7 de setembro

Apoiado por minoria radical armada, Bolsonaro vai para o ‘tudo ou nada’, diz analista

Cláudio Couto (FGV-SP) revela preocupação com manifestações fascistas em 7 de setembro, mas destaca que bolsonaristas não representam o povo brasileiro

Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro tenciona, reduzindo possibilidade de convivência com os demais poderes da República

São Paulo – De acordo com o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto, as manifestações “fascistas” convocadas por Bolsonaro para 7 de setembro marcam um dos dias mais “preocupantes” da história brasileira, desde o retorno da democracia. Para ele, a presença de pessoas armadas – civis e militares – aumenta o risco de algum incidente que possa servir de armadilha para justificar o uso da força. Ao mesmo tempo, representa um “tudo ou nada” de Bolsonaro contra as instituições, especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF).

“O governo foi para o tudo ou nada. Esse é o significado primeiro desse 7 de setembro fascista que foi chamado por Bolsonaro”, disse Couto, em entrevista a Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta segunda-feira (6).

A incógnita, segundo o analista, é sobre o que vai acontecer no dia seguinte às manifestações. Para Couto, o desenrolar dos eventos indicam pouco espaço para um eventual recuo. Nesse sentido, limita também o espaço de convivência entre os Poderes da República. “Vai ser um 7 de setembro tremendamente tenso e preocupante. A gente torce para que pelo menos não haja atos de violência efetiva”, assinalou.

Minoria que se pretende ‘povo’

O que Bolsonaro pretende é mostrar que “o povo” estaria ao seu lado. Para Couto, trata-se de uma característica populista e autoritária. Pesquisas de opinião mostram o presidente em seus piores índices de popularidade. Portanto, ainda que multidões compareçam às manifestações golpistas, em Brasília e São Paulo, não se trata de uma maioria que ele possa se arvorar à condição de falar pelo povo. Além disso, até mesmo maiorias de ocasião devem se curvar aos limites da Constituição Federal, que também serve para garantir os direitos das minorias.

“Pode ser muita gente, mas não é o povo brasileiro”, disse Couto. Ele citou pesquisa da consultoria Atlas Político apontando que apenas 18% dos entrevistados dizem que pretendem participar das manifestações. Trata-se do “núcleo duro” do bolsonarismo, de acordo com o analista.

No entanto, a mesma pesquisa mostrou que cerca de 30% dos policiais militares têm intenções de irem às ruas em apoio ao presidente. São números que preocupam, segundo o analista, mas também mostram que a maioria das policiais não está disposta a participar desse tipo de ação política, que é vedada pela Constituição.

“Não quer dizer que os outros não sejam simpáticos a Bolsonaro, mas não são favoráveis a esse tipo de ação, uma intervenção armada de forças de segurança em favor de um determinado governante”, disse Couto.

Hesitação e covardia

Diante das ameaças de ruptura proferidas pelo presidente, Couto também chamou a atenção para posições “covardes” e “oportunistas” por parte de alguns setores da sociedade, especialmente do empresariado. Ele citou o recuo, após pressão do governo, de grupos ligados à Fiesp, que retiraram apoio ao manifesto “A Praça é dos Três Poderes”. No setor financeiro também houve defecções. Diante do apoio reiterado da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o sócio do banco BTG Pactual, André Esteves, advogou pelo abrandamento das críticas ao governo.

“Ou seja, na hora que precisam se posicionar em defesa da democracia, não o fazem. Porque têm medo de perder negócios, temendo algum tipo de inconveniente aos seus interesses mais imediatos. Essa covardia também é um elemento que conta. E são grupos que, pelo seu poder econômico, seria importante que se posicionassem de forma clara contra o governo”, disse Couto.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira – Edição: Helder Lima


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