Mas aqui nós fomos bem atendidas, o policial é esclarecido e explicou tudo direitinho para a gente, mesmo não tendo nada a ver com o trabalho dele”, comenta.

O delegado assistente da 1ª Delegacia Seccional de São Paulo, Luis Segantin, de 42 anos, explica que a ideia é tranquilizar os idosos e não expô-los a situações constrangedoras. 

“O espaço é pensado para acolher a pessoa, recebendo o idoso em um ambiente mais adequado às suas necessidades e que não lhe provoque mais tensão”, define.

Nas três unidades visitadas [Jabaquara (2ª), Santo Amaro (6ª) e República (1ª)] o ambiente é calmo, com iluminação agradável e policiais dispostos a ouvir. A delegacia do Jabaquara mantém um jardim e uma sala com suco e biscoitos para os visitantes.

Para o delegado da 2ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso, José Ferreira Ielo, as delegacias surgiram de uma necessidade desta parcela da população. “A necessidade era antiga. É o reconhecimento de que uma parte da população precisa ser melhor ouvida e com mais cuidado. Aqui nós acolhemos o idoso. Perguntamos se a pessoa quer comer algo, sentar um pouco, a fim de acalmá-la. Então ouvimos, entendemos o problema e encaminhamos uma solução que seja contínua, para que o idoso não sofra”, explica.

Entre as demandas geram inquéritos policiais, as mais comuns são problemas de maus-tratos, abandono e apropriação de valores. Este último se aplica, por exemplo, no caso de uma pessoa que detenha o cartão bancário e controle o benefício financeiro de um idoso, contra sua vontade ou tirando vantagem disso. Qualquer pessoa pode levar uma denúncia à delegacia, sendo possível fazê-lo pessoalmente, pelo Disque Denúncia ou ligando diretamente em uma das unidades. Os endereços e telefones estão disponibilizados ao final da matéria.

Além disso, Ielo destaca que é importante uma melhor divulgação do trabalho para as pessoas entenderem a função da delegacia do idoso, antes de buscar o atendimento. “Se o idoso for assaltado, não é questão para a delegacia do idoso. Nosso atendimento é pelo Estatuto, por exemplo, em casos de agressão, abandono, maus tratos, discriminação. Se as pessoas tivessem acesso ao Estatuto, conhecessem a legislação, nosso trabalho seria ainda mais eficiente”, explica.

A situação de quem busca a delegacia do idoso parece ser de grande fragilidade. Como no caso da aposentada Maria de Fátima da Costa, de 78 anos. De caminhar lento e voz baixa, ela estava com os olhos marejados ao deixar a unidade que fica na saída da estação República do Metrô, no centro da capital. Ela foi lá reclamar do filho, de quem não disse o nome. Segundo Maria, ele vive na casa dela, está desempregado e seria muito agressivo. No entanto, Maria afirma nunca ter sofrido agressão, queria apenas que ele procurasse trabalho.

“Os policiais me explicaram que nesse caso eu tenho de procurar um assistente social da prefeitura, me deram o endereço e disseram como ir até lá. Ele [o investigador] foi muito atencioso e conversou devagar comigo. Explicou que se meu filho estivesse me agredindo ou me ameaçando eles agiriam e disse que posso ligar aqui se precisar”, contou Maria.

O delegado Laerte Pereira da Silva, substituto temporário do titular da 1ª delegacia do idoso, explica que essa situação é muito comum. “A maior parte dos atendimentos diários é de pessoas que têm problemas na família. E que são da alçada da justiça, da assistência social e não crimes. Nós recebemos, orientamos e encaminhamos ao serviço adequado. Em alguns casos nota-se que a pessoa só quer alguém para conversar e nós conversamos. Às vezes só é preciso paciência”, disse Silva.

Para o delegado, um assistente social é uma necessidade. Essa demanda por profissionais de outras áreas é um problema que afeta todas as unidades da capital.

Uma situação problemática é a localização das Delegacias. A 6ª, por exemplo, fica em Santo Amaro, próximo a avenida João Dias, e atende toda a região sul da cidade, que vai do Campo Limpo até Cidade Ademar, passando por Jardim Ângela, Parelheiros e Grajaú.

De acordo com o delegado Segantin, essa situação é contornada pelo fato de que todas as delegacias devem atender aos idosos, pautados pelo Estatuto. “Todo policial está orientado a receber e atender os idosos com base na lei. E não podem negar-se a fazer o atendimento, independente do motivo. Se for uma ocorrência de furto, encerra-se na unidade local. E se for o caso de um atendimento especializado, encaminha-se. Nos preocupamos em deslocar o Boletim de Ocorrência e não a pessoa”, orienta.

 

Delegacias do Idoso na capital:

1ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Estação República do Metrô – 1ª piso – Centro
fone: 3237.0666

2ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Av. Eng. George Corbisier 322 – Jabaquara
fone: 5017.0485 e 5011.3459

3ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Rua Itapicuru 80 – 2ªandar – Perdizes
fone: 3672.6231

4ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Rua dos Camarés 94 – Carandiru
fone: 2905.2523

5ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Rua Antonio Camardo 69 – Vila Gomes Cardim
fone: 2225.0287

6ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Rua Padre José de Anchieta 138 – Santo Amaro
fone: 5541.9074

7ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Av. Padre Estanislau de Campos 750 – Conj. Hab. Padre Manoel da Nóbrega
fone: 2217.0075

8ª Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso
Rua Osvaldo Pucci 180 – Jd. Nossa Senhora do Carmo
fone: 2217.1727

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