Mobilização vitoriosa

Servidores enfrentam sol e chuva na luta contra reforma da previdência de Doria

Nem a temperatura elevada tampouco o temporal que caiu em boa parte da cidade impediram a mobilização contra o projeto que altera o sistema previdenciário paulistano

RBA
sampaprev

Temporal que alagou diversos pontos da cidade não foi suficiente para parar os servidores

São Paulo – Milhares de servidores municipais de São Paulo mostraram hoje (20) mais uma vez ao prefeito João Doria (PSDB) que seguem firmes na tentativa de barrar o Projeto de Lei 621/2016, que promove alterações na previdência municipal. No dia em que o presidente da Câmara dos Vereadores, Milton Leite (DEM), da base do governo, manobrou para tentar acelerar a aprovação do projeto, os trabalhadores enfrentaram sol e chuva para garantir a vitória parcial. “Não tem arrego”, repetiram em protesto.

Temerosos quanto à velocidade de tramitação do projeto e a realização de manobras por parte da base governista, os servidores marcaram um grande ato para as 13h. Na prática, começaram a chegar por volta das 10h, sendo que pelo menos 40 pessoas dormem em frente à Câmara desde terça-feira (13), sem perspectiva de sair dali até a retirada do PL da pauta. Ontem, Milton Leite havia registrado uma sequência planejada de 21 sessões extraordinárias para tentar aprovar a matéria, entretanto, após a pressão, o colégio de líderes do Legislativo decidiu suspender os encontros.

A vitória da mobilização não veio fácil e ainda não é definitiva. O governo busca ganhar tempo para tentar reverter a opinião pública a seu favor. Mesmo assim, o adiamento é positivo para os servidores, já que o atual prefeito deixa o cargo no dia 10 de abril para disputar o governo do estado. “Doria está com pressa para usar isso como capital político. Ele vai dizer que o Temer não conseguiu fazer nacionalmente, mas ele conseguiu em São Paulo”, resumiu a assistente social Marcelle Mendes, que esteve na mobilização.

Marcelle é servidora do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) do Butantã e enfrentou o calor que ultrapassava os 35 graus, de acordo com os termômetros do centro da capital, e o posterior temporal que caiu na cidade por volta das 16h. Ela esteve até o fim da manifestação que, após assembleia coletiva das categorias, decidiu pela manutenção da greve, pela realização de uma passeata até a sede da prefeitura e por um novo ato, que será realizado na quinta-feira (22), em frente ao prédio do gabinete do prefeito com outra assembleia e passeata até a Câmara. O caminho reverso do que foi feito hoje.

“Estamos 100% parados no Cras Butantã desde a semana passada. Somos pioneiros na região com esse tipo de paralisação e estamos resistindo no piquete em frente ao Cras todos os dias”, disse a servidora. Este é um ponto relevante para o sucesso das mobilizações. Além da greve e dos atos, os trabalhadores estão levando sua luta para as bases. Atos regionais são realizados com frequência, além de reuniões com a comunidade, em especial de professores, pais e alunos.

O presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), Sérgio Antiqueira, concorda com Marcelle e reafirma: “Servidores e servidoras, quando fazem barulho e fecham outras unidades, estão usando a capacidade do funcionalismo de lutar em unidade para derrubar o projeto. Estamos conseguindo fazer isso na base. Então nós, as entidades, vamos seguir esse exemplo. A prefeitura é uma só e os servidores são uma só voz”.

Retrocessos

Os servidores argumentam que o projeto representa um “confisco” nos salários, já que aumenta a alíquota da contribuição previdenciária, além de criar um regime complementar, o Sampaprev, que vai dividir os fundos de previdência, podendo “secar” o caixa da aposentadoria de muitos. “Eu já pago quase 300 reais de INSS e, pessoalmente, vou ter que deixar de fazer algumas coisas, como a faculdade, porque são muitos os aumentos”, disse o servidor do Centro de Controle de Zoonoses Carlos Alberto.

“Estamos torcendo para que esse projeto não passe. Já pagamos horrores de previdência e se aumentar vai ficar ainda pior. Não é só isso que está acontecendo, ele também quer tirar alguns benefícios. Não temos garantido nem o vale-refeição e o alimentação, não sabemos como isso vai ficar. Doria está querendo se candidatar a governador e quer deixar tudo encaminhado, mas temos a confiança de que ele vai recuar até pelo número de pessoas que estão aqui”, completou.

O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, pré-candidato à presidência pelo Psol, esteve presente no ato e também criticou o prefeito. “Esse PL que João Doria quer aprovar tenta aumentar a contribuição que os servidores já dão para a previdência. Na prática, é um confisco salarial. É a redução dos salários dos professores em nome de uma suposta falta de sustentabilidade da previdência”, disse.

“Ajuste nos olhos dos outros é refresco. Felizmente, as categorias se levantaram em uma luta bravíssima. Semana passada, assistimos o maior ato dos servidores públicos da história. Lotou tudo aqui como reação contra a violência que a gGuarda Civil Metropolitana (GCM) fez dentro da Câmara. Bater em professor é inadmissível. Mesmo assim, eles tentam colocar o projeto na pauta e, por isso, essa manifestação hoje”, completou Boulos.

O professor de ensino fundamental Wendel Moreira é um dos servidores que resistem. Ele esteve em todos os atos e está acampado em frente à Câmara. “Nossa vontade é de continuar o acampamento até que esse PL seja arquivado. Não vamos aceitar manobras, substitutivos ou acordos. Precisamos que ele seja arquivado”, disse.

RBAsampaprevsol
No início do ato, os termômetros ultrapassavam os 35 graus

Falta de legitimidade

A artista e musicista Mariana de Moraes, neta do poeta Vinícius de Moraes, esteve no ato para se somar junto aos servidores e criticou fortemente o prefeito. “Estou vivendo em São Paulo e só tenho visto desmandos. Vivo no centro e vejo os maus tratos que são cotidianos por parte do governo e estamos vendo isso todos os dias. Espero que hoje seja um dia de vitórias porque essa lei é absurda. Todos têm que ir para as ruas por isso”, disse.

Mariana lembrou Vinícius e seu engajamento político. “Tenho muito orgulho de estar aqui e desse movimento. Vi o Vinícius velhinho subir em um palanque na grande greve do ABC, cercado por policiais ainda durante a ditadura (1964-1985). Estou aqui em solidariedade e pedindo ‘fora Doria’”, disse. A greve citada aconteceu em 1980 e parou a indústria da região do ABC, na Grande São Paulo, por 41 dias.

Seguindo o exemplo das grandes greves, os servidores já estão de braços cruzados desde o dia 8 e o movimento ainda cresce, segundo o sindicato. “A cada dia mais unidades estão aderindo à greve. Ontem, pararam a secretaria do Verde, as subprefeituras do Jabaquara, Aricanduva, várias Unidades Básicas de Saúde (UBS), ambulatórios de especialidades. Continuamos com a greve quente na vigilância sanitária, zoonoses, assistência social. Estamos fortes e ampliando. Boa adesão dos CEUs, quase 100% parado”, disse Antiqueira, presidente do Sindsep. O balanço da greve ainda conta com algo perto de 99% das escolas municipais paradas.

A ideia é de parar, pelo menos, até o dia 10 de abril, quando o atual prefeito deixa o cargo para disputar o governo do estado. “Doria está aproveitando a prefeitura como trampolim político. O mandato que a população deu, agora ele quebra a confiança. Ele dizia ser um casamento, mas parece que não é muito fiel. Não tem legitimidade para aprovar esse projeto. Ele não quer nem ser governador, quer ser presidente. Por isso, quer aprovar esse projeto que é dos bancos, quer ser candidato dos bancos e do mercado financeiro”, completou Antiqueira.