Home Educação Morte do educador Anísio Teixeira não foi acidental, sustenta professor em livro
Educação é direito, não privilégio

Morte do educador Anísio Teixeira não foi acidental, sustenta professor em livro

Versão oficial aponta morte em decorrência de queda no fosso de um elevador, em 1971. Familiares e amigos nunca acreditaram e suspeitam de crime político
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
10:06
Compartilhar:   
Reprodução

Defensor da educação pública, Anísio Teixeira foi conselheiro da Unesco e reitor da UnB. Morte, em março de 1971, aos 70 anos, foi considerada suspeita

São Paulo – “Anísio Teixeira foi o campeão na luta contra a educação como privilégio”, disse o sociólogo Florestan Fernandes, em texto destacado na orelha do livro Breve história da vida e morte de Anísio Teixeira – Desmontada a farsa da queda no fosso do elevador, de João Augusto de Lima Rocha, recentemente lançado pela Edufba, a Editora da Universidade Federal da Bahia, onde o autor é professor titular da Escola Politécnica. Especialista no tema, 30 anos atrás ele esteve à frente do movimento pela fundação que leva o nome do educador, morto em 1971, aos 70 anos, oficialmente após cair em um elevador no prédio do professor e crítico Aurélio Buarque de Holanda, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro.

Em campanha por uma vaga na Academia Brasileira de Letras, no dia 11 de março Anísio iria almoçar com Aurélio, que dá nome a um dicionário. Faria um trajeto de apenas 600 metros, a partir da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também na Praia de Botafogo. Saiu às 11h. Desapareceu e só foi encontrado dois dias depois.

No prefácio, o ex-deputado Haroldo Lima diz que alguns familiares e amigos nunca aceitaram a versão. Ele conta que, ao sair da sala de autópsia, o médico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco Duarte Guimarães disse a Mario Celso, genro do educador: Mario, tio Anísio foi assassinado.

Segundo Lima Rocha, ao promover uma investigação por conta própria, a família descobriu “várias inconsistências” na versão oficial. O próprio autor descobriu que o laudo policial havia desaparecido. Em 2012, a Comissão Nacional da Verdade se encontrou com amigos e familiares do educador, e os questionamentos sobre as circunstâncias da morte de Anísio Teixeira aumentaram.

Em 6 de setembro daquele ano, Carlos Teixeira, filho de Anísio, entregou documentos à CNV. A investigação avançou, mas não foi concluída até o fim das atividades da Comissão, que entregou o seu relatório em 10 de dezembro de 2014.  No Auto de Exame Cadavérico, recuperado, os dois médicos legistas que o assinaram estabelecem que a morte se deu em 12 de março, mas não são conclusivos sobre a causa ter sido acidental.

Anísio Teixeira, que ocupou vários cargos na área da educação, foi reitor da Universidade de Brasília (UnB) de 19 de junho de 1963 a 13 de abril de 1964, 12 dias após o golpe e quatro dias depois que a UnB foi cercada e invadida pela repressão. Entrou no lugar do antropólogo Darcy Ribeiro.

Nos anos 1950, ele havia assumido a direção do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), criando o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE). Ainda antes, em 1946, foi conselheiro da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Sempre foi ferrenho defensor do ensino público. No livro, o professor Lima Rocha destaca que Anísio consolidou “a conexão entre educação pública e democracia, de maneira apropriada à evolução política e social do Brasil, em duas de suas mais importantes obras, a saber, Educação não é privilégio (1957) e Educação é um direito (1968)”.

O autor define Anísio como “um liberal avançado que se dedicou, durante toda a vida, à luta pela escola pública, universal e gratuita, na esperança de que isso servisse à construção e consolidação de um Brasil democrático”. Mas ele não escapou da pecha de comunista, “por conta de sua dedicação à luta pela extensão de um direito elementar a todos os cidadãos, embora nunca tivesse, por opção de vida, qualquer participação na política partidária”.

Por que desde o começo a informação sobre o acidente, como causa da morte, não foi aceita por alguns familiares e amigos?

Porque a família promoveu uma investigação por conta própria, com a ajuda de policial amigo, e descobriu várias inconsistências na versão que dava a queda como causadora da morte.

No livro, o sr. o define como “liberal convicto”, sem participação em política partidária. Mesmo assim, ele não escapou da pecha de comunista. Por quê?

Liberal, no sentido político, não econômico. O oposto a liberal, naquele tempo, era conservador, e Anísio era um pensador avançado, que colocava em prática suas ideias a favor da responsabilização do Estado pelo direito universal à  educação. A Igreja, que detinha a maior parte das escolas privadas,  cerrou fileiras  contra o educador, em pleno período da Guerra Fria. Daí o epíteto  de comunista foi logo colado nele.

Qual poderia ser a razão de assassinar uma pessoa como Anísio Teixeira, que não poderia ser considerado um militante político?

A capacidade de Anísio de colocar em prática suas ideias democráticas no campo da educação fez com que fosse perseguido durante toda a vida pelos conservadores, desde 1928. Mas uma coisa pode ter agravado tudo: a decisão dele de concorrer à Academia Brasileira de Letras, em 1971, com a perspectiva de  se colocar à disposição do movimento pela redemocratização do país, dada sua grande capacidade intelectual, a ser salvaguardado pela condição de Imortal da Academia.

Na sua opinião, qual a hipótese mais provável para o que aconteceu naquele trajeto de 600 metros entre a FGV e a casa de Aurélio Buarque?

Paulo Freire é cria de Anísio Teixeira. Anísio foi quem concebeu, e também foi  encarregado de colocar em execução  o 1º Plano Nacional de Educação, que começou a ser posto em prática em 1963, tendo tudo se interrompido em 1º de abril de 1964

Segundo me revelou Afrânio Coutinho, seu amigo e um dos responsáveis por convencê-lo a concorrer à Academia Brasileira de Letras, Anísio deve ter sido sequestrado no trajeto que intentou fazer a pé, no final da manhã de 11 de março de 1971. Teria sido levado para uma instalação da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, onde teria sido interrogado, entre 11 e 12 de março e 1971. Meu livro só prova, sem deixar qualquer dúvida,  que ele não morreu na queda no fosso do elevador. A continuidade da investigação foi aceita, e estava em curso, a cargo da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Presidência da República, que acaba de sofrer a intervenção do presidente Bolsonaro.

As autoridades se empenharam para investigar o caso?

Não. Nenhuma iniciativa nesse sentido foi divulgada, segundo meu conhecimento.

Como definir a obra de Anísio Teixeira e sua importância para a educação brasileira?

Trata-se de uma obra inovadora, em todos os campos da educação brasileira e da cultura internacional (ele participou da comissão que concebeu e instalou a Unesco), desde 1924 até 1971.  Foi o criador da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), dinamizador do Inep e o construtor das inovadoras universidades do Distrito Federal (Rio de Janeiro, 1935) e de Brasília (1962). Para Florestan Fernandes, em depoimento que me deu em 1991, Anísio foi o “primeiro e único filósofo da educação no Brasil”.

Qual paralelo pode ser feito entre ele e o também educador Paulo Freire?

Paulo Freire é cria de Anísio Teixeira. Anísio foi quem concebeu, e também foi  encarregado de colocar em execução  o 1º Plano Nacional de Educação, que começou a ser posto em prática em 1963, tendo tudo se interrompido em 1º de abril de 1964. As duas prioridades do Plano eram: 1. Generalizar a escola de dois turnos para todo o Brasil, tendo  o Plano Escolar de Brasília como  piloto; e 2. Campanha intensiva  de alfabetização de jovens e adultos. Os recursos para o trabalho de Paulo Freire nasceram dessa decisão.  Os dois educadores eram muito ligados. Paulo Freire fez uma brilhante carreira internacional, e Anísio foi aposentado compulsoriamente do serviço público, em 1964. Submetido a vários IPMs (Inquéritos Policiais Militares), nos quais nada se comprovou contra ele, Anísio desapareceu em 1971, no auge da capacidade criativa.

O que o sr. pensa do momento atual, de contínuos ataques à educação pública e estímulos a que professores sejam filmados em sala de aula?

Estamos vivendo uma fase deprimente, em que os dirigentes da República, em todas as esferas, pregam abertamente a submissão pura e simples a um mentecapto presidente dos Estados Unidos.  Estão ligados ao que há de mais atrasado e violento na nação. Vai passar!