Memória

Estádio de São Januário sediou celebrações históricas do 1º de Maio

Inaugurado há 93 anos, o estádio do Vasco da Gama, na zona norte do Rio, foi palco de grandes momentos do mundo do trabalho na era Vargas

Arquivo Nacional | via LEHMT/UFRJ
Desfile em celebração do dia 1º de maio no Estádio de São Januário, 1942. Ao fundo, "placa" de publicidade da Companhia Siderúrgica Nacional, criada na era Vargas

São Paulo – O Estádio Vasco da Gama, vulgo São Januário, foi inaugurado em 21 de abril de 1927. Virou monumento da arquitetura neocolonial e principal cartão postal do futebol carioca até a chegada do Maracanã, em 1950. E, especialmente na primeira metade do século 20, foi palco de grandes momentos do mundo do trabalho. Dois anos antes, o 1º de Maio havia sido reconhecido oficialmente Dia do Trabalho. E nos anos seguintes, São Januário e 1º de Maio estiveram juntos em muitas histórias.

Além de abrigar o clube do coração de personalidades como Aldir Blanc, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Antonio Pitanga, Teresa Cristina – que têm em comum, além do time, obras em que o cotidiano do trabalhador são matéria prima –, São Januário foi ponto de grandes celebrações. No 1º de Maio de 1940, foram apresentadas por Getúlio Vargas a regulamentação do valor do salário mínimo, criado quatro anos antes, e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). No ano seguinte, Vargas anunciou a criação da Justiça do Trabalho.

São Januário abraçou também um dos grandes episódios da luta política da esquerda brasileira, no plano institucional: um comício de Luiz Carlos Prestes, em maio de 1945, reuniu no campo do Vasco cerca de 100 mil pessoas.

Muita história

Prestes, líder do Partido Comunista do Brasil (então PCB), havia acabado de ser anistiado por Vargas, com o fim do Estado Novo, depois de passar nove anos na prisão. Naquele ano, seria eleito deputado federal constituinte pelos estados de Pernambuco, Rio Grande do Sul e pelo Distrito Federal. Abriu mão da vaga por conquistar também, pelo Rio de Janeiro, uma cadeira no Senado, que ocupou por dois anos (1946-48), até o partido ter o registro cassado, perder o mandato e, novamente, a liberdade política.

O jogo inaugural de São Januário entre Vasco e Santos, em de 21 de abril de 1927, foi vencido pelo clube paulista por 5 a 3, na presença do então presidente, Washington Luís. A partida de ida da final da Libertadores de 1998, contra o Barcelona de Guaiaquil, vencida pelo Vasco, por 2 a 0, rendeu o título mais importante do time cruzmaltino. Mas, como se vê, entre um feito e outro, muita história do Brasil rolou naquele gramado da zona norte do Rio. Inclusive um feito do compositor Heitor Villa-Lobos, que reuniu 40 mil crianças do então Distrito Federal num projeto de canto coral tendo como repertório canções do folclore brasileiro.

Essa história é narrada pelo professor Bernardo Buarque de Holanda, da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio. Seu texto é um dos episódios do projeto Lugares de Memória dos Trabalhadores, do Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LEHMT-UFRJ). Leia a seguir.


São Januário
Trabalhadores nas arquibancadas de São Januário no comício do PCB em homenagem à libertação de Luís Carlos Prestes, 23/05/1945. (Site NetVasco)

Lugares de Memória dos Trabalhadores: Estádio de São Januário

Bernardo Buarque de Holanda

O estádio do Clube de Regatas Vasco da Gama possui uma história quase centenária. Localizado na zona norte do Rio de Janeiro, no tradicional bairro de São Cristóvão, convertido desde o início do século 20, em um bairro industrial e operário, São Januário tem importância não apenas no âmbito esportivo, mas também na conformação da cultura política brasileira, tendo sido palco de manifestações e da promulgação de direitos da classe trabalhadora no Brasil.

O espaço foi inaugurado em 21 de abril de 1927, após uma extraordinária mobilização dos associados do clube para o soerguimento de um estádio próprio, com capacidade para mais de quarenta mil espectadores. Graças ao empenho dos imigrantes portugueses na arrecadação de contribuições e ao associativismo da colônia lusitana na cidade, o estádio foi construído em torno de onze meses. Em formato semicircular de ferradura, o estádio é considerado um monumento da arquitetura neocolonial, adornada com azulejos e brasões portugueses. Sua fachada é hoje tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Até 1940, com a criação do Pacaembu, em São Paulo, São Januário foi o equipamento esportivo arquitetônico de maior envergadura no Brasil. No Rio, o campo do Vasco constituiu o principal espaço para a prática do futebol, durante as fases amadora e depois profissional da capital da República. Este status de grandeza durou até o advento do Maracanã, estádio municipal construído para sediar a Copa do Mundo de 1950. Mesmo após a inauguração deste, São Januário continuou a ser referência no universo esportivo brasileiro e permanece em plena atividade

Pioneiro dos jogadores negros

Pode-se dizer que o clube e o estádio simbolizam o processo de popularização e de massificação do futebol no Brasil. O Vasco ficou conhecido como um dos pioneiros na introdução de jogadores negros, mulatos e brancos pobres, recrutados junto às classes trabalhadoras da cidade. Com esse elenco de atletas, em 1923, o Vasco sagrou-se campeão carioca. O feito inédito gerou reações elitistas de parte da entidade responsável pela organização das competições de futebol que impediu a continuidade do time na liga principal, sob o pretexto de ausência de um estádio próprio, fato que motivou a construção de São Januário.

A monumentalidade do estádio tornar-se-ia terreno propício não só para competições desportivas como para eventos de caráter cívicos, com grande repercussão no imaginário político da Era Vargas. Foi em São Januário, por exemplo, que o compositor Villa-Lobos, na condição de músico imbuído do ideário do Estado Novo, desenvolveu nos anos 1940 o projeto educativo nacionalista dos cantos orfeônicos, no qual multidões de crianças entoavam peças do cancioneiro popular e dos repertórios do folclore infantil.

Além das festividades e das cerimônias cívicas, São Januário foi apropriado de igual maneira por atos e manifestações políticas, em especial os desfiles e pronunciamentos de Getúlio Vargas. Frequentador da tribuna de honra nos dias de jogo, Vargas valeu-se da estratégia de utilizar o estádio para fazer discursos de rádio em cadeia nacional. O Dia do Trabalho, comemorado em primeiro de maio no Brasil desde 1925, passou a ser realizado frequentemente no estádio vascaíno durante o Estado Novo.

Comício dos 100 mil

Correntes políticas que também disputavam a adesão dos trabalhadores igualmente se valeram daquela praça de esportes para a arregimentação de suas bases. Nos estertores do Estado Novo, a promoção de comícios no estádio do Vasco foi uma das estratégias adotadas pelo Partido Comunista do Brasil. Foi ali que, após sair da prisão, o líder do PCB, Luís Carlos Prestes, promoveu um grande ato no dia 23 de maio de 1945. O comício foi uma gigantesca demonstração de força do partido e de prestígio de seu líder, reunindo cerca de 100 mil trabalhadores.

Durante a campanha eleitoral de 1950 e no início de seu governo, Vargas e seus seguidores trabalhistas voltariam a eleger São Januário como espaço privilegiado para comícios e mobilizações coletivas. A partir de meados dos anos 1950, o uso do estádio para manifestações de partidos diminuiria de maneira significativa. Isto, entretanto, não significou que as arquibancadas de São Januário deixassem de ser espaço de manifestações e protestos, muitas vezes com clara conotação política, tradição que, de alguma forma, se mantém. 

No Rio de Janeiro do século 21, o outrora bairro operário em que se inscrevia o estádio é hoje uma grande comunidade – a Barreira do Vasco – envolta nos problemas cotidianos que assolam as periferias das grandes cidades. Em meio às novas arenas erigidas para reconfigurar o perfil social dos torcedores de clubes e para se ajustar à nova economia política do futebol internacional, São Januário permanece como um especial lugar de memória dos trabalhadores-torcedores brasileiros.