Um brasileiro internacional

Para o diretor Fernando Meirelles, o cinema brasileiro nunca esteve tão bem. E medidas como a instalação de salas em cidades pequenas e a criação do vale-cultura podem ajudar a resolver a falta de público

“Nunca pensei em qual seria o meu mercado, apenas conto histórias que me tocam (Foto:Divulgação)

 

Os mais velhos provavelmente se lembram do histriônico Ernesto Varella, o repórter “representado” por Marcelo Tas que fez sucesso na TV dos anos 1980. Os mais novos não podem deixar de lembrar dos personagens mágicos do Castelo Rá Tim Bum, programa ainda hoje reprisado na TV que já deu até nome a um canal a cabo dedicado exclusivamente a crianças. O que poucos sabem é que por trás desses programas sempre esteve o dedo de Fernando Meirelles, considerado um dos cineastas brasileiros mais conhecidos e bem cotados no mercado internacional do cinema – dois de seus filmes, Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, já estiveram no palco do Oscar, concorrendo a prêmios. Paulistano, 55 anos, Meirelles é formado em Arquitetura, mas nunca exerceu a profissão. Desde muito jovem aventurou-se em produzir programas em vídeo – o que, na década de 1980, era uma novidade –, fazendo programas independentes para a TV com a produtora Olhar Eletrônico.

O tempo passou, Meirelles entrou no mercado publicitário com sua nova produtora, a O2 Filmes, e apesar de bem-sucedido no setor nunca abandonou sua verdadeira vocação: os programas de TV e, principalmente, o cinema. Hoje, premiado, com uma carreira sempre brilhante, Meirelles é um diretor de cinema convidado por produtoras internacionais. Mas, apesar da fama e da projeção, é receptivo e nunca perdeu um certo ar de inocência, quase juvenil, o qual algumas vezes o faz parecer assustado com seu inegável sucesso. Esta entrevista foi feita em janeiro, por e-mail e por telefone. Meirelles estava em Viena, na Áustria, onde deve permanecer até maio dedicando-se a um novo filme. “Os produtores me pedem para não divulgar nada”, disse. Mas não se furtou a falar de planos para 2011 e de suas ideias sobre o cinema brasileiro.

Você está produzindo, pela O2, um filme sobre o Parque Nacional do Xingu. Fale sobre esse projeto.

Conta a história dos irmãos Villas Bôas e sua luta pela defesa dos povos indígenas, que culminou na criação do Parque Nacional do Xingu, durante o governo do Jânio Quadros, onde vivem hoje 15 etnias. É uma história impressionante de resistência e determinação e discute um tema muito atual, que os irmãos já discutiam há 50 anos: a importância da preservação das florestas e das culturas indígenas. Neste momento em que acabamos de eleger uma presidenta que segue a política desenvolvimentista dos últimos oito anos, na qual “crescimento” foi a palavra mágica e incontestável, vale pararmos para pensar se os rumos da nossa sociedade são de fato tão razoáveis e inquestionáveis assim. Se não fossem os irmãos Villas Bôas lutando contra a lógica que prevalecia nos anos 50, aliás exatamente a mesma de hoje, o governo brasileiro teria repetido o desastre acontecido nos Estado Unidos ou nas colônias africanas onde os brancos impuseram sua cultura e religião, acabando com várias nações locais. O filme é dirigido pelo Cao Hamburger, tem no elenco João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat e Maria Flor e será um dos grandes lançamentos de 2011, quando o parque completa 50 anos. 

Qual foi seu envolvimento com o filme José e Pilar, o documentário sobre o escritor português José Saramago, o Nobel de Literatura, morto no ano passado? 

Conheci o diretor Miguel Mendes quando ele estava acompanhando os passos do escritor José Saramago e sua mulher Pilar del Rio para rodar seu filme. Na noite em que ele me filmou, eu tinha apresentado o longa Ensaio sobre a Cegueira para o Saramago, baseado num livro dele. Daí nos conhecemos, saímos para tomar uma cerveja e nos demos muito bem. Reencontrei o Miguel outras vezes durante o lançamento do Ensaio em Portugal e meses depois ele me ligou no Brasil pedindo ajuda para conseguir acabar seu filme. A O2, produtora da qual sou sócio, arrumou um financiamento para a conclusão do filme e ele veio terminar a montagem e fazer a pós-produção em São Paulo. Junto com essa ajuda prática, o coitado teve de ouvir meus palpites sobre sua montagem. Seu desafio era reduzir o filme, que estava com quase seis horas de duração, para apenas duas. Acho que é um dos documentários mais tocantes a que já assisti.

Você aparece numa das cenas finais de José e Pilar, junto com Saramago. E até dá um beijo nele. Como foi esse contato com o escritor?

Enquanto eu rodava o Ensaio o Saramago ficou muito doente e, segundo ele, escapou da morte por questão de minutos. Por causa dessa enfermidade, nossa relação durante o processo se limitou à troca de alguns e-mails. De qualquer maneira, quando o encontrei da primeira vez, ele me avisou de cara que, apesar de ser autor do livro, não daria palpites no filme. Infelizmente.

(Logo após assistir a Ensaio sobre a Cegueira ao lado do diretor, Saramago emocionou-se e comentou: “Fernando, estou tão feliz por ter visto esse filme como estava quando acabei de escrever o livro”.)

Como você se definiria como cineasta? Qual é seu mercado e quais são seus objetivos?

Nunca pensei em qual seria meu mercado, apenas conto histórias que me tocam, talvez para poder me aproximar delas e gastar um tempo tentando entendê-las. Às vezes, mais do que as histórias, me interessa encontrar uma maneira para contá-las, a linguagem. Tenho prazer em descobrir uma música que modifique o sentido de uma imagem, criar uma transição entre uma sequência e outra que seja original, fazer um comentário que pode não fazer parte da história, usando recursos de direção de arte ou fotografia. Gosto de desafiar atores. Achar maneiras erradas ou diferentes de resolver um diálogo. Não me vejo como um artista, mas sim como um artesão. 

Como é seu relacionamento no mercado do cinema? Você hoje se coloca nesse mercado como diretor de cinema ou como produtor? 

Em volume, produzo mais filmes do que dirijo, mas quando faço isso sempre digo a mim mesmo que será a última vez. Prefiro dez vezes mais dirigir. Sinto que sou um contador de histórias com alguns recursos, o que me garante sempre, no mínimo, evitar um trabalho vergonhoso. Já como produtor, se eu não tivesse minhas parcerias ao redor, teria ido à falência umas 19 vezes. Sofro de um mal incurável, o entusiasmo. Por mais que tente, não sou a melhor pessoa para medir as consequências das próprias escolhas e vou entrando em barcas no impulso, sem antes checar se o casco está fazendo água.

Você é um dos diretores brasileiros mais conhecidos internacionalmente. Nesse mercado, é considerado um diretor brasileiro ou sem uma nacionalidade específica, apenas um diretor competente?

Não sou o diretor mais conhecido internacionalmente. O Walter Salles está na estrada há mais tempo, é mais premiado que eu, assim como o José Padilha, que ganhou um Urso de Ouro (por Tropa de Elite). O Andrucha Waddington (Eu Tu Eles) está começando uma carreira internacional com seu Lope (Espanha) e não nos esqueçamos do (Carlos) Saldanha, que dirigiu A Era do Gelo e certamente é o diretor brasileiro de maior prestígio e maior bilheteria internacional que teremos por muitas encarnações. Acho que no mercado internacional sabe-se que sou brasileiro, mas isso não pesa muito a meu favor nem contra. O cinema é um mercado muito globalizado. Ninguém pede para ver o passaporte.

Qual é a grande diferença entre dirigir atores novatos, como foi em Cidade de Deus, e celebridades, como Rachel Weisz (de O Jardineiro Fiel) e Juliane Moore e Gael García Bernal (de Ensaio)?

Atores treinados têm técnica e conhecem seus processos de trabalho, por isso é mais fácil dirigi-los. Como a maioria dos atores de Cidade de Deus não tinha experiência anterior, foi preciso um semestre de oficinas e exercícios para dar-lhes certa experiência de como cada um funcionaria diante da câmera. Esse trabalho foi feito principalmente pelo Guti Fraga, diretor do grupo Nós do Morro, do Rio, com um acompanhamento muito dedicado e delicado da Katia Lund e meu. Na reta final contou com a ajuda da Fátima Toledo, renomada preparadora de atores. Depois que esse elenco já estava mais familiarizado com o processo, na hora do set mesmo, a maneira de trabalhar não foi muito diferente do processo com atores treinados.

Você acha que emprega uma linguagem de cinema brasileiro nos filmes que dirige ou produz?

Não saberia dizer o que é uma linguagem brasileira de cinema, ainda mais agora que nossa produção anda tão diversa. Sou influenciado por tudo que vejo, consciente ou inconscientemente. As soluções que encontro para dirigir são o resultado dessa salada de referências, talvez com alguns insights.

Existe uma linguagem de cinema brasileiro?

Existia uma cara de filme brasileiro que era meio indigente, a falta de recursos econômicos e técnicos – junto com a falta de formação profissional e do exercício constante da atividade pelos diretores e equipe – criava uma certa estética reconhecível. Alguns diretores souberam usar isso a seu favor brilhantemente, mas muitos quebraram a cara. Sinto que hoje, mesmo quando não há dinheiro para uma produção, a nova geração de realizadores se garante melhor pela sua capacidade técnica. E quando digo capacidade técnica não me refiro a câmeras caras ou efeitos especiais, mas sim a técnicas ou método de direção de ator, técnica para escrever um bom diálogo, técnica para criar uma boa cena e bons roteiros. 

Como você avalia a situação do cinema brasileiro? 

O cinema brasileiro nunca esteve tão bem e talvez a principal razão disso tenha sido a criação das leis de audiovisual nos anos 1990, que possibilitaram um maior volume de produção e fortaleceram a indústria e o aparecimento de muitas escolas de cinema, de onde têm saído os novos talentos que agora começam a aparecer. Provavelmente o ex-presidente Lula diria que tudo foi feito por ele, já que esse resultado tem surgido nos últimos anos, mas sinto que esse é o resultado de um processo de amadurecimento mais longo. 

Como se conseguem investimento e verba para produzir cinema no Brasil?

Não se pode dizer que é fácil, mas, se em 1995 foram produzidos seis longas e em 2010 foram 110, não se pode negar que a atividade esteja mais favorecida hoje, ainda mais se pensarmos no grande mercado que se abriu com as TVs a cabo e a internet. O novo gargalo do cinema, que já está sendo atacado, é a exibição. Há poucas salas de cinema no Brasil e o ingresso é muito caro para nossa população. O BNDES criou uma linha de financiamento para incentivar a construção de salas de cinema em cidades com menos de 100 mil habitantes. O vale-cultura, também em discussão, deve ser outra medida que trará um impacto positivo no mercado.

Qual caminho deve seguir um cineasta brasileiro para tornar-se um realizador?

Não existe um padrão. Há diretores que começaram como assistentes, outros, como eu, vieram da televisão independente. Há roteiristas, montadores, fotógrafos ou atores que passaram a dirigir. Atualmente está aparecendo uma nova geração formada em escolas de cinema e creio que são melhores do que nós, os diretores mais velhos. Há também um movimento de jovens diretores formados em grupos de cinema de comunidades, o filme 5x Favela, Agora por Eles Mesmos, produzido pelo Cacá Diegues, soube olhar para esses talentos. Algumas coisas, no entanto, são imprescindíveis para quem quer dirigir: saber se relacionar com muita gente diferente, gostar de correr riscos, ter uma certa obstinação e, claro, ter algum talento em alguma área não atrapalha. 

Qual é o projeto ambicioso que você ainda pretende realizar?

Tenho vontade de fazer uma adaptação de Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa, mas não sei se algum dia terei coragem e capacidade. Gostaria de contar histórias que se passam na África, sobre africanos, não sobre colonizadores.

Como você avalia sua carreira? Quais foram os momentos mais importantes e mais frustrantes?

Eu não penso muito no meu trabalho como uma carreira, penso em um dia depois do outro, e vou me envolvendo com o que aparece e me interessa cada vez que termino um trabalho. No momento estou trabalhando nesse filme, que é pequeno e não deve fazer grande público, mas estou motivado. Já aconteceu de eu estar no lugar certo, com o projeto certo, mas na hora errada, e assim alguns projetos não foram para a frente. Como exemplo posso citar um filme chamado Lion’s Share, sobre piratas na Somália, que eu queria muito fazer, mas surgiu num momento em que eu não estava livre para embarcar. Há muitos outros exemplos assim. E também o oposto: há 20 anos trabalhei por um bom tempo na produção de uma minissérie para a Globo, uma adaptação do livro Mar Morto, do Jorge Amado. Depois de meses, por um problema de custos, o projeto naufragou. Essa foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, pois hoje sei que eu não estava pronto para o tamanho da produção e teria sido um desastre. Cada vez que opto por um filme, estou abrindo mão de muitos outros, e isso é sempre angustiante. Um filme leva no mínimo uns dois anos para ser feito, o que significa que, se eu tiver sorte, consigo fazer mais uns oito ou nove. Isso faz com que cada decisão se torne uma angústia. Hoje sofro menos por isso, mas não é algo resolvido. 

O que você acha do fechamento do tradicional Cine Belas Artes, em São Paulo? 

Somos sócios do cinema, entramos na sociedade para tentar conseguir patrocínio e manter a sala aberta. Isso deu certo por sete anos, mas agora foi oferecido ao proprietário um valor de aluguel quase três vezes maior do que o que pagávamos, então não há mais jeito de manter o negócio, que já era deficitário. Com a estação de metrô ali na esquina, o preço explodiu. Uma pena. São Paulo vai perder um dos poucos cinemas de rua que restavam e ganhar sua milionésima lojinha. Quando paga R$ 18 num ingresso de cinema, você pode ver um filme que fará parte da sua vida, como fazem muitos filmes que vimos. Mas, quando se gastam os mesmos R$ 18 numa camisa, ela não dura nem até o final do ano. Não entendo a opção pela camisa. Ó vida!

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