Indústria

Caso Ford tem de ser ‘escândalo nacional’, pede deputado

Presidenta do PT, Gleisi Hoffmann quer que Bolsonaro questione Trump em reunião marcada para daqui uma semana. Para dirigente metalúrgico, Brasil 'não está preparado' para debate sobre o futuro da indústria

Roberto Parizotti/CUT Brasil
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Trabalhador da Ford no ABC não esconde o desânimo, mas negociações vão continuar, garantem metalúrgicos

São Bernardo do Campo (SP) – A saída da Ford de São Bernardo e a política de incentivos fiscais foram temas centrais da assembleia dos metalúrgicos do ABC, das 7h às 8h desta terça (12), quando se confirmou o fechamento da fábrica, apesar dos esforços para reverter a decisão. Além dos sindicalistas, parlamentares afirmaram que os benefícios concedidos à empresa precisam ser questionados pelo Legislativo e pelo Executivo. A presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), chegou a afirmar que Jair Bolsonaro deve incluir o tema Ford como prioridade em sua agenda com Donald Trump – os presidentes brasileiro e norte-americano se reúnem daqui a uma semana.

“Precisamos transformar esse assunto em um escândalo nacional”, afirmou o deputado estadual Teonílio Barba (PT), ex-funcionário da própria Ford em São Bernardo. Ele lembrou que há anos os metalúrgicos participam de discussões sobre reestruturação da unidade, em temas como automação e produtividade. “Não podemos aceitar que a Ford saia desse jeito. Não é uma negociação, é um anúncio de abandono”, disse Barba, com a ressalva que o debate não acabou. “Dia 7 não é o fim”, emendou, referindo-se à reunião realizada na semana passada com a direção mundial da companhia.

Para Gleisi, o Congresso aprovou a política de subsídios e, por isso, precisa cobrar a empresa. Com os incentivos concedidos até hoje à Ford, o governo se tornou um “acionista” da montadora. “Eles têm de prestar contas. O que eles fizeram com os subsídios? Vão ter de sentar com um dos acionistas mais importantes, que é o Estado brasileiro”, afirmou a deputada. 

Segundo ela, Bolsonaro também tem de receber uma representação dos metalúrgicos e dos trabalhadores da Ford. E a manutenção da empresa norte-americana no ABC deveria ser o “principal assunto” da reunião com Trump, na semana que vem, nos Estados Unidos. Cinco dias atrás, sindicalistas estiveram lá, conversando com a direção mundial da montadora, que alegou uma estratégia global para ratificar a decisão de fechar a unidade de São Bernardo.

Mas o presidente do sindicato, Wagner Santana, o Wagnão, disse ter recebido informações de que a empresa estaria estudando uma mudança interna no Brasil, e inclusive teria visitado áreas no Paraná. “A Ford precisa saber que nós sabemos”, alertou. Ele lembrou que, durante a reunião em Dearborn, na quinta-feira passada (7), o vice-presidente executivo Joseph Hinrichs, presidente de Operações Globais, chegou a comentar que isso já aconteceu em outros locais.

O ex-presidente do sindicato Rafael Marques, funcionário da Ford, hoje à frente do Instituto Trabalho Indústria e Desenvolvimento (TID), também questionou o presidente da companhia para a América do Sul, Lyle Watters, que em reunião no dia 19 de fevereiro, quando anunciou o fechamento, informou que a decisão era restrita a São Bernardo. Na conversa na sede mundial, a informação foi outra, de que a montadora está em processo de reestruturação mundial, que envolve ainda fábricas na França e na Rússia, além do Brasil. 

“Eles querem colocar o pé no carro autônomo, no carro elétrico”, afirmou Rafael. “E nosso país não está preparado (para o debate sobre política industrial), não está discutindo. Não vamos desistir dessa luta, mas temos de saber onde estamos envolvidos.” O sindicalista lembrou ainda que a própria Ford assegurou que “não há nenhuma responsabilidade da comunidade de São Bernardo” nos problemas enfrentados pela empresa.