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América Latina

Para Mujica, trabalhadores devem 'andar juntos' para enfrentar crise no continente

Ex-presidente uruguaio participou de debate no terceiro congresso da Central Sindical das Américas e afirmou que sindicalismo e movimentos sociais precisam lutar para manter conquistas
por Redação RBA publicado 27/04/2016 19h34
Ex-presidente uruguaio participou de debate no terceiro congresso da Central Sindical das Américas e afirmou que sindicalismo e movimentos sociais precisam lutar para manter conquistas
Reprodução
Mujica

Quando unidos, trabalhadores "são social e sociologicamente temíveis", disse Mujica em congresso da CSA

São Paulo – O ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica fez no final da tarde de hoje (27) um discurso, de cerca de uma hora, em que exaltou a importância da luta do movimento sindical e dos trabalhadores, no contexto de crise da América Latina e, particularmente, do Brasil. “É preciso lutar para que, pelo menos, sejam mantidas as conquistas sociais (da última década). Me parece que a luta dos movimentos sociais se manterá nesse plano. Não é lutar por um partido ou um governo, mas pelas conquistas, para que não as joguem fora", disse, sem referir-se ao golpe em andamento no Brasil.

Atual senador, Mujica destacou que a América Latina vive mais de dez anos de crescimento e melhorias sociais, mas que, mesmo assim, “nem de longe acabamos com a injustiça”. Por isso, afirmou, a luta de trabalhadores organizados em sindicatos é fundamental na atual conjuntura do continente, onde avançam as forças conservadoras e de direita.

“A luta é coletiva. A luta pela unidade e pelas grandes decisões. A única força que os trabalhadores têm é a de andar juntos. Quando conseguem, são social e sociologicamente temíveis”, disse. “Não adotamos a militância como uma forma de vida. Não vivemos da militância, vivemos para militar.”

Mujica falou no terceiro congresso da Central Sindical das Américas (CSA). As centrais brasileiras CUT, Força Sindical, Nova Central e UGT, além da Confederação Nacional dos Profissionais Liberais (CNPL), são filiadas à CSA. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era esperado para fazer parte da mesa com o colega uruguaio, mas não compareceu. Segundo a organização do evento, "Lula não pôde vir dadas as circunstâncias políticas".

Na semana passada, a entidade divulgou nota contra o processo de impeachment, e afirmou que a decisão da Câmara dos Deputados em 17 de abril foi um "ataque contínuo dos setores políticos mais conservadores e reacionários, junto a interesses econômicos nacionais e internacionais e com auxílio direto das grandes corporações de mídia".

O ex-presidente uruguaio defendeu no congresso que o movimento sindical não perca de vista a necessidade de se manter politizado para manter as conquistas dos últimos 50 anos, e ir além delas. “Os sindicatos devem ser totalmente independentes, mas devem ter visão política, porque politica é o que proporciona a luta pela justiça social. Uma coisa é ser independente dos partidos, outra é ser independente da política.”

Segundo Mujica, num mundo cada vez mais automatizado e dominado pela tecnologia, os sindicatos continuam a desempenhar papel de “advogado natural dos trabalhadores”. “A história nos ensina que, se lutamos pelos nossos objetivos, nunca haverá triunfo nem derrota definitivos. Daí a importância de todas as organizações sociais de todos os tipos, ligadas ao trabalho, que é o motor do progresso humano. A tecnologia aumenta a produtividade, mas aumenta também a concentração da riqueza.”

Ainda sem se referir diretamente ao processo de impeachment, o ex-presidente citou as conquistas de direitos pelas mulheres como exemplo de que as derrotas políticas não impedem os avanços, mesmo que sem a rapidez que os movimentos sociais desejam.

“Todos os avanços sociais são conquistas de lutadores que na maior parte do tempo foram derrotados, mas lentamente as conquistas foram se impondo, e isso acontece hoje com os direitos das mulheres”, afirmou. "Virá um governo que porá a culpa nos outros. A culpa é sempre dos que estavam antes.”