Mãos femininas

‘Ópera de rua’ marca retorno do Ilú Obá de Min ao carnaval de São Paulo

Após três anos sem desfilar em razão da pandemia, bloco leva bateria formada por 350 mulheres, além de dançarinos e artistas circenses, para cantar vida e obra da filósofa e escritora Sueli Carneiro, nesta sexta

Ilú Obá de Min/Facebook/Reprodução
Ilú Obá de Min/Facebook/Reprodução
Ensaios finais para o desfile que marca o retorno do Ilú Obá de Min ao carnaval

São Paulo – O bloco Ilú Obá de Min abre na noite desta sexta-feira (17) o carnaval de São Paulo, com a proposta de uma “ópera de rua”, pelo centro da capital. “A gente está preparando o maior cortejo da história do Ilú”, diz umas das coordenadoras do coletivo, Daiane Pettine. O espetáculo também marca a volta ao público de uma das principais atrações do carnaval paulistano, após as ausências forçadas pela pandemia de covid-19, desde 2020. O tema escolhido pelas compositoras para a celebração deste ano é Akíkanjú: Pensamento e Bravura de Sueli Carneiro. A concentração será às 18h, na Praça da República, e vai em direção ao Largo do Paiçandu.

Com uma bateria formada por 350 mulheres, além de dançarinos e artistas circenses em pernas de pau, uma série de músicas especialmente compostas para o cortejo farão referências à vida e obra da filósofa e escritora. A palavra akíkanjú, do povo iorubá, tem significado que remete à bravura e coragem de um coletivo.

Sueli Carneiro, “farol filosófico do movimento negro”, é a homenageada do Ilú no carnaval deste ano (Foto: André Seiti/CC BY-SA 4.0)

O espetáculo é dividido em quatro atos que, conforme a evolução do desfile, farão referências a espaços simbólicos para a história da cultura negra na cidade de São Paulo. Um dos pontos de parada será as escadarias do Teatro Municipal, onde, em 1978, foi fundado o Movimento Negro Unificado. Nessa parada, será lido manifesto artístico e cultural inspirado na obra de Sueli Carneiro.

O farol

A paulistana Aparecida Sueli Carneiro é das maiores referências do ativismo antirracista e do movimento negro brasileiro. Fundadora e atual diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, ela é uma das mais relevantes pensadoras do feminismo negro do país. Por essas e outras razões, ela foi escolhida pelo Ilú para ser a homenageada no festejado retorno do coletivo às ruas de São Paulo. “O momento do carnaval é o momento de honrar Sueli Carneiro”, afirma Daiane.

“A gente enxerga muito a Sueli como esse farol filosófico, de projeto de mundo, que se relaciona intimamente com o Ilú. Sueli simboliza nossa luta. Ela sintetiza as políticas que a gente do Ilú defende. Um projeto que defende igualdade de gênero, igualdade racial, de oportunidades para as pessoas negras deste país”

Sobreviventes

A bravura foi fundamental para o Ilú Obá de Min, segundo a coordenadora, durante o período em que o coletivo cultural ficou fora das ruas devido à covid-19. “Esses anos de pandemia, com certeza, foram um baque muito grande para todo mundo que trabalha na cultura. Não só pela saudade de estar na rua, fazendo arte, oferecendo programação gratuita de qualidade. Mas também porque os artistas ficaram sem apoio e espaço para fazer seu propósito de vida, que é criar e compartilhar com as pessoas”, diz.

O Ilú Obá De Min – Educação, Cultura e Arte Negra é uma associação sem fins lucrativos que tem como base o trabalho com as culturas de matriz africana, afro-brasileira e a mulher. O nome pode ser traduzido por “mãos femininas que tocam tambor para Xangô” – “uma licença poética”, diz o site do coletivo, que foi fundado há 18 anos por Beth Beli, Girlei Miranda e Adriana Aragão.

Contando, atualmente com cerca de 400 integrantes, o bloco tem como influências diversas manifestações da cultura afro-brasileira, como os tambores de candomblé, o maracatu, o coco, o samba e o baião.

Ocupação das ruas

No domingo, o Ilú volta a desfilar pelo centro de São Paulo. A concentração será às 13h na rua Conselheiro Brotero, em Santa Cecília, com o cortejo seguindo em direção ao Armazém do Campo, na alameda Eduardo Prado. Este ano, o bloco planeja reservar um espaço reservado para as famílias atrás da bateria. “A gente quer que as famílias, e as famílias pretas, estejam com a gente”, afirma Daiane.

Por fim, a ativista cultural convida “as pessoas para estarem nos nossos cortejos, porque isso também é ocupação, ocupação da rua. E a gente precisa que as pessoas estejam com a gente. Os amantes da cultura, da cultura negra, dos tambores, orixás. Do carnaval tradicional, da cultura popular. A gente convida a todos a ocuparem esses espaços sim, porque ocupação a gente faz todo dia.”

Com colaboração de Clara Assunção, da RBA, e reportagem de Daniel Mello, da Agência Brasil 


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