Mobilização por direitos

Entregador ‘é descartável para os aplicativos’, diz Galo

Líder dos Entregadores Antifascistas, que participa da primeira greve da categoria, afirma que aplicativos devem bancar vale-alimentação para os trabalhadores

Marcello Casal/Agência Brasil
Em apoio a greve, entregadores pedem boicote aos aplicativos nesta quarta-feira (1º)

São Paulo – Paulo Roberto da Silva Lima, o Galo, líder do movimento dos Entregares Antifascistas, afirma que as vidas dos ciclistas e motoboys que fazem os produtos chegarem aos consumidores não valem nada para os aplicativos. “O entregador é descartável. É como na música dos Racionais: o ser humano é descartável no Brasi.”

Em entrevista aos Jornalistas Livres, nesta terça-feira (30), Galo disse que para os aplicativos importa apenas o cliente. “Se tiver algum problema com o cliente, ele vai para o concorrente. Já com o entregador, tem outros dez para entrar no lugar dele.”

Na guerra pela concorrência, os aplicativos chegam a distribuir comida de graça para os clientes, na forma de cupons de desconto. A força do dinheiro é um dos fatores que dificultam a criação de um aplicativo autônomo, desenvolvido pelos próprios trabalhadores, que possa livrá-los da exploração, disse Galo. “Fico chateado, porque eles (os aplicativos) podiam dar comida para os entregadores também.”

Os entregadores de aplicativos como iFood, Uber Eats, Rappi fazem a primeira greve da categoria, nesta quarta-feira (1º), por melhores condições de trabalho. Eles reivindicam aumento na remuneração das corridas e o fim dos bloqueios indevidos nas plataformas, dentre outras exigências.

Estão previstas manifestações em diversas cidades do país. Em São Paulo, após percorrer diversas regiões, eles se encontrarão na Avenida Paulista, às 14h, em frente ao Masp.

CLT

Os entregadores antifascistas vão além: também querem que as plataformas de entrega arquem com vale-refeição para os trabalhadores. O objetivo final, segundo Galo, é fazer com que os aplicativos reconheçam o vínculo empregatício com os entregadores. “Nos não somos empreendedores. Somos força de trabalho.”

Em entrevista no Instagram, ao canal MeExplica, Galo afirmou que a luta pela CLT é a única coisa que protege os trabalhadores. “A luta dos entregadores deveria ser para aprimorar a CLT, e não para resgatá-la como era antes”, afirmou ele.

“É igual à democracia. Queríamos que a luta fosse para fazer chegar a democracia para todo mundo. E não ter que lutar para a democracia não acabar”. Para ele, fascismo é quando apenas um pequeno grupo pode fazer política, enquanto esse direito é negado à maioria da população.

Galo lembrou que o ramo de entregas de alimentos e outros produtos existe há muito tempo. E os aplicativos não criaram nenhum emprego. Segundo ele, se for apenas para explorar os trabalhadores, essas plataformas perdem a razão de existir. “Os aplicativos tem que crescer protegendo os trabalhadores”.

Mais risco, menos dinheiro

Durante a pandemia de coronavírus, quando se tornaram ainda mais essenciais, os entregadores viram os rendimentos caírem. Pesquisa on-line realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que 68,9% dos entregadores tiveram queda nos ganhos neste período.

Antes, 17% diziam ganhar em torno de um salário mínimo (R$ 1.045). Agora, são 34%. Por outro lado, caiu para 26,7% a proporção dos que afirmavam ganhar acima de dois salários mínimos. Antes da pandemia, eram mais da metade (51%).

Apoio dos consumidores

Para apoiar a greve, os entregadores defendem que as pessoas não peçam entrega de comida neste dia por meio das plataformas digitais. Os consumidores também podem ajudar avaliando negativamente os aplicativos nas lojas virtuais e divulgando a luta dos trabalhadores. “A gente está pedindo apoio de todo mundo. Mais respeito com o motoboy”, disse o entregador conhecido como Mineiro, em entrevista à repórter Lu Sodré, do Brasil de Fato.

Assista à reportagem:

Redação: Tiago PereiraEdição: Helder Lima


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