Resumo
Reajuste para baixo
Por: Paulo Donizetti de Souza e Vitor Nuzzi
Publicado em 01/03/2008
A população de Fortaleza participa este mês de uma escolha inusitada. Vai decidir, por voto direto, de que forma o ajuste a ser feito incidirá nas tarifas de ônibus: 1) se cairão de R$ 1,60 para R$ 1,54; 2) se ficarão em R$ 1,50 em horários de menor movimento (entre 8h e 12h e das 14h às 18h); ou 3) se haverá uma tarifa social de R$ 1 aos domingos. As possibilidades foram estudadas entre prefeitura e empresas após decisão do governador Cid Gomes (PSB) de reduzir pela metade o ICMS para o diesel utilizado no transporte coletivo.
A outra dívida
Na penúltima semana de fevereiro, o governo anunciou que o Brasil deixara a sua histórica condição de devedor internacional para se tornar credor. Ou seja, as reservas do país passaram a superar o total da dívida externa, pública e privada. “Isso dá tranqüilidade à família, ao país, ao governo”, afirmou o presidente Lula. Para ele, o Brasil deverá crescer pelo menos 5% neste e nos próximos dois anos. Espera-se que – conforme costumar dizer o presidente – “as condições estejam dadas” para que outra dívida seja paga o mais rapidamente possível: a social. Pelo menos no mercado de trabalho o ano começou bem: em janeiro, o crescimento do emprego com carteira assinada foi o melhor para o mês desde 1992, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.
Altos e baixos da telona
Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro como melhor filme do Festival de Berlim, na Alemanha. Na semana em que o prêmio na Europa era anunciado, a Controladoria Geral da União (CGU) decidia que os produtores do filme Chatô, o Rei do Brasil, Guilherme Fontes e Yolanda Machado, deveriam devolver aos cofres públicos R$ 36.579.987,99 (valor atualizado até 28 de fevereiro de 2006). As filmagens foram iniciadas em meados dos anos 90, mas até hoje a obra não foi concluída, em um longo histórico de idas e vindas judiciais e sumiço de recursos.
Vida de gado
A equipe de fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Pará (SRTE-PA, antiga DRT) encontrou no mês passado 35 trabalhadores em situação de escravidão na fazenda Bonsucesso, em Paragominas (PA). A fiscalização chegou à fazenda graças a denúncias de um trabalhador “foragido”. Tinha no corpo marcas de queimaduras feitas a ferro quente, que teriam sido resultado de suas reclamações pelas más condições – moravam em um curral, junto com esterco de boi, e eram alimentados com restos de carne – e atrasos de pagamentos. A fazenda é de Gilberto Andrade, cujo nome consta da lista suja do Ministério do Trabalho, na qual aparecem propriedades processadas por empregar mão-de-obra escrava.
Olho gordo na Ilha
Cuba tem 110.000 km2 (pouco mais que os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo somadas). O PIB está na casa dos US$ 50 bilhões (pouco mais da metade do PIB da Bahia). Economia e território inofensivos, portanto. Mesmo assim, a saída de Fidel e a eleição de seu irmão Raúl Castro para presidir o país atormentam a mídia mundial. As razões declaradas: a falta de democracia e a intolerância ao controle privado de empreendimentos econômicos. Com todas as adversidades econômicas e geopolíticas, sustenta uma renda per capita de US$ 4.500, índice de desenvolvimento humano elevado (acima de 0,800, numa escala de 0 a 1), tem um povo altamente educado e sua economia cresce a taxas próximas dos 10% ao ano. E precisa, de fato, promover mudanças, sobretudo na política e na relação com a sociedade. Mas o mundo capitalista podia parar de “secar” e deixar essa tarefa para os cubanos.
Lancelotti e a Justiça
Foi encaminhada à 31ª Vara Criminal de São Paulo a conclusão do Ministério Público de São Paulo em torno do processo do padre Júlio Lancelotti. “Não resta dúvida de que os acusados associaram-se em quadrilha com a finalidade de praticar reiteradamente delitos de extorsão contra a vítima (Lancelotti) e que esses delitos ocorreram de forma continuada desde o ano de 2004”, concluiu o inquérito do MP. Ao denunciar as extorsões, no ano passado, o padre foi contra-atacado, acusado de pedofilia. Apesar da ficha imunda dos acusadores, grande parte da imprensa tratou o caso como espetáculo. O pouco destaque dado a essa conclusão do MP evidencia que, mais uma vez, jornalões e emissoras de rádio e TV aberta não se ocuparam com o mesmo empenho em reparar os estragos causados à imagem e ao estado emocional de Lancelotti.
Sem perder a esportiva
A seleção francesa de futebol fechou contrato com Nike de € 43 milhões/ano, para fornecimento de uniformes de 2011 a 2018. A França é sétima colocada no ranking de seleções e tricampeã do mundo; o Brasil é segundo no ranking, pentacampeão, nunca ficou fora de uma Copa e tem admiradores no mundo todo. Só a CBF, então, poderia explicar por que o contrato dos franceses é no mínimo três vezes superior ao da parceria entre a Nike-seleção brasileira. Mas patrocínio irônico mesmo é o do Santander à principal competição de futebol do continente, a Libertadores da América, que agora leva o nome do banco espanhol. Afinal, as lutas sangrentas das colônias pela independência da Espanha foram há tanto tempo, vamos passar uma borracha nisso...

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