Reforma agrária

Trezentas famílias do MST ocupam fazenda desapropriada no Norte Fluminense

Sem comprovar função social da terra, área foi destinada à reforma agrária pela Justiça Federal de Campos (RJ), em maio

Pablo Vergara
Pablo Vergara
Ato marca criação do acampamento Cícero Guedes, em fazenda desapropriada para reforma agrária

São Paulo – O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupou hoje (24) fazenda do complexo Cambahyba, em Campos dos Goytacazes (RJ), no Norte Fluminense. O ato marcou a criação do Acampamento Cícero Guedes.

A área ocupada pelas 300 famílias foi desapropriada para fins de reforma agrária pela 1ª Vara da Justiça Federal de Campos, em 5 de maio. Além da Fazenda Cambahyba, que dá nome ao complexo, foram desapropriadas as fazendas Flora e Saquarema.

As famílias que participam da ocupação vieram de diversos territórios de resistência da região, de lutas atuais e anteriores. São os agricultores de São João da Barra, despejados no Porto do Açu, trabalhadores do corte de cana de Floresta, Ocupação Nova Horizonte, em Guarus, Trabalhadores do bairro da Codin e do antigo acampamento Luís Maranhão.

Fazenda improdutiva

De acordo com a direção do MST no Rio de Janeiro, a ocupação da fazenda Cambahyba cumpriu todos os protocolos de saúde, com distanciamento social, uso de máscaras e álcool em gel.

A área ocupada pertence ao ex-vice-governador do Rio de Janeiro, Heli Ribeiro Gomes (1968) e não cumpria função social da terra. Ao contrário, mantinha trabalho análogo à escravidão, degradação do meio ambiente, exploração do trabalho infantil, acumulava dívidas trabalhistas e previdenciárias milionárias com a União.

É o típico exemplo da formação da grande propriedade e da exploração da força de trabalho e do meio ambiente no Brasil, marcada pela violência e resistência dos trabalhadores, afirma o MST Um decreto presidencial de 1998 considerou a fazenda improdutiva por não cumprir sua função social.

O movimento faz ainda referência ao uso da propriedade para ações da ditadura. Naquele local, com “conivência” da usina, fornos foram usados “para incinerar 12 corpos de presos políticos e opositores do regime”.

MST no Rio

Há 25 anos, o MST começou sua trajetória no Rio de Janeiro com a ocupação de terras das fazendas da falida usina Capelinha, em Conceição de Macabu, em resposta ao latifúndio improdutivo e ao massacre do Eldorado dos Carajás, onde 21 sem terra foram assassinados pela Polícia Militar do Pará, em abril de 1996.

No ano seguinte, o MST-RJ se consolidou com a ocupação da usina São João, em Campos dos Goytacazes, dando origem ao assentamento Zumbi dos Palmares. Ali, mais de 500 famílias conquistaram sua terra para viver e produzir alimentos.

A criação do acampamento contou com apoio de diversas organizações, sindicatos, entidades de defesa dos direitos humanos, entidades religiosas, partidos políticos, movimento estudantil, movimentos sociais do município de Campos dos Goytacazes e também entidades nacionais.


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