Sem negociação

Direção dos Correios buscou essa greve, afirma sindicalista

Representantes da categoria estimaram em 70% a adesão no primeiro dia do movimento; centrais sindicais divulgaram nota de apoio à paralisação

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Empresa corta direitos, mas mantém privilégios, afirma secretário-geral da federação nacional da categoria, José Rivaldo da Silva

São Paulo – No primeiro dia de greve nacional na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), líderes da categoria estimaram em 70% a adesão ao movimento, tanto do setor operacional como administrativo. Em várias bases, houve manifestações. As centrais sindicais divulgaram nota de apoio à paralisação, afirmando que “não faltam motivos para a greve” e defendendo o patrimônio público (confira íntegra ao final do texto).

“A direção da ECT buscou essa greve, retirou direitos em plena pandemia e empurrou milhares de trabalhadores a uma greve na pior crise que o país vive”, afirmou o secretário-geral da Fentect (federação nacional da categoria), José Rivaldo da Silva. “Perdemos muitos companheiros para a covid-19 em função do descaso e negligência da empresa. É o governo e a direção da ECT mantendo privilégios com ampliação de cargos e altos salários, ampliando lucro em detrimento da vida dos trabalhadores.”

Com base em informações dos sindicatos filiados, a Fentect estima que houve pelo menos 70 óbitos de funcionários da ativa. “Muitas agências não possuem ainda a segurança mínima de trabalho, nem de atendimento ao público”, diz a entidade sobre algumas das razões para a greve dos Correios.

Contra a privatização

Além da defesa da vida e da manutenção de direitos, os trabalhadores nos Correios afirmam estar em greve e mobilizados contra as tentativas de privatização da companhia. “Esclarecemos ainda que os trabalhadores possuem orgulho do serviço prestado dessa empresa secular, que chega aos rincões do país, e que mesmo com toda a adversidade impostas aos trabalhadores, que arriscam suas vidas para garantir a prestação desse serviço essencial à economia nacional e ao povo brasileiro, segue cumprindo os 30% dos trabalhadores em atividade, previstos em lei”, acrescenta a Fentect, em nota.

A data-base da categoria é 1º de agosto. Em 2019, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) fixou o reajuste em 3% e determinou que o acordo coletivo valeria por dois anos. Ou seja, até 31 de julho de 2021. No entanto, a ECT obteve liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) reduzindo o período pela metade.

Empresa contesta

Segundo a ECT, a greve dos funcionários dos Correios é parcial e “não afeta os serviços de atendimento da estatal”. Balanço divulgado pela empresa fala em 83% do efetivo trabalhando regularmente. Os Correios afirmaram ter acionado o Plano de Continuidade de Negócios “para minimizar os impactos à população”.

Além disso, a ECT afirma que “comunicações inverídicas e descontextualizadas” tentam confundir os empregados. “À empresa, coube trazer as reais informações ao seu efetivo: nenhum direito foi retirado, apenas foram adequados os benefícios que extrapolavam a CLT e outras legislações, de modo a alinhar a estatal ao que é praticado no mercado.”

Trabalho remoto

Em relação à pandemia, os Correios afirmam ter redirecionado funcionários considerados como pertencentes ao grupo de risco “para o trabalho remoto – bem como aqueles que coabitam com pessoas nessas condições –, sem qualquer perda salarial”. E acrescenta que a paralisação agrava ainda mais a debilitada situação econômica da estatal.

Sem reajuste

No ano passado, a ECT registrou lucro líquido de R$ 102,1 milhões. Mas a atual direção faz referência ao endividamento dos Correios, que segue na lista de privatizações pretendidas pelo governo, conforme anunciado por vários interlocutores.

A empresa, que tem quase 100 mil funcionários, não fez proposta de reajuste salarial. Nos últimos anos, as campanhas têm parado na Justiça do Trabalho.

Confira nota das centrais sobre a greve dos Correios

Expressamos em nome da classe trabalhadora brasileira total apoio e solidariedade à paralisação dos Correios deflagrada a partir desta terça-feira, 18 de agosto, por tempo indeterminado. Não faltam motivos para a greve.

A direção da empresa não dialoga com as lideranças sindicais e decidiu suprimir 70 das 79 cláusulas do Acordo Coletivo da categoria assinado para vigorar até 2021.

Destruiu benefícios conquistados ao longo de 30 anos de luta, como anuênio, vale alimentação, licença-maternidade de 180 dias, creche, auxílio morte e o pagamento de 30% de adicional de risco. Reduziu de 70% para 50% a participação da empresa no financiamento do Plano de Saúde e ainda retirou dependentes como pais e mães. Mais de 15 mil abandonaram o convênio depois que ficou mais caro e restrito.

Os trabalhadores e trabalhadoras lutam também contra a negligência da direção da empresa com a saúde dos funcionários na pandemia do novo coronavírus. A carência de EPIs básicos expõe os carteiros à doença, e igualmente os clientes com quem estes mantêm contatos diretos ou indiretos, com a manipulação de mercadorias e correspondências.

A categoria, que hoje soma cerca de 100 mil no país, já conta mais de 120 mortes pela Covid-19. A exemplo do presidente Jair Bolsonaro, os atuais dirigentes da empresa não dão a mínima para a vida e a saúde dos funcionários. O objetivo que os orienta é a privatização da empresa e para preparar o caminho neste sentido demitiram nada menos que 30 mil nos últimos quatro anos.

A luta é também contra a privatização. Neste aspecto a importância da batalha dos grevistas transcende os interesses particulares da categoria e diz respeito ao conjunto da sociedade brasileira.

Patrimônio brasileiro

Os Correios são um patrimônio do povo brasileiro que não deve ser entregue a capitalistas privadas cujo único objetivo é extrair de seus negócios o lucro máximo. A empresa pública presta serviços relevantes à população que desaparecerão após a privatização, da qual também se deve esperar o aumento das tarifas, a exemplo do que já ocorreu no ramo das telecomunicações.

Exemplo do papel social dos Correios foi observado em Minas Gerais durante as fortes chuvas que castigaram o estado em janeiro. Para que a ajuda humanitária chegasse com a rapidez necessária aos milhares de desabrigados e desalojados espalhados por Minas, a atuação dos Correios foi essencial.

“Nenhuma outra transportadora, mesmo que o estado tivesse condições de pagar, teria prestado um serviço como este. Os Correios acabaram fazendo com que os donativos, alimentos, remédios, coisas urgentes, chegassem até às mãos das pessoas que precisam de forma rápida”, reconheceu o governador, Romeu Zema.

A ação institucional “Solidariedade Expressa” é uma iniciativa realizada pela empresa sempre que ocorrem situações que envolvem estado de emergência ou de calamidade. Isto enquanto a empresa permanecer como propriedade pública, em que o lucro não é o único e nem necessariamente o principal objetivo.

Não há justificativa econômica para a venda da empresa, que extraiu de seus negócios um lucro superior a R$ 1 bilhão entre 2017 e 2019 e tende a ampliar o mercado e, por extensão, o faturamento com a expansão do comércio eletrônico.

Contra a privatização

A luta contra a privatização dos Correios é do interesse maior de todo nosso povo. As centrais sindicais e entidades que subscrevem esta nota conclamam o conjunto dos movimento sociais, as organizações e forças democráticas e progressistas, em especial os trabalhadores e trabalhadoras das estatais e suas entidades, à solidariedade ativa com os grevistas em defesa da saúde, dos direitos e do patrimônio público nacional.

Sérgio Nobre – Presidente da CUT – Central Única dos Trabalhadores

Miguel Torres – Presidente da Força Sindical

Ricardo Patah – Presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores

Adilson Araújo – Presidente da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil

José Calixto Ramos – Presidente da NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores

Alvaro Egea – Secretário-geral da CSB – Central dos Sindicatos Brasileiros

Atnágoras Lopes – Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas

Nilza Pereira de Almeida – Secretária de Finanças da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora

Ubiraci Dantas de Oliveira – Presidente da CGTB – Central Geral dos Trabalhadores do Brasil

Emanuel Melato – Coordenação da Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora

José Gozze – Presidente da PÚBLICA, Central do Servidor