Religião e antiesquerdismo em pauta, 25 anos depois

Foi em 12 de dezembro de 1985, em um debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo, que o jornalista Boris Casoy perguntou ao então senador pelo PMDB Fernando Henrique […]

Foi em 12 de dezembro de 1985, em um debate entre candidatos à prefeitura de São Paulo, que o jornalista Boris Casoy perguntou ao então senador pelo PMDB Fernando Henrique Cardoso, postulante ao cargo:

Casoy – Senador, o senhor acredita em Deus?

Cardoso – Essa pergunta o senhor disse que não me faria.

Casoy – Eu não disse nada.

Cardoso – Perdão, foi num almoço sobre este mesmo debate.

Casoy – Mas eu não disse se faria ou não.

Cardoso – É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público…

Embora revelasse uma relação pessoal entre candidato e jornalista, o que marcou o episódio foi a ausência de resposta. Ao disputar outras eleições, Fernando Henrique mostraria-se em igrejas e em momentos de oração, para desfazer aquela impressão inicial.

Mas o concorrente na eleição à prefeitura paulistana era o ex-presidente Jânio Quadros, filiado ao PTB. Foi a deixa para reforçar a campanha de rejeição ao candidato, associando a ideia de que se tratava de um ateu. A questão somou-se a críticas de que o intelectual conhecia melhor o subúrbio de Paris do que a periferia paulistana – o que confere um toque cômico à lembrança do vale-tudo eleitoral.

É difícil afirmar com certeza se o episódio foi ou não decisivo para a derrota eleitoral do então peemedebista. Contou ainda o fato de ele ter posado no gabinete da prefeitura, sentado na cadeira do mandatário da cidade – embora tenha negociado embargo na publicação até a eventual vitória, a Folha de S.Paulo publicou a imagem.

Bolcheviques

Quatro anos depois, em 1989, o segundo turno da eleição presidencial teve novas rodadas de vale-tudo para eleger Fernando Collor de Mello. Todo tipo de boatos e acusações contra Luiz Inácio Lula da Silva foram usados. Ele confiscaria terras, tiraria imóveis e propriedades da classe média, tomaria meios de comunicação, fábricas e perseguiria executivos de grandes empresas.

Uma carta aberta de 14 de dezembro de 1989 é um exemplo disso. O material chegou à Rede Brasil Atual por intermédio de um leitor. Intitulado “Contra a escravização do Brasil pela tirania do comunismo ateu” , o texto é assinado por Anésio de Lara Campos Jr., um ideólogo conservador que, anos depois, seria inspirador de grupos como Skinheads e os chamados “Carecas do ABC” – de orientação nazista nos anos 1990.

“Contra as horríveis ameaças da hidra bolchevista, a serviço de Satanás e suas coortes de demônios, devem unir-se em ação comum todas as pessoas crentes em Deus: todos os católicos, inclusive os que se chamam ‘ortodoxos’, todos os demais cristãos agrupados em cerca de 570 demominações religiosas diferentes em nosso país”, conclamava a carta aberta.

O texto ocupa uma folha A4 frente e verso para alertar contra o “gravíssimo perigo de catástrofe” que representaria a eleição de Lula em 1989. Todo tipo de antiesquerdismo é vinculado ao terrorismo eleitoral, anunciando ações contra a propriedade e liberdades individuais.

Nas eleições seguintes, de 1994 e 1998, o petista ficou longe de ter chances de vencer. Os ânimos de setores de direita estiveram mais contidos. Em 2002 e 2006, manifestações desse teor voltaram, mas com menos força. Agora, diante de Dilma Rousseff (PT), que venceu o primeiro turno, as acusações voltaram, com a velocidade de propagação de e-mails.

Ficou suja

Não é só a candidata petista que se sente vitimada por mal-entendidos sobre questões sensíveis para setores do eleitorado. O vice de José Serra (PSDB), Indio da Costa (DEM) desmentiu ter prometido veto ao projeto de lei que criminaliza a homofobia, caso a medida seja aprovada pelo Congresso Nacional. O jornal O Dia noticiou que ele teria assumido essa posição diante de lideranças evangélicas.

No dia seguinte, um blogue que se apresenta como “Diversidade Tucana” condena o “pobre e maniqueísta debate” instaurado na eleição presidencial. Agora, o Núcleo de Diversidade Sexual do PSDB critica o fato de a campanha ter se dividido entre “quem é a favor ou contra o aborto, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo ou a criminalização da homofobia”.

Pelo jeito, a sujeira e o maniqueísmo só apareceram quando a vítima foi Indio da Costa. Mas pelo menos foi percebida. Falta cada uma das campanhas condenar esse tipo de comportamento. E, especialmente no caso dos tucanos, desestimular militantes – associados ou não à estrutura dos partidos aliados – a usar argumentos baseados em boatos e informações pela metade. Especialmente as relacionadas ao aborto e a temas sensíveis para os religiosos, decididos no Congresso Nacional, e não pela Presidência da República.

 

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