Balanço

MST supera meta e doa 38 toneladas de alimentos na Feira Nacional da Reforma Agrária

“Sem dúvida, a Feira da reforma agrária é a síntese da grandiosidade do que é o MST e a diversidade da produção dos assentamentos”, comemora o movimento. Produtos do campo de todo o país foram apreciados por cerca de 320 mil pessoas

Guilherme Gandolfi @guifrodu
Guilherme Gandolfi @guifrodu
"Em um contexto de crise humanitária que vivemos em São Paulo, essa feira é um sinal de esperança", afirmou o padre Júlio Lancellotti

São Paulo – O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fez um “balanço político muito positivo” da 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária, encerrada na noite de ontem (14). De acordo com a organização, nos quatro dias da feira no parque da Água Branca, na capital paulista, foram vendidos mais de 560 toneladas de alimentos. Foram 1.730 itens, trazidos até a capital paulista por 1.700 produtores de 24 unidades da federação. Cerca de 320 mil pessoas que visitaram o evento levaram esses produtos para casa.

“Alcançamos todos os objetivos, em especial com a produção. Sem dúvida, a Feira da Reforma Agrária é a síntese da grandiosidade do que é o MST e a diversidade da produção dos assentamentos de reforma agrária pelo Brasil”, comemorou o integrante da coordenação nacional do setor de produção do MST, Diego Moreira.

Realizada de quinta (11) a domingo, a feira foi palco para 412 artistas, celebrando a cultura popular. Nas apresentações, samba, hip hop e moda de viola, poesia, teatro, dança e diversas outras formas de expressão. Com participação dos cantores Lenine, Larissa Luz, Liniker, Alzira, Chico César, Josyara, Mestrinho e Anelis Assumpção também marcou o último dia do evento. Também marcaram presença nomes como Zeca Baleiro, Alessandra Leão, Jorge Aragão, Gaby Amarantos e Johnny Hooker.

Dimensão da reforma agrária

A quarta edição da feira interrompeu um período de suspensão de quatro anos. Em 2019, o então governador João Doria (PSDB) vetou a sua realização no Parque da Água Branca. Doria sempre considerou “terrorista” o MST. E a pandemia de covid-19, no ano seguinte, também impediu a sua realização, retomada neste ano. A tradicional área de alimentação, dedicada aos pratos das várias regiões brasileiras – a Culinário da Terra –, também alcançou números grandiosos. Ao menos 80 mil refeições foram servidas com base em 95 pratos típicos de 30 cozinhas diferentes. Todos produzidos com alimentos oriundos da reforma agrária.

Para o MST, o evento foi uma oportunidade para a população conhecer a diversidade e a qualidade dos alimentos que vêm dos assentamentos e acampamentos da reforma agrária, livres de agrotóxicos e transgênicos. Foram comercializadas frutas, verduras, legumes, grãos, mel, queijo, doces, geleias, cachaças, vinhos, entre outros. Os visitantes também puderam conferir debates políticos, atividades de formação, como seminários e oficinas sobre assuntos ligados à agroecologia, feminismo, luta antirracista, reforma agrária popular, educação no campo e conjuntura nacional.

A feira também foi um espaço de interlocução da sociedade com parlamentares e ministros que compareceram. Entre eles, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira que confirmou a proposta do governo federal de lançar, neste mês, um novo programa de reforma agrária. “A reforma agrária vai voltar, para o Brasil distribuir terras, recuperar terras improdutivas”, afirmou durante o evento.

Doação de alimentos

“Nós precisamos construir uma sinergia dos movimentos sociais, da sociedade civil brasileira, e do governo democrático do presidente Lula, para avançarmos com um verdadeiro programa nacional de reforma agrária. Um programa nacional que vise desenvolver os assentamentos existentes, as mais de 500 mil famílias assentadas pelo país, já organizadas na base do MST, e assentar as mais de 80 mil famílias acampadas, com um Programa Nacional de Reforma Agrária, com o desafio de enfrentar o tema da fome nesse país”, justificou Teixeira.

O problema da insegurança alimentar grave no país mobilizou o movimento, que chegou a reservar 25 toneladas de alimentos para doação. A meta acabou sendo superada e, ao final do evento, 38 toneladas de produtos da agricultura familiar foram destinados a 24 organizações de assistência social de São Paulo. Durante o ato de encerramento, na manhã deste domingo, o padre Júlio Lancellotti abençoou a doação.

“Em um contexto de crise humanitária que vivemos em São Paulo, essa feira é um sinal de esperança”, disse o pároco, coordenador da Pastoral do Povo de Rua. “Nesse momento, a palavra é de gratidão e de encorajamento. A nossa luta vale a pena, e não podemos desistir. Ocupar, produzir, resistir e enfrentar”, acrescentou, acompanhado por ministros, deputados e militantes como o líder religioso sheik Rodrigo Jalloul.

Enfrentar a CPI

O tema da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso, contra o MST, também mobilizou as autoridades que contestaram a onda de criminalização do movimento e lembraram do acirramento dos conflitos no campo em diversos estados.

“Vamos enfrentar uma CPI. Não é a primeira, é a quinta CPI que vamos enfrentar. E vamos enfrentar dialogando com toda a sociedade. Lutamos para cumprir o artigo 16 da Constituição e para construir uma sociedade mais igual. Vamos mostrar quem é que grilou as terras nesse Brasil, quem sonega imposto, como é que o agronegócio faz para se reproduzir nesse país”, destacou o deputado federal Valmir Assunção (PT-BA).

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Marcio Macêdo, ressaltou que o MST “deveria fazer uma feira lá em Brasília, para mostrar para as pessoas do Congresso Nacional o que o movimento está produzindo”. Macedo é responsável pela condução das consultas para a construção participativa do Plano Plurianual (PPA). E, de acordo com o ministro, é fundamental ouvir os movimentos organizados. “É importante que o MST esteja presente, assim como a Contag, o MTST, e os movimentos organizados do Brasil todo. Para que esses próximos 4 anos tenham as impressões digitais do povo brasileiro”, apontou.



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