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Subordinados ao algoritmo: a rotina de trabalhadores cujo escudo do patrão é um robô

“O robô diz ‘solicitação rejeitada’; se fosse um humano já tinha ativado minha conta”, afirma entregador recém desempregado

Marcello Casal/Agência Brasil
Marcello Casal/Agência Brasil
Entregadores paulistas afirmam não serem atendidos nem quando vão até a sede do iFood em Osasco

Brasil de Fato – No Brasil de 2022, o dia do trabalhador chega em contexto de inflação nas alturas, 12 milhões de desempregados e 4,8 milhões de pessoas que já até desistiram de procurar serviço.  

Enquanto isso, o crescimento das empresas de plataformas digitais revela como, entre bicos e outros empregos precários, o trabalho em apps tem sido amplamente usado como forma de sobrevivência para a população mais pobre.  

Entre 2016 e 2021 o número de trabalhadores via aplicativos no Brasil cresceu 979,8% só no setor de delivery. Em cinco anos eles passaram de 30 mil para 278 mil, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

O enorme contingente de pessoas trabalhando para empresas como iFood, Rappi, Loggi, Uber e 99 tem vivenciado algumas novidades nessas formas contemporâneas de relações de trabalho. Entre elas, o controle por meio de gerenciamento algorítmico e dataficação.  

“O robô não quer saber” 

José Ramos Eduvirges trabalha como entregador do iFood em Teresina (PI) há dois anos e tira daí sua única fonte de renda. Há quase dois meses, no entanto, ela secou: sem justificativa nem qualquer canal de diálogo com alguém que não seja um robô que envia respostas automáticas, José foi bloqueado do aplicativo.  

Quando Eduvirges fazia uma entrega em 15 de março, o celular caiu no chão e quebrou. Ele correu para casa e pegou outro aparelho. “Na hora que eu instalei o aplicativo em outro celular, o pedido tinha sumido. Eu devolvi, então, o produto no restaurante. Aí fui trabalhar normalmente, né? Trabalhei na segunda, terça e na quarta me bloquearam”, relata. 

“Eu falo, converso, olha o que o robô diz. O robô diz isso aí, ó. ‘Solicitação rejeitada’, o que o robô diz. Só isso. Se fosse um ser humano já tinha ativado minha conta”, lamenta, ao mostrar o print da única interlocução que consegue com a empresa.

Nem mesmo com uma mensagem enviada pelo estabelecimento ao iFood confirmando que a entrega não foi extraviada, Eduvirges conseguiu recuperar seu meio de sustento. “Isso daqui é minha prova, ó. É a dona do restaurante conversando com eles, o pessoal do iFood. Mas o robô não quer saber”.

A resposta do atendimento do iFood ao estabelecimento, em troca de mensagens aferidas pelo Brasil de Fato, é que a situação está “registrada no sistema” e que o entregador deve “procurar seu devido canal de atendimento”. 

O fim dos bloqueios sem justificativa é uma pauta presente em todas as greves feitas pela categoria. 

Relações ocultas 

Em artigo publicado neste mesmo Brasil de Fato, o advogado Thiago Barison elenca a subordinação de trabalhadores ao algoritmo da plataforma digital como a mais nova forma de tentativa de ocultamento da relação capital-trabalho, depois das clássicas pejotização e terceirização. 

“É uma subordinação estrutural: a atividade econômica é concebida, organizada e dirigida pela inteligência artificial, que se materializa em linguagem de programação”, argumenta. 

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“O capitalismo progressivamente se emancipou da necessidade de direção pessoal do trabalho. O ‘chefe’ se materializa num robô absolutamente impessoal, objetivo, técnico”, aponta Barison.  

Aderindo à plataforma digital, o trabalhador ingressa, na visão de Barison, “num contrato de trabalho de meados do século XIX”. O combinado é trabalho em troca de remuneração, mas nem isso está pactuado, como evidencia o caso de Eduvirges. 

Como se fosse algo abstrato ou não humanamente programado, parece ser uma prerrogativa do algoritmo a alteração do valor da corrida ou entrega segundo as circunstâncias, o bloqueio da plataforma ou a oferta de promoções quando interessa atrair trabalhadores.  

O chefe existe, mas é inalcançável 

Altemício Nascimento trabalha há 30 anos fazendo entregas em sua moto na cidade de São Paulo. Depois de décadas como motoboy, em 2017 se viu obrigado a aderir aos aplicativos. Entre as várias mudanças que isso implicou em sua rotina, entre as quais a diminuição do rendimento mensal, ele destaca a impossibilidade de falar com seres humanos. 

“Um exemplo: deu problema no endereço do cliente, os caras demoram muito. Até uma hora, uma hora e meia, para retornar. Você não consegue falar com ninguém”, afirma, se referindo ao iFood. 

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“Mas se eles detectam que um pedido foi extraviado ou algo do tipo, os caras te ligam. É unilateral. Eles falam com a gente a hora que eles querem. Acabou a ligação você já não consegue mais ligar naquele número de telefone que eles te ligaram”, conta. 

Para Nascimento, a relação de trabalho é com patrão: a diferença é que ele é inalcançável. Uma relação digna dos livros de Franz Kafka. “É só um ‘H’ que eles deram para dizer que é o algoritmo que comanda, mas eles [donos da empresa] têm controle de tudo. Eles controlam o motoboy”. Um “H” é, em outras palavras, uma “conversa fiada”.

“O império é para eles” 

Segundo Nascimento, nenhum dos colegas bloqueados pela plataforma conseguiu interlocução satisfatória com o iFood. “Não tem como você reclamar. Não tem como. Não tem base, não tem nada. Não existe. Bloqueou, já era”. 

Em São Paulo, a sede física do iFood fica na região metropolitana, em Osasco. Nenhum dos entregadores ouvidos pela reportagem conseguiu resolver sua situação de bloqueio indo lá pessoalmente. 

“Lá você também não é atendido. Nem passa pela porta, não entra. É um prédio que o prédio que o motoboy não tem acesso. O luxo é para os funcionários deles lá, ar condicionado, tudo. O império é para eles”. 

Uma matéria da revista Exame publicada em 2019, pouco depois que o espaço de 12 mil metros quadrados foi inaugurado em Osasco, fez uma abordagem “por dentro do escritório do iFood”.  

O texto descreve um ambiente com patinetes disponíveis para funcionários circularem pelo ambiente e “dog day”, que consiste em um dia em que alguém é sorteado para levar o cachorro para o trabalho: o animal ganha um kit com ração, tapete e um crachá de iDog. Cerveja, café, capuccino, chocolate quente, refrigerante, suco, frutas e bolachas ficam disponíveis o dia inteiro. 

Algoritmos não são neutros 

No artigo Breque no despotismo algorítmico, a socióloga Ludmilla Abílio argumenta que “a distribuição algorítmica do trabalho não é uma roleta aleatória que gira sem mãos”.  

Para ela, o gerenciamento por meio de algoritmos “é a possibilidade de traduzir modos de vida, relações sociais, trajetórias e desigualdades em dados administráveis que produzirão e reproduzirão desigualdades e mecanismos de exploração do trabalho”.  

“É a possibilidade de designar corridas para a favela para o motorista negro e para o centro de São Paulo para o motorista branco. De ofertar uma bonificação ao motoboy-pai-de-família quando anoitece e ele estava indo para casa. De engajar o trabalhador disponibilizando mais corridas hoje e quase nenhuma amanhã”, exemplifica Abílio.

Nessa relação de trabalho, narra Ludmilla, o trabalhador está “submetido a regras onipresentes, mas ao mesmo tempo obscuras, cambiantes, não negociáveis”.


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