Medida de danos

Política de dispersão da ‘Cracolândia’ dificulta trabalho de saúde e facilita atuação violenta do Estado

Imagens divulgadas no domingo nas redes sociais mostram mais uma ação violenta da PM contra usuários na região da Luz, em São Paulo

Reprodução/Instagram/@padrejulio.lancellotti
Reprodução/Instagram/@padrejulio.lancellotti
"Essa política de dispersão, na verdade, ela é uma política completamente avessa do que a gente imagina como uma política para tratar esse assunto", critica especialista

São Paulo – Imagens divulgadas nas redes sociais, no último domingo (8), expõem mais uma ação violenta da Polícia Militar no território conhecido pejorativamente como Cracolândia, na Luz, região central da cidade de São Paulo. Os vídeos mostram PMs utilizando bombas para dispersar as pessoas em situação de rua e usuários de substâncias psicoativas da Praça Princesa Isabel. O local, desde o mês de março, abriga o fluxo – ponto de comércio e consumo de drogas. 

As imagens mostram grupos correndo em meio aos carros para escapar das bombas usadas pelas forças policiais. Segundo a Secretaria estadual de Segurança Pública, a Polícia Militar foi acionada por volta das 14h20 para auxiliar na dispersão das pessoas para que fosse realizada a limpeza do local por agentes municipais. A pasta alega que não houve feridos e detidos durante a ação. 

A violência policial, contudo, já se tornou rotina na região. Em fevereiro, a Rádio Brasil Atual mostrou uma ação da 5ª fase da Operação Caronte que envolveu as polícias Civil e Militar, além da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Durante a atuação dos agentes, dezenas de pessoas foram obrigadas a sentar no chão, enquanto os policiais apontavam armas para as pessoas em situação de rua na chamada “Cracolândia”. As imagens da operação repercutiram negativamente e levaram a Defensoria Pública de São Paulo a cobrar respostas do Estado e do município sobre a violência na região da Luz. 

Violência é sistemática

Coordenadora-geral do Centro de Convivência É de Lei – ONG que atua com a redução de danos no território –, Maria Angélica Comis chama atenção para a violência sistemática e, muitas vezes velada, praticada pelas forças de segurança em ações na cena de uso. “Novamente essa violência é basicamente o retrato do que a gente tem visto em relação à violação dos direitos das pessoas que estão ali em situação de rua”, destaca.

“No dia 5 de maio, que teve outra ação, houve também o atropelamento de uma pessoa do fluxo por uma viatura da Polícia Militar. Mas a gente não conseguiu entrar em contato com esse usuário. Ele foi colocado no carro da Polícia Militar e foi levado não sabemos para onde. Então é válido fazer essa discussão sobre o quanto algumas coisas acontecem no território e a gente acaba não tendo informações e nem acesso aos desdobramentos. Não sabemos o que aconteceu efetivamente com esse rapaz”, denuncia Maria Angélica. 

Em março, houve um mudança de local da Cracolândia, que deixou a rua Helvétia e a alameda Dino Bueno, indo para a praça Princesa Isabel. O que já havia acontecido em 2017, ainda na gestão do então prefeito João Doria (PSDB). A Polícia Civil afirma que a troca foi feita após ordem do crime organizado. Mas relatos de organizações que atuam no território apontam que a especulação imobiliária também foi um dos motivos que levou à transferência do fluxo. 

Leia mais: ‘Guerra às drogas’: estratégia fracassada no centro de São Paulo afeta cotidiano dos moradores

Dispersão é controversa

Segundo a Polícia Civil, cerca de 200 pessoas foram para o novo local, o que representa apenas 30% da Cracolândia. As demais se espalharam por outras partes do centro, o que dificulta o trabalho realizado pelas equipes de assistência social e saúde que atuam na região. É o que adverte o pesquisador do LabCidade, o Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Aluízio Marino. “Essa política de dispersão, na verdade, é uma política completamente avessa do que a gente imagina como uma política para tratar esse assunto”, contesta.

“Porque quando você dispersa o fluxo de usuários, fica ainda mais difícil ter um trabalho de proteção e de cuidado com essas pessoas. Elas estão em vários lugares, pulverizadas, isso faz com que também o trabalho da assistência social e dos agentes de saúde fique mais difícil, o estabelecimento de vínculos fica mais difícil. E muitas vezes também o trabalho de quem acompanha a questão dos direitos humanos e faz denúncia da violência contra os usuários também fica mais complicado. Com os fluxos dispersos, a atuação violenta do Estado, de certa forma, fica mais invisível. Quando o fluxo está concentrado em um lugar, nós conseguimos ter olhos para denunciar essas ações mais violentas”, explica Marino.

Rádio Brasil Atual questionou à Secretaria da Segurança Pública de São Paulo sobre as providências e propostas que estão previstas para resolver a situação da cena de uso na região da Luz. Mas a pasta não respondeu aos questionamentos. 

Saiba mais na reportagem 



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