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‘Metade da Europa está estarrecida com as imagens da Amazônia’, diz Michael Vassiliadis

Em evento da CUT, sindicalista alemão comentou os efeitos da nova realidade da revolução 4.0 para os trabalhadores: "Empresa não pode ser uma zona sem democracia"
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
08:16
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Reprodução

"Brasil vai ser visto como problemático e ninguém vai negociar com um país assim"

São Paulo – A CUT realizou na tarde desta quinta-feira (29), em sua sede nacional em São Paulo, o debate “Transformações no mundo do trabalho e novos desafios da representação sindical”, com Michael Vassiliadis, presidente do Sindicato Europeu de Trabalhadores nas Indústrias e do Sindicato Nacional dos Químicos da Alemanha (IG BCE). O sindicalista afirmou não ter condições de avaliar dados sobre a crise ambiental no Brasil e a devastação da Amazônia, mas, mesmo assim, acredita que a temática ajuda o campo progressista a pressionar o presidente Jair Bolsonaro, tanto internamente quanto do ponto de vista internacional. “Porque metade da Europa está estarrecida com as imagens que (as pessoas) estão vendo. Temos que aproveitar o tema”.

Ele avalia que, se Bolsonaro continuar com essa reputação internacional que o associa à destruição, “vai complicar”. “O Brasil vai começar a ser visto como um país problemático e ninguém vai negociar com um país assim. O dano é internacional. No G7 (reunião dos países mais ricos do mundo, na semana passada) já foi complicado. As empresas precisam ter uma sensação de segurança para negociar com o Brasil”, disse.

A eleição de Bolsonaro se relaciona a um fenômeno político que também ocorre na Europa, segundo a análise de Vassiliadis. “O centro está se enfraquecendo. Há um fortalecimento dos dois extremos”, disse. “Bolsonaro foi eleito com fraudes, fake news etc, mas foi eleito. Porém, não foi legitimado para destruir a democracia.”

Ele afirmou que, nesse contexto, é necessário mobilização. Mas também defendeu a necessidade de a esquerda democrática e o sindicalismo pensarem novas alternativas para responder a desafios contemporâneos. “Uma sociedade tem que poder se defender numa democracia. É importante não só ter direitos, mas também deveres de se mobilizar. Não devemos desistir. Defender e salvar a democracia e tirar Lula da prisão são desafios. São muitos desafios que precisam ser enfrentados. Mas, paralelamente, as forças progressistas no mundo todo precisam escrever uma (nova) história, moderna”, disse.

De seu ponto de vista, essa seria uma “história socialdemocrata de inovação”, que precisa ser desenvolvida para evitar que “outras elites” ocupem o espaço político. “A esquerda fica na política do dia a dia, e isso não inspira as pessoas.”

Ele comparou as realidades brasileira e alemã, quando se fala em pobreza e miséria, que são muito diferentes, já que na Alemanha um “pobre” tem um padrão de vida muito mais elevado. “Reduzir as desigualdades, e isso tem que ser modernizado, foi algo que Lula fez, porque ele transmite todo esse entusiasmo. Isso foi um pouco perdido. Perdeu-se um pouco de confiança. Mas as condições aqui são tão desafiadoras que acho que vocês têm força e podem fazer algo. A gente tem como mostrar um novo mundo.”

Revolução 4.0

No cenário do século 21 em que a esquerda precisa enfrentar novos desafios e se modernizar, Vassiliadis comentou o papel dos sindicatos numa realidade chamada de revolução 4.0 ou quarta revolução industrial, a automação radical das fábricas, processo no qual a Alemanha está na vanguarda. “O que os sindicatos fazem para apoiar os trabalhadores para o futuro? Sem a força dos sindicatos, essas mudanças vão pesar sempre sobre os ombros dos trabalhadores.”

Segundo ele, como as novas tecnologias determinam como e quando as pessoas e trabalhadores se comunicam e organizam o trabalho coletivo, a digitalização e os algoritmos estão superando a transparência nos processos decisórios. Por exemplo, num simples processo de contratação de profissionais.

“Temos que reconhecer que não temos a competência de dominar isso completamente. Algoritmo é razoável para avaliar as pessoas numa empresa?”, questionou. “Temos democracia, mas precisamos de um debate democrático. A empresa ou a fábrica não podem ser uma zona sem democracia.”

Verdes x socialdemocracia

A respeito da questão ambiental na relação com a política institucional, Vassiliadis sublinhou a diferença entre sua posição (socialdemocrata) e a dos verdes na Alemanha: “sem justiça social não vai ter proteção do meio ambiente”.

Ele destacou considerar a luta ecológico-ambientalista importante, mas fez uma ressalva. “Claro que é melhor comer menos carne, mas isso é uma decisão democrática de cada um. Os cidadãos devem decidir por si mesmos o que querem comer.” Na sua opinião, em realidades em que há mais pobreza, se a pessoa “não sabe o que vai comer amanhã”, isso se acentua.

O Partido Verde alemão obteve expressivo crescimento nas eleições europeias realizadas em maio deste ano. A legenda conseguiu a segunda maior representação alemã no Parlamento Europeu.

Assista também reportagem da TVT sobre a participação de Vassiliadis no evento da CUT: