Agro predatório

Pesquisadora vê possível relação entre disseminação da covid-19 e atual modelo agropecuário

Cientistas levantam hipótese de que criação de porcos confinados pode favorecer a propagação do vírus. Contaminações são altas principalmente no oeste catarinense, região de forte presença da suinocultura

CC 2.0 Cgoodwin
Professora da USP estuda relação entre disseminação do vírus e modelo do agronegócio. "A gente tem várias formas de propagação de vírus em função desses criatórios intensivos, porque esses animais estão imunodeprimidos, fora de qualquer ética", destaca

São Paulo – É possível que exista uma correlação entre a disseminação da Covid-19 e o atual modelo predatório agrícola, particularmente na criação de suínos. É o que avalia a pesquisadora e professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi.

Em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, a pesquisadora falou sobre sua hipótese, explicada em artigo assinado junto com o farmacêutico alemão Immo Fiebrig e o técnico do Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento Pablo Nepomuceno, do Departamento de Geografia da USP. A análise se deu a partir da observação do aumento de casos da doença decorrente do novo coronavírus em Santa Catarina, particularmente no oeste do estado, a região líder na exportação de carnes suínas e de aves. 

Até esta quinta-feira (21), segundo boletim da secretaria de Saúde do estado, já eram 5.610 casos confirmados e 98 óbitos por covid-19, com Chapecó, tradicional sede das indústrias pecuárias, a cidade com o maior número de pessoas infectadas – 626. Outro polo agropecuário da região, Concórdia, é listado entre os 10 municípios com mais contaminações. Há também uma mancha de casos na costa litorânea catarinense, onde a densidade populacional é maior, com grandes centros urbanos, o que explicaria a disseminação do vírus nessa faixa. 

No oeste catarinense, para Larissa, pode estar ocorrendo um outro tipo de cadeia de contaminação, já que ali o arranjo populacional é diferente do litoral. “É uma hipótese, mas há uma correlação espacial e ela precisa ser investigada. É possível que esteja havendo uma correlação dupla ou triangular, porcos-pessoas e pessoas-porcos nessa perspectiva da cadeia de contaminação”, afirma. 

Presença da suinocultura no estado de Santa Catarina
Local de alta prevalência de covid-19 coincide com área de suinocultura em Santa Catarina

Agronegócio e a circulação de doenças

Larissa destaca que são necessárias mais pesquisas para que a hipótese seja comprovada, mas o modelo de pecuária intensiva já tem evidências de participação na circulação de doenças como a gripe aviária, por exemplo. Um pesquisador dos Estados Unidos, Rob Wallace também aponta, junto com outros cientistas de outras partes do mundo, para uma conexão entre o modelo do agronegócio e de degradação ambiental com a pandemia.

Na tese Big Farms Make Big Flu – em tradução livre, Grandes Fazendas produzem Grandes Gripes, Wallace chama a atenção para o fato de os morcegos – considerados portadores naturais do Sars-cov-2 – terem inoculado o vírus nos porcos. Segundo seu estudo, a supressão do habitat natural, das áreas verdes e florestais, rompeu o abrigo desses mamíferos que se realojaram nas comunidades rurais. E, no ambiente de granja de porcos, fechados e protegidos, encontraram alimentos nesses animais, que, confinados têm sua imunidade reduzida, favorecendo a propagação do vírus. 

“A gente tem várias formas de propagação de vírus em função desses criatórios intensivos, porque esses animais estão imunodeprimidos, fora de qualquer ética. Nós transformamos esses seres em mercadoria”, lembra a pesquisadora da USP.

“E olhando para Santa Catarina, nos faz pensar que essa hipótese possa ser referendada pela realidade quando percebemos essa sobreposição dos municípios em que há maior criatório de porcos e maior número de pessoas contaminadas por covid-19”, ressalta. A pesquisadora reforça que serão necessárias mais pesquisas de uma equipe interdisciplinar para comprovar a tese, mas os mapas da região já chamam atenção para a relação dessas indústrias com a doença.

Confira a entrevista na íntegra