comportamento

O alerta da ciberdependência

Compulsão diante de um computador conectado à internet e seu uso prolongado e contínuo afastam pessoas do mundo real, atrapalham o rendimento escolar ou profissional, causam danos físicos e psicológicos. Podem até matar

Regina de Grammont

A pessoa tem problema e acaba usando isso como válvula de escape. Às vezes lida bem, às vezes não, a culpa não é só do computador e do jogo.” J.J

“Meu nome é D., 33 anos, e acabei com a minha vida. Perdi meu marido, minha casa é uma bagunça, fui mal na faculdade e tudo por causa da internet. Fico violenta e irritada, parei de fazer comida, não vou ao banheiro, nem água bebo. Preciso de ajuda. Sinto tontura, tenho vômitos e tremedeiras.” Dez pedidos de socorro chegam toda semana ao e-mail do psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do ambulatório de dependência de internet do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), um dos poucos centros do país a tratar desse distúrbio.

“O brasileiro é líder no mundo em tempo de conexão. Ninguém ainda se deu conta da onda que está se formando. Na hora que ela quebrar vai levar muita gente”, alerta o psicólogo. De ferramenta libertadora, para muitos a internet se tornou instrumento de controle e refúgio. “Tenho diversos problemas na escola, no namoro, na vida social, não consigo me concentrar. Tenho 17 anos e não sei mais o que fazer”, desabafa um dependente.

Apesar de pouco estudada e ainda não classificada pelos manuais e livros de referência da psiquiatria mundial, a questão é tida como um transtorno que vai acometer cada vez mais pessoas neste século. O que diferencia um indivíduo dependente do não dependente é que este entra na internet, realiza a atividade e sai. O dependente cria um mundo virtual para ter experiências de vida. Alguns fatores são predisponentes ao uso abusivo da internet. Desconforto emocional, depressão, problemas nas relações interpessoais, bipolaridade, autoestima e confiança rebaixadas, timidez, falta de proatividade. “Meu filho tem 13 anos, faz dois que começou a ficar conectado. Passa o tempo todo agressivo. Quando sai, precisa tomar medicamentos fortes. É desesperador”, relata uma mãe.

Aderbal de Castro Vieira Jr., do Programa de Sexo Compulsivo e Internet da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a dependência de internet não é química: “Qualquer coisa que cause prazer, bem-estar, alegria para algum tipo de desconforto pode ser vivida com uma dinâmica de dependência”. E o que é dependência? “Basicamente é uma relação disfuncional e patológica com alguma coisa. Pode ser com uma substância, comportamento ou pessoa. O que define a dependência de internet serve para qualquer outra dependência”, explica Aderbal.

Um relatório da entidade de psicologia britânica Advances Psychiatric Treatment estima que entre 5% e 10% dos internautas do planeta sejam dependentes. Segundo a Internet World Stats, organização que monitora estatísticas da rede, o mundo tem 1,7 bilhão de conectados. O Brasil, com 45 milhões, e aplicada essa conta, pode ter cerca de 4 milhões de dependentes.

E-mails, salas de bate-papo, jogos on-line, compras, sites com conteúdo específico (erotismo, relacionamentos, bolsas de valores, busca de informações etc.) são recursos que podem viciar se o autocontrole não for posto em prática. “Meu casamento de 15 anos está acabando por causa da internet. Meu marido está completamente viciado em salas de bate-papo, vai dormir mais de 3 da manhã. Quero salvar meu casamento”, diz outro relato. 

Cristiano dá a dica: “Fique de olho quando você não consegue fazer qualquer atividade prazerosa que não esteja conectada com a internet, se vai para a internet quando não tem o que fazer, ou está entediado ou deprimido, ou a utiliza como maneira de regular o humor. Um paciente nosso descrevia: ‘É meu prozac virtual’ ”. A dependência não está necessariamente relacionada ao excesso de horas na frente do monitor. É o propósito por trás da conexão que revela um dependente. “Quem usa a internet como forma de se refugiar do mundo por não estar bem já pode ser um dependente com uma hora de uso”, esclarece Cristiano.

Luciana WhitakerMarijane Martins
Muitas vezes eu chegava em casa sem meu pagamento. E como explicar ao meu marido? Eu inventava assalto, pedia pra entrar de graça no ônibus…” Marijane Martins

“Sensação fenomenal”

O jogo na internet é um apêndice relacionado à dependência de web. Jogadores compulsivos passam mais de 30 horas seguidas em frente ao computador diante de desafios e objetivos que tornam o jogo praticamente sem fim. Em muitos casos, jogos são projetados para manter a atenção ininterruptamente com recompensas a conta-gotas. A cada fase, são novos “poderes” para os personagens e revelações sobre a sequência da história, quase sempre num mundo de seres virtuais com forças sobrenaturais. Consequência inevitável do excesso é o esgotamento físico e mental.

Alguns casos chegam ao extremo. Em 2005, na Coreia do Sul, um homem morreu depois de jogar durante 50 horas. Três anos antes, haviam morrido dois sul-coreanos. Um passou 86 horas na frente do computador e o outro, 32. Em 2007, um chinês de Pequim teve parada cardíaca depois de jogar três dias seguidos.

No Brasil, não se tem notícia de morte causada por compulsão de jogos de computador. Cristiano Nabuco recorda um caso dramático de uma mãe que pediu ajuda para o filho de 16 anos, que desde os 14 não saía de casa. “Ele ficava em média 45 horas ininterruptas jogando e se alimentava na frente do computador. Perguntei como ele ia ao banheiro: ‘Ele fica 45 horas sem levantar e faz tudo nas calças’. Jogava com uma e com a outra mão tirava a cueca suja e arremessava pela janela”, conta. O caso foi de internação devido ao estágio de comorbidade.

J.J., 25 anos, trabalha em uma lan house. Publicitário de formação, demonstra consciência ao falar dos jogos eletrônicos e não se considera viciado compulsivo. Joga Word of Warcraft – maior Role Playing Game (RPG) on-line do mundo e ponto de encontro virtual de milhares de adeptos. Para chegar à fase máxima da atual edição (o jogo é pago e tem atualizações anuais), J.J. ficou 552 horas, 49 minutos e 5 segundos em frente ao PC. Em 23 dias, cumpriu 1.489 tarefas e matou 21.357 criaturas.

Seu personagem é um Rogue da raça Undead (morto-vivo) e ataca principalmente pelas costas. “Eu jogava umas 12 horas por dia nos últimos tempos para chegar nessa fase”, conta. “Você se prepara como para uma maratona e seu corpo se acostuma. Planejei na minha cabeça quando comecei a jogar, há uns sete anos, que por mais que eu fique ligado tantas horas preciso ir ao banheiro, comer, me hidratar, dormir. Coisas que o jogador consciente deve fazer”, ensina. “Se tem gente que cansa com seis horas, eu canso com 12. Depois de todo esse esforço, conseguir o título, o item ou acabar com o chefão é uma sensação fenomenal.”

Essa misto de prazer e euforia ao jogar é efeito de descargas elétricas entre neurônios induzidas pela dopamina, uma substância liberada no cérebro também durante os atos de comer, beber e fazer sexo. Quanto mais, maior a sensação de prazer. No dependente de computador a liberação desse neurotransmissor também é causada por movimentos repetitivos. No viciado em drogas, pelo estímulo químico. J.J. diz ter uma vida social fora dos jogos e com amigos reais, muitos vindos das relações do jogo virtual. Para ele, não se pode pôr a culpa no computador e nos jogos pelos casos extremados de mortes e assassinatos. “A pessoa tem problemas e acaba usando isso como válvula de escape. Às vezes lida bem, às vezes não, a culpa não é só do computador e do jogo”, afirma.

Na lan house onde trabalha durante a madrugada, J.J. mostrou à reportagem um pouco do seu universo e em vários momentos era interrompido por frequentadores com dúvidas ou desejosos de trocar informações, sempre numa linguagem muito particular. “Aqui é como se você estivesse dançando num lugar onde todo mundo dança do jeito que você dança. Você vai dançar da forma mais ridícula, mas vai se sentir bem porque está todo mundo dançando igual”, compara.

O tratamento de viciados em internet é semelhante ao de dependentes de drogas químicas, e as pessoas, em geral, dificilmente se identificam como usuárias abusivas. “Nossa experiência mostra que pessoas em estado de maior gravidade são sempre levadas por alguém, já o indivíduo que não está tão comprometido tem consciência”, pontua Cristiano Nabuco.

O organismo de um viciado em internet pode reagir de maneira similar à de um viciado em drogas como crack ou cocaína. Pode sofrer crises de abstinência ou recaídas, mas é preciso diferenciar. De acordo com Aderbal de Castro, da Unifesp, há dois fenômenos orgânicos. A abstinência, quando o corpo “sente” a falta da droga, e a tolerância, quando o corpo “pede” doses mais elevadas para ter o mesmo efeito. “Com o comportamento você tem situações correlatas, mas não é a regra”, esclarece. Os casos relatados na reportagem são tratados com psicoterapia individual ou em grupo. “Aliado a isso, o paciente tem acompanhamento psiquiátrico porque existem elementos, como a ansiedade, que podem reforçar o uso da internet ou ser por ele reforçados”, acrescenta o psiquiatra. A ideia da psicoterapia é descobrir o que levou a pessoa a estabelecer aquela relação de dependência. “A resposta mora dentro dela e nossa proposta fundamental não é fazer com que as pessoas parem de usar a internet, mas compreender o que está acontecendo”, finaliza.

jogo

“Não sou a única”

Há dois anos a carioca Marijane Martins, de 38 anos, deixou uma mensagem no blog Confissões de um viciado em jogos eletrônicos: “Estou com apenas 11 dias de abstinência do jogo. Tá sendo muito difícil pra mim. Mas tenho tentado manter firme o propósito de parar”. Marijane começou em bingo e quando perdia queria recuperar. “Se ganhava, tinha mais pra jogar, jogar, jogar. Aí fui procurar ajuda”, relembra. “Muitas vezes eu chegava em casa sem meu pagamento. E como explicar ao meu marido? Eu inventava assalto, pedia pra entrar de graça no ônibus…”, conta. E confessa que ainda tem o vício. Só mudou o tipo de jogo, a forma e o local.

As sessões em grupo dos Jogadores Anônimos (JA) do Rio de Janeiro ajudaram a controlar parcialmente o desejo. “Não estou totalmente curada. Pego R$ 50 e deixo cartão de banco em casa, porque se eu estiver lá e acabar o dinheiro sei que vou sacar mais.” Ela buscou a internet como solução para ficar mais tempo em casa e viciou-se em jogar buraco virtual. Acha que sofre menos e a atual compulsão não a incomoda a ponto de procurar ajuda novamente. É “menos pior”, não fica mais perambulando por casas de bingo e não gasta mais do que R$ 18 por mês, mas diz ter “pena” de gastar com comida e roupas. Marijane acorda às 7h30 e vai jogar por volta das 8h30. Almoça entre meio-dia e 1 da tarde e volta ao jogo até o marido chegar do trabalho, perto das 21 horas. “Ele às vezes briga comigo. Gosto quando tem futebol, porque ele fica lá vendo e me deixa em paz”, confessa.

“Você começa sem nada, daqui a pouco ganha uma medalha, depois outra. Quando chega na de ouro são mil pontos. Aí você vê as outras pessoas com 2 mil, 3 mil, e joga, joga, e nunca fica satisfeito”, desabafa. Quando viaja procura a lan house mais próxima. “E se dá defeito no PC fico maluca. Vou pra uma lan house e esqueço da vida.” Marijane também sonha com o jogo. “Estou dormindo e jogando. Às vezes quero aquela carta e ela não vem, dá aquela angústia. Acordo, e essas coisas ficam na cabeça”, conta. Ela não pediu anonimato. “É um problema que existe na sociedade e que eu tenho. Achava que era só eu e, de repente, descobri um monte de gente na mesma situação.”

Fique esperto
Se apresentar, pelo menos, 5 dos 8 critérios abaixo descritos, procure orientação:

1. Preocupação excessiva com a internet.
2. Necessidade de aumentar o tempo conectado (on-line) para ter a mesma satisfação.
3. Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet.
4. Apresentar irritabilidade e/ou depressão.
5. Quando o uso da internet é restringido, apresenta instabilidade emocional (internet como forma de regulação emocional).
6. Permanecer mais tempo conectado do que o programado.
7. Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo.
8. Mentir aos outros sobre a quantidade de horas conectadas.
Fonte: http://www.dependenciadeinternet.com.br

Clínicas para esse fim são recentes no Brasil. Nos EUA, universidades como Harvard e Yale têm departamento para o tratamento desses pacientes. China, Coreia do Sul, Inglaterra e Holanda também têm. No Brasil, os três principais locais a estudar e tratar o distúrbio gratuitamente estão em São Paulo:

USP
– R. Dr. Ovídio Pires de Campos, 785, Cerqueira César, (11) 3069-6975.
www.dependenciadeinternet.com.br

Unifesp – Rua dos Otonis, 887, Vila Mariana, (11) 5579-1543.
www.proad.unifesp.br

PUC – Rua Monte Alegre, 961, Perdizes, (11) 3670-8040.
www.pucsp.br/nppi

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