SOBREVIVÊNCIA

‘Greve sanitária’ quer evitar aglomeração de 3,7 mil pessoas em refinaria no Paraná

Processo de manutenção, contestado por petroleiros, mais que dobraria o número de trabalhadores no local

Arte/Sindipetro-PR/SC

São Paulo – Os petroleiros da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, entraram em greve na manhã desta segunda-feira (12) para pressionar a direção da Petrobras a não dar sequência aos processos de manutenção regulares. Eles acrescentariam, em meio ao caótico momento da pandemia no Brasil, nada menos do que 2 mil trabalhadores às instalações da refinaria, que já conta com 1,7 mil funcionários. Por causa disso, a mobilização está sendo chamada de greve sanitária.

“Ou seja, teriam 3,7 mil, quase quatro mil trabalhadores lá. O que é uma aglomeração muito grande”, explica Roni Anderson Barbosa, integrante da diretoria do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro) do Paraná e Santa Catarina. “Os equipamentos são pequenos, você tem de entrar com 20, 30 pessoas para fazer o trabalho (de manutenção)”, detalha o petroleiro. “Se você vê que até uma casa noturna que reúne 150 jovens está sendo fechada, porque uma refinaria poderia reunir 2 mil pessoas sem necessidade?”, questiona.

O processo de manutenção, segundo explica o diretor do Sindipetro, é realizado regularmente em alguns equipamentos a cada dois ou três anos. “Ao nosso ver não há nada crítico que precise de manutenção agora, nada que não pudesse ser adiado por mais um período”, diz. “Não é essencial.”

Cinco mortes em Minas

Roni alerta que a Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Minas Gerais, registrou cinco mortes e cerca de 200 contaminados pela covid-19 após o início de um processo de manutenção semelhante. “Nós não temos nenhum leito de UTI vago em Araucária, Campo Largo e Curitiba para qualquer emergência”. A Repar fica localizada em Araucária, cidade na região metropolitana de Curitiba com cerca de 150 mil habitantes. O município já registrou, de acordo com o Painel Covid-19 do Congresso em Foco, 18.202 casos com 248 mortes até 12 de abril.

Segundo informações do Sindipetro-PR/SC, já foram registradas três mortes de trabalhadores terceirizados na Repar pela covid-19, mas a administração da empresa não comunicou o fato aos demais empregados. De acordo com o boletim de monitoramento número 51 do Ministério de Minas e Energia, divulgado em 5 de abril, a Petrobras já registrou 20 mortes de trabalhadores próprios pela doença. Segundo informações recebidas pela Federação Única dos Petroleiros (FUP) e sindicatos filiados o número é pelo menos três vezes maior.

Ações institucionais

Além de organizar a greve sanitária, a direção do Sindipetro mobilizou-se na Assembleia Legislativa do Paraná, onde se reuniu com deputados para angariar apoio ao movimento, e também junto a outros espaços de poder. “E fomos convidados pela comissão da covid (da Assembleia) para falarmos na sexta-feira (16).”

Greve sanitária

O primeiro dia de mobilização registrou, segundo o Sindipetro-PR/SC, boa adesão dos petroleiros. No primeiro corte de rendição de turno ininterrupto de revezamento, ocorrido às 7h, horário de início da greve, os veículos de transporte coletivo de trabalhadores chegaram com pouquíssimas pessoas. No segundo corte, por volta das 20h30, as nove vans levaram apenas três empregados às dependências da refinaria, sendo um deles supervisor.

“Muitos entenderam a gravidade do problema e seguiram a recomendação do sindicato de ficar em casa, pelo bem das suas saúdes e dos seus familiares”, comentou Alexandro Guilherme Jorge, presidente da entidade, em ato realizado ainda pela manhã com os trabalhadores dentro dos veículos justamente para evitar aglomerações. Em retaliação, a Petrobras ameaçou os grevistas com suspensão de férias marcadas e adiamento do pagamento. “Os gestores abriram a caixa de ferramenta e usaram tudo o que tinham para tentar desmobilizar a greve. Isso mostra que o movimento começou forte e já incomoda bastante”, avaliou Alexandro.

Por volta das 11h foi realizada a primeira reunião de negociação com representantes da estatal, mas foi infrutífera. A empresa manteve-se irredutível ao considerar todas as atividades indispensáveis e, segundo os petroleiros, exige índices de contingenciamento muito próximos do efetivo atual. Também se mostra negacionista ao desprezar os riscos de contaminação dentro de suas instalações. “Na visão dos gestores, a Repar está isolada, dentro de uma bolha que a separa de Araucária, do Paraná e do Brasil”, acrescentou Roni Barbosa.

Na sexta-feira (9), o sindicato realizou uma live com o biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Lucas Ferrante, que divulgou dados justificando a importância da suspensão da manutenção na refinaria. “Os estudos mostram que, das pessoas que são hospitalizadas por causa da contaminação pelo coronavírus, 70% desenvolvem problemas renais crônicos e permanentes, 40% apresentam danos cerebrais, além de outras sequelas cardíacas, pulmonares, motoras e cognitivas”, disse o pesquisador.

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