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Dois pesos, duas medidas

Há não muito tempo uma das maiores preocupações de governos, escolas, entidades médicas e o resto do universo era a desnutrição infantil. Nas últimas décadas, o menos virou mais: a obesidade é o bicho-papão que assombra nossas crianças

Gerardo Lazzari

Em família: Renata dá suporte a Gabriel na luta contra a balança e não tira os olhos dos filhos mais novos, que apresentam alteração no colesterol

Uma doença alimentada pelas mudanças – para pior – da rotina de todos, pelo pouco investimento em educação alimentar, pela falta de tempo dos adultos e até pela dificuldade dos pais em lidar com o assunto. Não alivia o problema, mas dá algum conforto saber que a obesidade infantil é um fenômeno globalizado. Atesta a pesquisa da International Obesity Taskforce que o número de crianças no mundo acima do peso já representa o dobro do de subnutridas. Isso significa cerca de 350 milhões de pimpolhos.

No Brasil, fala-se do assunto usando um termo pomposo: transição nutricional. Ex-pátria de desnutridos, o país apresenta quedas expressivas dos índices nas últimas décadas – segundo o IBGE, 16,6% de nossas crianças eram desnutridas há 35 anos, número que caiu para perto de 4%. As pesquisas mais recentes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) revelam que 30% das crianças brasileiras estão com sobrepeso (10% a 20% acima do peso ideal) e 15% estão obesas (20% ou mais acima do peso ideal). A porcentagem é menor entre os adultos, de 10% a 13%.

“O horror é que a doença é resultado da mudança de hábitos das famílias, pois a genética não pode ser alterada nesse curto período de tempo”, diagnostica Marcio Mancini, responsável pelo Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

A obesidade é uma doença peculiar e resulta em múltiplas complicações, como diabetes, alterações músculo-esqueléticas, diminuição das funções respiratórias, alterações de colesterol e triglicérides e hipertensão arterial. É transmitida por hereditariedade e envolve diferentes genes. O primeiro sinal da doença é o ganho de peso. Seja ele justificado pelos hábitos ou não: há pessoas, por exemplo, cujo organismo não produz leptina, hormônio que dá a sensação de saciedade.

No entanto, grande parte dos casos constatados diz mesmo respeito à combinação de predisposição genética e meio ambiente – e daí entra uma característica cruel da doença. Se a pessoa é propensa à obesidade, mas mantém hábitos de vida saudáveis, pode ser que nunca venha a ganhar peso. Ou não: mesmo mantendo boa alimentação e atividade física, não tem controle sobre os quilos que se acumulam. Regra geral, depois que a doença se instala, inicia-se a eterna luta contra a balança. “Você a mantém sob controle, nunca se livra dela. É progressiva, fazendo com que o obeso ganhe peso ao longo da vida”, explica Mancini. Por todas essas razões é ainda mais preocupante quando se manifesta na infância: 80% das crianças que chegam obesas à adolescência se tornarão adultos obesos.

Hora do alerta

Até os 10 anos de idade existe um padrão de peso médio que norteia o diagnóstico médico, e o sinal amarelo se acende quando a criança acumula um excedente de 15% do peso indicado para sua faixa etária. Mas, como “cada um é cada um”, esse não é um diagnóstico que se faz em casa. “É papel do pediatra acompanhar a evolução da criança e orientar os pais”, diz Mancini. Passada essa idade, é feita uma conta matemática com o peso e a altura.

Renata Zoppello Kanashiro, estudante de psicologia, conhece bem essa matemática cruel. Ex-obesa mórbida, ela fez cirurgia de redução de estômago há cinco anos e perdeu 45 quilos. Sua doença está sob controle e, agora, ela apoia o filho mais velho, Gabriel, na luta com a balança. Desde pequeno Gabriel, assim como seus dois irmãos mais novos, apresenta alterações de colesterol. Ele esteve dentro do peso ideal até os 7 anos. “Nessa época, nossa família passou por um momento complicado e não pude dedicar muita atenção a ele. Daí misturou tudo: a predisposição genética, o momento de fragilidade emocional e o pouco controle que podemos ter sobre o que uma criança dessa idade come fora de casa”, conta Renata.

A sorte de Gabriel é o alto nível de informação da mãe, que percebeu o problema desde o início. Este é, aliás, um fator-chave: os pais precisam estar atentos e combater o problema. Não bastassem o cotidiano que dificulta oferecer alimentação de qualidade e o fato de muitos acreditarem que oferecer doces é expressar carinho, gordura é um tabu na maioria das sociedades.

Quem nunca ouviu a expressão “criança gordinha é criança saudável?” Segundo Fabio Ancona Lopez, vice-presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo e médico nutrólogo, a miopia dos pais em relação ao assunto dificulta o tratamento da doença. O que ele atesta está comprovado em um estudo britânico, que demonstrou que os pais têm dificuldade de perceber a obesidade dos filhos, sobretudo quando também sofrem com o sobrepeso. Na pesquisa, somente 25% dos pais reconheceram que os filhos eram obesos.

A relutância dos familiares atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de complicações. Na infância, a doença é tratada com dieta alimentar e exercício físico, às vezes combinados com acompanhamento psicológico – e é revertida em 20% dos casos. Se o problema é abordado na adolescência, o índice de recuperação cai em 20% e o tratamento pode requerer medicação. Na fase adulta, somam-se intervenções mais agressivas, como a cirurgia de redução do estômago. Mas a essa altura o obeso já acumula outras doenças, que precisam ser simultaneamente controladas.

Com o apoio do pediatra e de um endocrinologista, Renata está ajudando Gabriel. Também adotou uma dieta saudável em casa – estendida a todos da família, uma regra para o jogo dar certo – e aumentou a frequência de atividades aeróbicas do filho. Na idade de Gabriel, normalmente não se prescrevem medicamentos nem se busca eliminar peso, mas simplesmente não ganhar mais. Crescendo, o organismo resolve sozinho a relação entre peso e altura.

A atividade física é o outro fator de equilíbrio para a saúde das crianças, que nunca estiveram tão confinadas em casa. Ficar em casa ou perambular em shopping centers são atividades mais procuradas pelas famílias do que passeios de bicicleta ou caminhadas em parques. As próprias crianças tendem a buscar atividades preguiçosas. De resto, a modernidade não ajuda em nada. O mundo do delivery permite comer sem nenhum esforço – e comida de má qualidade. O computador e a televisão fazem com que os pequenos fiquem quietos por horas, para alívio dos pais que trabalharam a semana toda e querem sossego.

mauricio MoraisQueda de braço
Marisa procura controlar o apetite de Tiago por guloseimas. Fora de casa é que o bicho pega

Inimigos de peso

Ultrapassadas todas as dificuldades de oferecer aos pimpolhos alimentação saudável dentro de casa, arrancar os cabelos para criar lanchinhos gostosos e nutritivos sem ouvir palavrão, além de enfiar a família inteira no meio da história, é preciso ainda lutar contra dois inimigos de peso: as propagandas da TV e a cantina da escola. O único consolo é que são adversários conhecidos.

O estado de São Paulo quase conseguiu sair à frente nessa batalha, quando, em abril deste ano, a Assembleia Legislativa aprovou o Projeto de Lei nº 1.356/07, que além de proibir a comercialização, em cantinas e restaurantes escolares, de lanches e bebidas que não adicionam nada além de gordura desnecessária – salgadinhos, frituras, biscoitos recheados, pipocas industrializadas, balas, refrigerantes, sucos artificiais etc. – as obrigava a oferecer opções de frutas. A lei não passou da mesa do governador José Serra. Alegou que a carência de rigor técnico inviabilizava a aplicação e fiscalização. Curiosamente, a dificuldade de fiscalização não atrapalhou a aplicação da lei antifumo. 

Dentro de casa, a tentação chega via massacre televisivo. Crianças são o alvo preferido das propagandas de alimentos. Segundo pesquisas do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), 71,6% dos alimentos anunciados na TV são: fast-food, guloseimas e sorvetes, refrigerante e suco natural, salgadinho de pacote e biscoito doce ou bolo; e 73,1% dos produtos estão prontos para consumo – a maioria rica em gordura, sal e açúcar. “Esse marketing é perturbador. Até nos supermercados as crianças são provocadas: doces e salgadinhos ficam nas gôndolas mais baixas, ao seu alcance”, afirma o médico Marcio Mancini. Fabio Ancona Lopes concorda. “Nos rótulos dos alimentos as informações nutricionais têm letras ilegíveis e linguagem que ninguém entende, obviamente. A TV devia dedicar tempo à instrução da população.”

O curioso é que até os fabricantes de brinquedos estão achando alternativas lucrativas para “ajudar os pais” a movimentar a galerinha. A mais nova febre é o Wii, videogame que obriga os jogadores a se movimentar. Essa foi a mais recente tentativa da dona de casa Marisa Maria Ribeiro Broaska para tirar seu filho do sofá. Além do jogo, Tiago, de 11 anos e 15 quilos acima do peso, ganhou um cachorro. “Ele sai emburrado, mas vai caminhar”, conta.

A reação começou cedo, aos 2 anos. “Sirvo a mesma refeição para todos em casa. Por que o corpo dele reage diferente?”, ela se pergunta. A resposta está, provavelmente, em deficiências no metabolismo de Tiago. Aos 7 anos, começaram a surgir alterações em seus exames de sangue e ficou mais difícil controlar o que ele come fora de casa. “Ele exagera e minha impressão é que come por ansiedade. Além disso, estou mais preocupada do que ele e o pai. Se toda a família não está envolvida, fica quase impossível reverter a situação”, lamenta Marisa.

Como defesa em relação aos colegas de escola, Tiago se tornou o palhaço da turma. Essa é uma saída muito usada pelas crianças, principalmente os meninos. “O Lucas não se queixa muito”, conta a empresária Luciana Aparecida Araújo Lacerda Orosco. “Mas sei que rolam histórias chatas. Os gordinhos sempre rendem comentários maldosos.” Ele não reclama, mas busca discrição – e não quis ser fotografado. A mãe conta que Lucas sempre teve uma relação descomedida com a alimentação: “Foi um bebê que mamava demais, uma criança que comia bastante e hoje é um garoto que, enquanto tem comida, come”.

Impor dieta a uma criança não é tarefa fácil. Mas é regra para que a reeducação alimentar funcione

A família está investigando o problema. A sucessão de regimes não funcionou. “As dietas dos endocrinologistas são impossíveis. Uma delas recomendava tofu. Outra, torradinhas diet com gosto de isopor. Para outra compramos pão integral – ninguém aguentou”, descreve Renata.

Impor dieta a uma criança não é fácil – muito menos fazê-la junto. Mas é regra para que a reeducação alimentar funcione. Gilmar Vieira da Silva, assessor do sindicato dos químicos de Piracicaba, empenha-se em ajudar sua filha Maria, de 8 anos. “O pediatra falou muito sobre a importância do exemplo dos pais. Quando estamos juntos, sempre a levo para caminhar, e controlamos o que comemos. Quando ela elimina um quilo, comemora”, conta o pai. Com terapia, aulas de balé e dieta, Maria tenta fazer as pazes com a balança, com conquistas e derrotas.

É óbvio que a consciência da doença significa 50% do caminho em direção à cura, ou ao controle. Mas ainda existe um tabu a ser quebrado, segundo o qual só engorda quem tem dinheiro para fartura na mesa. Os números dizem o contrário: é nas classes mais baixas que crescem com maior velocidade os índices de obesidade, em função do pouco acesso a informação. “Comida ruim é barata”, afirma Alessandro Danesi, pediatra formado pela Medicina da USP que atende no Hospital Sírio-Libanês (SP). “Hoje sabemos que a obesidade tem muito mais a ver com más escolhas, desinformação e orçamento familiar.”

Lopez partilha do ponto de vista. “Historicamente, os obesos tiveram maior poder aquisitivo. Mas estamos assistindo a uma transição: a população de menor poder aquisitivo e baixa escolaridade está se tornando obesa. No Nordeste há mais obesos nas classes de menor escolaridade do que na classe alta no Sudeste”, observa o nutrólogo da Unesp. “Já está na hora de nos mobilizarmos para criar campanhas de conscientização para a população, a começar pelas escolas. Campanhas contra tabaco estão funcionando, outras em prol da boa alimentação também funcionarão.” Faz sentido.

Movimente a galerinha
Primeira lição, reflita: você está sendo um bom modelo à mesa?

O pediatra de seu filho deve ser aquele profissional em que você realmente confia. Esteja aberto às orientações e acompanhe com atenção o desenvolvimento do peso e da altura de seu filho.

Controle e balanceie as refeições servindo-as diretamente no prato.  A regra vale para toda a família.

Sirva sempre maior quantidade de alimentos frescos e de baixo valor calórico,  como saladas e legumes.

Mantenha na geladeira alternativas de lanches saudáveis, como frutas, iogurte e hortaliças.

Insista na saúde: não adote o discurso “já ofereci brócolis, mas meu filho não come”.

Você pode quebrar a rotina de alimentação saudável, desde que haja regras bem pensadas para isso. Por exemplo: só permitir refrigerantes na refeição do domingo.

Jogue em time: os pais têm de estar de acordo com as regras alimentares da família.

Criança precisa de movimento. Descubra atividades esportivas prazerosas. 

Sedentarismo é vilão – e você também cede a ele. Esqueça a preguiça e aproveite o fim de semana para se mexer: pedalar, caminhar em praças, brincar nos parques…

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