Estratégia e coordenação

Narrativas ‘sem medo de errar’ fazem extrema direita avançar pelas redes sociais

“O campo progressista tenta convencer a partir de ideias. A extrema direita mobiliza afetos”, diz pesquisadora, citando nesse segundo caso sentimentos como o medo e a indignação

Alan Santos/PR
Alan Santos/PR
Pupilo e mentor: muitas das estratégias adotadas aqui vieram do outro lado do continente americano

São Paulo – Fenômeno “velho e novo” na política brasileira e mundial, a extrema direita encontrou nas redes sociais um caminho aberto e seguro para avançar e contaminar o debate político. E fazem isso com organização, coordenação e estratégia, deixando às vezes sem saída os setores progressistas. As formas de inserção dos ideais radicalmente conservadores foram tema de debate, ontem (19), promovido pela Fundação FHC. Mediado pelo cientista político Sergio Fausto, diretor da entidade, o encontro teve a presença dos professores Guilherme Casarões e Isabela Kalil, dois dos quatro coordenadores do Observatório da Extrema Direita (OED), criado em 2019. Ambos avaliam que esse grupo político veio para ficar, organizado ou não em partidos.

Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), Casarões identifica hierarquia nos movimentos nas redes, apontando Olavo de Carvalho como um precursor, um “pai” do extremismo digital. “Muito antes de esse espaço ser plenamente ocupado pela extrema direita, o Olavo já estava, vamos dizer, abrindo essas trilhas.” Um debate que surgiu no subterrâneo privado da internet e foi ganhando a superfície.

Apoio espontâneo ou fabricado?

E aprimorando as narrativas. A tal ponto que às vezes desafiam os grupos progressistas sobre como reagir. Assim funciona com as famosas “motociatas” e subgêneros (jegues, lanchas e outros meios) ou nas chegadas do presidente a um aeroporto, por exemplo. A descrição vem sempre acompanhada de um comentário como “Este é o datapovo”, “É o instituto de pesquisas que eu acredito”.

Um apoio popular “fabricado”, até certo ponto. “Tem um lado espontâneo, mas tem um lado que é deliberado e calculado”, diz o professor, que cita outras possibilidades. “Por exemplo, trollar pessoas de esquerda, falar coisas inconcebíveis no debate público. A gente se vê numa espécie de beco sem saída. A reação a qualquer bizarrice é natural. (Mas) Estou, no limite, dando mais amplitude à narrativa que eu quero derrotar.”

Guerra dos memes

Já a professora Isabela Kalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), observa que essas pessoas já existiam antes da internet. Mas seus discursos, antes considerados inaceitáveis, ganharam visibilidade na rede. Mais do que isso, tornaram possível que esses grupos, “que promovem posições antidemocráticas”, se reunissem. Inclusive jovens. Com o incremento do que ela chama de Cyborg: “Parte do movimento é de máquinas, mas existem humanos que supervisionam aqueles robôs. O que torna tudo muito mais difícil de ser detectado”.

Além de inovar na linguagem, acrescenta Casarões. “Tem gente na redes que considera o Brasil o vencedor da guerra mundial dos memes”, afirma. E os grupos bolsonaristas atuantes nas redes sociais dialogam entre si. Médicos, jornalistas, influenciadores digitais. “Em cada grupo a gente consegue ver uma coordenação.” E também o que ele chama de “legimitação” das mensagens, com curtidas, retuítes, seguidores. Inclusive em escala transnacional.

São desde “criadores de narrativas” (que se ocupam sistematicamente de criar relatos que sustentam a presença da extrema direita no dia a dia) a “tropas de choque” (para, sobretudo, potencializar e disseminar de maneira eficiente, com memes e linguagem de gamers).

“O que eu acho interessante dessa dinâmica é que, além de haver uma coordenação muito forte entre os grupos, há uma emulação de linguagens que foram produzidas em outros lugares”, afirma ainda o professor, citando “influenciadores” de direita que reproduzem pautas (sempre conservadoras) e estéticas norte-americanas, por exemplo. O ex-presidente Donald Trump, ídolo de Jair Bolsonaro, é forte inspirador desse movimento. E eis que surgem nesse nicho os chamados “cidadãos de bem”.

Tecnologia política

Há ainda, estratégias que podem contribuir para “falsear” a opinião pública. Isabela dá o exemplo de uma sala com 10 pessoas. “Se três começam a falar em determinado assunto e chegam a um consenso, é provável que as outras sete tendem a concordar. Ou três falam um absurdo e sete se calam”, afirma a professora, citando o que chama de “espiral do silêncio”.

Ela destaca também a importância dos atos pró-governo de 15 de março de 2020, pouco antes da pandemia. “Foi importante porque o primeiro de uma série de eventos chamados antidemocráticos. Continuam até hoje com as chamadas motociatas. Inauguram uma tecnologia política que vai sendo aperfeiçoada, (com) grupos, canais e códigos específicos.”

Guilherme Casarões (acima, à esquerda) e Isabela Kalil, em debate mediado por Sergio Fausto: movimentos vieram para ficar e desafiam setor progressista (Reprodução/YouTube)

Novas plataformas

Outro aspecto a ser observado é a rapidez de mudança e adaptação às redes. O Facebook, por exemplo, agora é visto como coisa de gente mais velha. O WhatsApp, tão usado na eleição de 2018, não tem atualmente o mesmo impacto. “Agora, por exemplo, tem de olhar o TikTok. As plataformas vão se alterando a cada dois anos. Os jovens vão se apropriando dessas novas plataformas e trazendo repertório. Olhar para o jovem é fundamental”, diz Isabela.

A pesquisadora chama a atenção para outra questão, ao afirmar que a extrema direita “não tem medo de errar”, de experimentar. “Acho que o campo progressista tem que ser um pouco mais desapegado com o erro. O campo progressista tenta convencer a partir de ideias. A extrema direita mobiliza afetos”, compara.

Por afetos, incluem-se sentimentos como medo e indignação. Ela também considera inútil, por exemplo, evitar replicar falas de presidente da República. “Ele é chefe de Estado. Não faz diferença. Bolsonaro já tem o circo inteiro.” O mesmo raciocínio não se aplica, por exemplo, a um “influencer mediano” que faz uma saudação neonazista. “Para que eu vou compartilhar?”, questiona.

Quem banca a extrema direita?

Uma dificuldade é conseguir rastrear os financiadores dessas redes, o que até agora só foi possível em alguns casos, como nos disparos de mensagens em massa de 2018. Agora, há ainda a modalidade de cursos pagos ou livrarias mantidas por influenciadores – que, basicamente, vendem suas próprias obras. E vieram para ficar, acredita Casarões. “O Bolsonaro não precisou de um partido consolidado para ganhar em 2018. Acho que isso importa muito pouco para o eleitor que se identifica com o movimento bolsonarista.”

Isabela concorda. “A questão não é quantidade. Mesmo em quantidade pequena, essas pessoas podem produzir falseamentos da opinião pública, a ponto de mudar o comportamento eleitoral a 24 horas da eleição. Sem que a gente perceba de onde isso está vindo.” É o que acontece agora, com as alegações de “fraude” eleitoral. “Isso tem causado um estrago enorme, vai levar várias eleições para a gente medir.” Ela observa que Bolsonaro não mira seu público com esse tipo de ataque, mas justamente os moderados, para semear dúvida.


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