Ford ABC

‘Não podemos desanimar. Não vamos aceitar passivamente’

Trabalhadores questionam estratégia da Ford e lembram que empresa se beneficiou com incentivos fiscais. Segundo sindicalista, em cinco anos a montadora ganhou o equivalente a um faturamento anual

Roberto Parizotti/CUT Brasil
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Trabalhadores fazem assembleia em São Bernardo e garantem que vão continuar mobilizados para manter fábrica em atividade

São Bernardo do Campo (SP) – Foram cinco dias de expectativa até que os representantes dos metalúrgicos voltassem para relatar o resultado da reunião com a direção mundial da Ford, na semana passada. As notícias não foram boas: a empresa manteve sua posição de fechar a fábrica de São Bernardo. Uma saída, agora, pode ser a venda da unidade.

Segundo os trabalhadores, a Ford informou que há três interessados, e um deverá estar no Brasil ainda nesta semana. Eles apostam nessa alternativa, mas não deixam de publicar a montadora por sua postura. O ex-presidente do sindicato Rafael Marques afirmou, na assembleia da manhã de hoje (12), que apenas em subsídios a empresa ganhou, nos cinco últimos anos, o equivalente a um faturamento anual. O total aproximado é de R$ 7,5 bilhões.

Segundo Rafael, este é um momento de “transição” entre a “velha indústria e a velha tecnologia e novas indústrias e tecnologias”. Ele lembrou que, no ano passado, a Ford anunciou uma reestruturação global, no valor aproximado de US$ 11 bilhões, que atinge o Brasil também. Mas apontou “erros de estratégia” da direção, como abrir mão da produção de caminhões. “Não dá para entender a decisão de abandonar esse produto”, afirmou, pedindo ânimo aos trabalhadores. “A viagem (aos Estados Unidos) foi uma etapa.”

Mesmo na produção de automóveis, a companhia cometeu erros, acrescentou o metalúrgico, que hoje preside o Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID). Um deles foi não ter garantido fornecedores locais para o Fiesta, importando componentes e aumentando custos por causa da variação cambial. “Eles mataram o carro”, disse Rafael.

Além dele, participaram de reuniões na sede da Ford o atual presidente do sindicato, Wagner Santana, o Wagnão, e o coordenador de representação na fábrica do ABC, José Quixabeira de Anchieta, o Paraíba. Na quinta-feira passada, eles foram recebidos, entre outros, pelo vice-presidente executivo e presidente de Operações Globais, Joseph Hinrichs, e pelo vice-presidente de Manufatura e Assuntos Trabalhistas, Gary Johnson. 

“Reforçamos a versatilidade da mão de obra, já que pelo acordo feito com o sindicato aqui estão os únicos trabalhadores em montadoras que atuam tanto na linha de automóveis como na de caminhões”, lembrou Paraíba. “Destacamos também o quanto nossa fábrica é moderna, nosso nível de automação, e também lembramos o impacto social que representaria o fechamento. Mas a resposta foi que a empresa não recuaria da decisão. Continuaremos lutando pela fábrica, mas se realmente for acontecer a venda, queremos estar na discussão”, acrescentou.

“Nós não vamos repetir o gesto da Ford de desistir”, afirmou Wagnão na assembleia. “O bem maior que ela tem é justamente aquele que ela está desrespeitando neste momento. Não nos cabe aceitar passivamente o resultado dessa reunião”, acrescentou.

Para ele, a empresa cometeu erros “de forma oportunista”, e há tempos tentar fechar a fábrica. “Estamos resistindo há 20 anos. Vamos questionar. Se precisar, faremos judicialmente também”, afirmou, referindo-se à questão dos incentivos fiscais. “Não somos contra o desenvolvimento de outras regiões, mas isso não pode ser às custas do emprego de cada um de vocês. Se (a Ford) não entende por bem, entende na marra.”

Como a empresa informou que haveria três interessados na compra, os trabalhadores querem participar da discussão. “Eles entendem que existe um momento para a gente entrar nessa negociação”, informou, pouco depois de encaminhar uma votação para aprovar um “estado de luta” em defesa dos 4.330 empregos na Ford. “Cada dia, a luta aqui será diferente”, adiantou.

As notícias vindas dos Estados Unidos frustraram os trabalhadores, mas eles seguem esperançosos de manter seus empregos. Amanhã, estarão novamente na fábrica. Como um jovem operária que, após a assembleia, atravessou a rua e foi para o ponto de ônibus do outro lado da Avenida do Taboão esperar a condução para Diadema, cidade vizinha a São Bernardo, onde mora. “Vamos aguardar”, comentou, de olho no movimento dos veículos.

 

 

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