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Ascensão e queda do Muro de Berlim

Assim como a Primeira Guerra, o Muro de Berlim mudou o mapa-múndi. Hoje, sabe-se que as aristocracias anteriores a 1918 desapareceram na história. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária ainda vão retornar renovados, é questão para o futuro

João Correia

Caricatura: A longínqua União Soviética se transformou em cenário para turistas

Até hoje ninguém sabe com absoluta certeza quem foi o pai da ideia, se o premiê soviético Nikita Krushev (1894-1971), o premiê da então Alemanha Oriental, Walter Ulbricht (1893-1973), ou se Erich Honecker (1912-1994), na época secretário de Segurança do Comitê Central do Partido Comunista Alemão. Dos três, o menos provável é Ulbricht, que nem sequer seria simpático à ideia, embora tenha assinado a ordem de fechar a fronteira. E o mais é Krushev, convicto de que a Guerra Fria seria decidida em Berlim. Honecker foi o encarregado de torná-la realidade. Ele assinou a ordem de fechar as fronteiras entre a Alemanha Oriental e Berlim Ocidental num sábado, 12 de agosto de 1961.

No dia seguinte, cercas de arame começaram a ser reforçadas e a estabelecer a separação física em torno da parte ocidental da cidade. O muro envolveria, ao longo de 163 quilômetros, o lado então administrado pelas potências ocidentais, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. E faria de Berlim, no dizer do escritor Ignácio de Loyola Brandão, que lá esteve naquela época, a última cidade medieval da Europa: cercada por um muro que de fato funcionava.

Havia meios de comunicação com a Alemanha Ocidental. O mais importante era um corredor rodoviário que podia ser percorrido até a fronteira entre as duas Alemanhas. Os cidadãos do lado ocidental e turistas ocasionais podiam visitar o lado oriental mediante a concessão de vistos de entrada – os de 24 horas eram concedidos com alguma facilidade. Já as visitas do leste para o lado ocidental eram mais complicadas. De 1961 a 1964 foram totalmente interditadas; daí para diante a proibição foi parcialmente relaxada, até um ponto de equilíbrio em que cidadãos aposentados de mais de 65 anos, mais quem comprovasse uma necessidade familiar ou profissional relevante, podiam passar sem problemas.

Os que tentassem cruzar a fronteira sem autorização podiam até ser alvejados. Assim mesmo, muitos iam em frente. Saltar era o meio mais comum, e o mais complicado. Houve fugas em balão, em ultraleve, em carros jogados contra as barreiras, em porta-malas de carro. Estima-se um total de 5 mil fugas bem-sucedidas. E em até duas centenas os mortos na tentativa. Oficialmente, são136, relembrados por cruzes dispostas nas imediações do local onde foram abatidos.

No começo era um correr de arames. A partir de 1965 começou a parecer muro mesmo. E de 1975 em diante tomou sua forma definitiva: uma sucessão de placas de concreto de três metros de altura, encimadas por canos redondos para dificultar a escalação, num conjunto reforçado por muros suplementares, barreiras aquáticas, cercas de arame, cães de guarda, soldados, mais de uma centena de torres de observação equipadas com holofotes e metralhadoras. Tudo isso custou na ocasião a bagatela de US$ 3,6 milhões. As justificativas para a construção do muro iam desde impedir o contrabando até dificultar a espionagem. Mas no centro da ideia estava a competição entre o regime capitalista e o comunista, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Frentes e símbolos

João CorreiaPropaganda
Propaganda: Misturados a restos do muro, cartazes e outdoors tomam a cidade

Havia a frente militar. O incidente mais grave ocorreu em 22 de outubro de 1961. Em Checkpoint Charlie, uma das passagens por onde estrangeiros podiam atravessar, armou-se uma discussão sobre se um diplomata norte-americano podia ser revistado ou se devia mostrar seu passaporte. A discussão degenerou tanto que em poucos dias dez tanques norte-americanos e dez soviéticos estavam frente a frente, a menos de 100 metros uns dos outros. Outros 30 tanques soviéticos tinham tomado posição de ataque em frente ao Portão de Brandemburgo, não muito longe. A coisa ferveu, e só terminou com um telefonema do presidente John Kennedy ao premiê Nikita Krushev, pedindo que os soviéticos dessem o primeiro passo no recuo. Assim foi.

Mas a frente mais importante era a simbólica. Havia uma competição entre os dois lados para mostrar melhor padrão de vida. Do lado oriental para o ocidental havia – alegavam os comunistas – uma permanente evasão de cérebros e trabalhadores mais qualificados. E a proximidade entre familiares, amigos, conhecidos, de ambos os lados de Berlim, era um atrativo muito sedutor. Daí, dizem muitos, nasceu a “ideia” do muro, um dos maiores erros da Guerra Fria, símbolo palpável de opressão e restrição de movimentos. Os cercados eram os habitantes de Berlim Ocidental; mas os confinados eram os do leste.

Se hoje se pode dizer que começou a cair a partir de sua construção, atitude política que se provou insustentável, não era essa a impressão de seus contemporâneos. No começo de 1989, Honecker, já premiê da Alemanha comunista no lugar de Ulbricht, deu uma declaração de que o muro poderia existir por mais um século. Era um sentimento geral. Naquele ano, em que se discutiam o futuro e o século 21, falava-se de tudo, menos da queda. Foi a insolvência dos regimes comunistas que solapou os alicerces do Muro de Berlim. Além disso, o desejo de reunificação das Alemanhas tocava todos os setores do país que saíra dividido e devastado da loucura nazista: cultural, familiar, político, social e econômico, pois a reunificação, na época, era vista quase como sinônimo de “prosperidade” para o lado oriental, o que não se provou verdade, com o declínio do emprego e dos indicadores sociais.

O muro começou a cair naquele ano com uma série de manifestações “pela liberdade”. Alguns dias antes da queda, 1 milhão de pessoas se concentraram na Alexanderplatz, perto do Portão de Brandemburgo, reivindicando a livre passagem. No dia 9 de novembro o governo da Alemanha Oriental autorizou a passagem de um lado para o outro mediante a facilitação da concessão de vistos no local. Mas o que era para ser um fluxo controlado logo se tornou uma torrente impetuosa. Na madrugada de 9 para 10 o muro foi abolido como fronteira; e os regimes comunistas do Leste Europeu, inclusive o da União Soviética, ruíram. Alguns de forma mais pacífica, como a hoje também extinta Tchecoslováquia; outros de forma sangrenta, como a Romênia.

Assim como na Primeira Guerra Mundial, a ascensão e a queda do Muro de Berlim representou muito mais do que hoje se pode imaginar: o apogeu de um mundo (o da Guerra Fria) e a derrota e o desaparecimento dos regimes comunistas na Europa. Também como naquele conflito, o mapa-múndi mudou de forma palpável. Ao fim de 1918, impérios como o Austro-Húngaro e o Otomano e a monarquia alemã passavam a ser parte da história pregressa. Todo um mundo remanescente das oligarquias aristocráticas seculares, seus valores, seus costumes, desapareciam. Mas com o Muro de Berlim o que soçobrava era uma forma de futuro, pois viam-se os regimes comunistas – com desprezo e terror ou com admiração e esperança, conforme as opções ideológicas – como uma forma possível e provável de futuro da humanidade.

Basta rever os filmes engajados de esquerda daquela época ou, do outro lado, muitos dos filmes de ficção científica em que sociedades opressivas e controladoras, com tecnologia avançada mas hábitos medievais, eram confrontadas por sucessivos “punhados de bravos” dispostos a conquistar a liberdade. As velhas aristocracias não têm volta. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária, como no começo se propunha a comunista, vão retornar renovados, essa é uma questão para o futuro. Esperemos que retornem, mas sem muros, como o de Berlim.

A primeira jabuticaba

Ane-Sofhie

Ane-Sofhie é berlinense e declara-se “oriental”. Passou pelo Chile e está hospedada em São Paulo desde o início de setembro, onde presta serviços voluntários numa associação que acompanha a vida de bolivianos do ramo de tecelagem no bairro do Bom Retiro. Tem 19 anos e estava na barriga da mãe quando o muro foi demolido. Seu avô paterno era membro da polícia secreta. O pai, funcionário do Estado, ainda mantém distância do lado ocidental. A mãe, professora de inglês e literatura, se encantou com a quantidade de livrarias a que teve acesso. Ane-Sofhie diz que seus amigos vivem debatendo vantagens e desvantagens, os colegas ocidentais ainda criticam a falta de liberdade no leste; e os orientais reclamam do nariz empinado do outro lado. “Apoiamos a derrubada porque somos jovens, queremos viajar. Mas as Alemanhas não estão reunificadas”, completa. (Paulo Salvador)

O fim de uma fronteira
Por Ute Hermanns

Na noite de 9 de novembro de 1989, eu estava com muito sono e demorei para me dar conta do que acontecia. Na manhã seguinte eu tinha um compromisso com o escritor Rubem Fonseca, bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Encontraríamos o casal Engler em Berlim Oriental, em frente à estação de metrô Friedrichstrasse. Erhard Engler era uma instituição. Todos os escritores brasileiros que chegavam a Berlim queriam conhecê-lo. Tinha traduzido para o alemão Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e contos de vários autores. Editou um livro de ensino de língua portuguesa, tinha textos sobre Jorge Amado, Loyola Brandão, entre outros. Lecionava na Universidade Humboldt e era intérprete de conferências, até que sua primeira mulher fugiu para o lado ocidental. Então, Erhard Engler não mais recebeu a permissão para viajar. Felizmente encontrara Christina, simpaticíssima, também tradutora de português.

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Pelo barulho das buzinas, comecei a me dar conta de que algo extraordinário acontecia. Rubem Fonseca e eu fomos de metrô até a fronteira com Berlim Oriental. Vagões e estações estavam lotados. Passamos pelo controle e vimos o casal na multidão. Engler acenava. Rubem e eu tínhamos combinado convidá-los para um passeio no lado ocidental. Mas ambos temiam não poder voltar. Atravessar sem permissão era temerário. Não havia mais volta. Era exílio permanente, pois as pessoas achavam que o muro era eterno. Abordei um guarda da fronteira e ele afirmou que agora quem quisesse podia passar de um lado para o outro e voltar.

Atravessamos. Compramos champanhe e brindamos no apê do Rubem Fonseca às possibilidades que se abriam. Engler e Christina quiseram conhecer a biblioteca do Instituto Ibero-Americano, uma das maiores do mundo para pesquisadores lusófonos e hispanofônicos. Almoçamos num restaurante italiano. Vimos a igreja erguida em honra ao imperador Guilherme, um dos pontos mais conhecidos de Berlim, e seu ar de ruína da Segunda Guerra. Eles não queriam saber de compras. “Basta ter liberdade”, sussurrava Engler. A noite caía quando vimos o casal regressar a Berlim Oriental.

No domingo, 12, estava prevista a abertura do muro na Potsdamer Platz. Quando chegamos, os guardas tinham acabado de abrir um pedaço do muro. Os carros do lado oriental entravam buzinando, com as pessoas alegres; as do lado ocidental aplaudiam, moças entregavam rosas, caminhões da empresa de biscoitos Bahlsen distribuíam confeitos. Também apareceram caminhões para presentear os recém-chegados com bananas, fruta exótica que conheciam apenas pela televisão ocidental.

Conversávamos em português. Um jornalista se aproximou e perguntou: “Vocês são brasileiros?” Era Luiz Carlos Azenha, da TV Manchete. Rubem Fonseca, famoso por nunca dar entrevistas, puxou o boné sobre o rosto e comentou: “Meu nome é José Rubem Fonseca, sou brasileiro. Estamos presenciando um evento histórico. Hoje não temos ideia de como vai mudar o futuro do mundo, mas será uma mudança severa. É com grande alegria que temos de encarar essa transformação histórica”.

Menti: “Meu nome é Clara Maria da Silva, sou de Blumenau, Santa Catarina”. Estava aflita, pressentia uma profunda mudança para os alemães do ocidente e não sabia que rumo ia ter a vida no futuro. Mas admirei o comentário de Rubem e muito depois fui entender todo o significado das suas palavras. Minha mentira foi logo descoberta. Azenha perguntou se eu conhecia alguém disposto a acompanhar a equipe a locais interessantes e para traduzir entrevistas. Dei meu telefone. Rubem disse: “Bem, acho que você pode fazer esse trabalho. Só não pode falar que a gente se conhece. Diz que me conheceu por acaso na multidão”. No dia seguinte, o jornalista me ligou aflito: “Você sabe onde mora aquele homem que a gente entrevistou ontem?” O jornalista ficou em apuros por não ter reconhecido o peixe grande que lhe caíra na rede e se fora.

Todos intuíamos que não voltaríamos mais ao passado, um mundo ruía e outro surgia, de contornos indefinidos. O escritor brasileiro deu uma explicação que se revelou sábia sobre o momento histórico. A revista Veja de então relatou o episódio. Publicou uma foto do Rubem acompanhado por Clara Maria da Silva, numa página junto com a foto do Gorbatchev e sua esposa Raissa e a foto do George Bush, o pai, que perturbou a vida dos mortos praticando jogging num cemitério.

Hoje é bom não mais ter o muro separando a cidade. Convivemos, ex-orientais e ex-ocidentais, e acho que ainda temos de trabalhar muito para nos compreendermos. Em todo caso, é maravilhoso. Ter acesso à natureza ao redor, coisa que os ex-ocidentais não tínhamos, é um privilégio. Viver nessa nova cidade em constante processo de transformação vale a pena, apesar dos engarrafamentos, que também não tínhamos, e agora temos.

Ute Hermanns é tradutora, professora do Instituto 
Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim

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