Respeito inegociável

Janja e ministras abrem ‘Mês da Mulher’ com compromissos de ações em mais de 30 ministérios

Articulação “transversal” vai lançar, no 8 de março, campanha sobre o “respeito a todas as mulheres como valor inegociável” e conjunto de políticas para “fazer a diferença na vida de 52% da população”

Ricardo Stuckert/PR
Ricardo Stuckert/PR
Diminuir o feminicídio, acabar com a fome e com a desigualdade salarial são "obsessões" do presidente Lula", destacou Janja

São Paulo – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara um conjunto de políticas públicas para as mulheres, em todas as áreas. O pacote de medidas, de acordo com a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, será divulgado na próxima quarta-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, envolvendo ações em mais de 30 ministérios. As ações foram confirmadas pela ministra em cerimônia de abertura da programação oficial do “Mês da Mulher” na manhã desta quarta (1º).

O evento de café da manhã teve a presença da primeira-dama, Janja Lula da Silva, das 11 ministras da equipe e das presidentas do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e da Caixa Econômica Federal, Rita Serrano.

Elas integram a campanha a ser lançada no 8 de março tendo como tema central o respeito às mulheres como “valor inegociável”. Segundo Cida Gonçalves, essa articulação interministerial promete “mudar a vida das mulheres e fazer diferença na vida de 52% da população”, conforme afirmou em referência à maioria feminina da população. 

O presidente quer a formulação de ações transversais (políticas públicas que requerem orçamentos e envolvimentos de vários ministérios) para que ele apresente no 8 de março. Ainda ontem (28), Lula confirmou que encaminhará ao Congresso projeto de lei para garantir a igualdade salarial entre homens e mulheres no Brasil. Desse modo, durante a cerimônia, hoje, a ministra das Mulheres disse que o governo quer dar uma resposta à população que ajudou a elegê-lo. 

Prioridade contra violência de gênero

“O presidente Lula disse para mim: ‘você sabe o tamanho da sua responsabilidade porque foram as mulheres que efetivamente me elegeram’. E nós vamos dar uma resposta para aquelas que são as principais pessoas e o principal público efetivamente das políticas públicas. Porque somos nós, mulheres, que estamos na linha abaixo da pobreza, principalmente as mulheres negras que são as que estão passando fome. Somos mães solos, mortas todos os dias, violadas todos os dias. E é por isso que todas estamos aqui para dizer para as mulheres que esse governo respeita as mulheres, trabalha para as mulheres e vai construir um país para e com as mulheres. Estamos aqui para garantir isso”, ressaltou Cida. 

O tema da violência de gênero também foi lembrado pela primeira-dama, que abriu sua fala em solidariedade à fisiculturista Ellen Cristina Otoni Campos, de 37 anos. Ellen está hospitalizada desde quinta-feira (23), depois de levar sete tiros. O suspeito do crime é o namorado da vítima, o também fisiculturista Weldrin Lopes e Alcântara, de 44 anos, preso ontem em Belo Horizonte.

Janja lembrou compromisso de Lula, durante a campanha e já eleito, com diminuir os índices de feminicídio no país, até zerá-los. Além disso, citou o combater à fome como uma “obsessão” do presidente.

“Esse tema da violência contra a mulher chega a ser pessoal e particular e vou trabalhar com todas as minhas forças,  trabalhar junto com o Ministério das Mulheres e a sociedade civil para que a gente não precise mais mandar mensagem de força para uma mulher que foi baleada pelo seu namorado e companheiro. E o pior, esses homens não estão satisfeitos de matar apenas as mulheres, eles matam também as crianças e seus filhos”, lamentou a primeira-dama. 

Marielle e as mulheres negras

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, também advertiu sobre a violência política de gênero que tem como alvo mulheres na política. Ela lembrou que, desde 2018, o mês também passou a ser “triste” por marcar o assassinato de sua irmã, a vereadora Marielle Franco, morta a tiros em 14 de março. Anielle ponderou, contudo: “Sempre que vejo mulheres negras ocupando esse espaço (do jornalismo) e a política, vivas, porque por estarmos vivas representando essa luta que muito me emociona, sei que estamos no caminho certo”. 

A representatividade também foi celebrada, na sequência, pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. “Essa é Esplanada mais feminina da história do Brasil”, comentou. “E isso não é pouca coisa para quem, como eu e algumas dessas mulheres aqui aguerridas, faz política há muito tempo no Brasil.” Tebet também elogiou o compromisso de Lula com a igualdade salarial, prometida por ele na campanha. Ou seja, é preciso adequar as legislações que incidem sobre o tema hoje, pois são suficientes para garantir esse direito.

“O presidente Lula só me deu uma determinação, que o pobres estejam no orçamento público brasileiro. (…) Então vai ser com muita satisfação que o cobertor curto do orçamento eu e as nossas ministras vamos puxar para o lado da mulher negra brasileira do Nordeste”, acrescentou. 

Olhar a partir do gênero

A ministra da Saúde, Nísia Trindade, completou que o debate da equidade de gênero precisa estar associado ao da equidade racial. Ao destacar o papel da área, ela também destacou que o compromisso com as mulheres não termina no dia 8 de março nem no Mês da Mulher. “O Ministério da Saúde começou no primeiro dia de gestão, quando revogamos a portaria contrária aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e (garantimos) o cuidados integral à saúde da mulher que é uma premissa do presidente Lula e de toda a nossa equipe de gestão”. 

“E por que tantos anúncios serão feitos na semana que vem?”, provocou na sequência a ministra de Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, respondendo ela própria a questão. 

“Ao colocar uma mulher no comando, uma mulher negra e indígena, você está mudando a forma de pensar políticas públicas. E isso faz com que se tenham ideias que as vezes vocês vão ver que são simples, mas que ninguém teve antes porque não tinha alguém naquele lugar com aquele pensamento, e com história de vida e experiências que fazem dar ênfase a um ponto que talvez para um homem não tenha relevância. Mas para nós, mulheres, sabemos que tem.” 

Luta e resistência

Esse é o caso, por exemplo, do racismo ambiental, como destacou a ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva. De acordo com ela, as políticas ambientais também devem atuar para quebrar com essa estrutura desigual. “As mulheres que pagam o maior preço na hora da catástrofe. São as mulheres pretas que vamos encontrar em São Sebastião. São elas que perderam seus filhos e companheiros. Porque são elas as empurradas para as encostas por serem mais pobres e vulneráveis e elas precisam de políticas públicas na área ambiental para que a gente quebre também o racismo ambiental”. 

Secretária de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas, Juma Xipaia de Carvalho também comentou sobre os desafios para as mulheres indígenas. Ao finalizar sua fala, ela chamou atenção para a ligação entre o assassinato de Marielle com o crime contra a vida do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, no ano passado. “Somos Marielle, somos Bruno e Dom.”

“Todos e quaisquer tipos de mulher estão sendo assassinados ou perdendo seus parceiros que lutam pelos direitos de outros. Não podemos esquecer disso. Estamos em um momento único, mas jamais podemos esquecer nosso passado tão recente que ainda herdamos dores e lamentos. Todos os dias acordamos cientes disso. Nós estivemos em Brasília ocupando esse território, vendo nossos filhos sendo atacados, mulheres sendo agredidas e nós não recuamos. E hoje ter o Ministério dos Povos Indígenas e estar aqui com essas mulheres é motivo de comemoração, porque é o símbolo único da vida”, concluiu Juma. 


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