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Trabalho

'Os insatisfeitos que aguardem a próxima eleição', diz Jorge Nazareno

No dia do aniversário da greve da Cobrasma, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco diz que data é oportuna num momento em que "alguns se alvoroçam no sentido de pedir volta de regime militar"
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 16/07/2015 20h04, última modificação 16/07/2015 20h09
No dia do aniversário da greve da Cobrasma, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco diz que data é oportuna num momento em que "alguns se alvoroçam no sentido de pedir volta de regime militar"
Eduardo Metroviche/Divulgação
Jorge Nazareno

"Qualquer insinuação, qualquer gesto na direção de um regime totalitário deve ser rechaçado pela população"

São Paulo – A greve da Cobrasma, movimento histórico contra a ditadura, desencadeada no dia 16 de julho de 1968, completa 47 anos num momento de crise política e defesa de retrocesso por parte minoritária, mas barulhenta, da população.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região, Jorge Nazareno, o Jorginho, disse em entrevista à RBA que lembrar o aniversário do movimento osasquense de 1968, quando o sindicato era presidido por José Ibrahim, é oportuno “para a gente dizer para a sociedade, para quem gosta da gente ou quem não gosta, que um dos principais objetivos da greve era a resistência à ditadura militar”. O sindicalista, filiado e militante do PT, embora o sindicato seja filiado à Força Sindical, recomenda aos “insatisfeitos” com o resultado da eleição de 2014 “que aguardem a próxima eleição, trabalhem, e que o povo brasileiro escolha o que julgar adequado no próximo processo”.

Ele comenta também o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), que, em sua opinião, precisa ser aperfeiçoado, critica a condução do processo político pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e diz que ainda é cedo para aferir consequências do aumento da exportação brasileira na indústria do país e, consequentemente, no emprego.

O que você tem a dizer hoje sobre a greve da Cobrasma neste momento político conturbado?

A greve da Cobrasma completa hoje 47 anos e acho bastante oportuno para a gente dizer para a sociedade, para quem gosta da gente ou quem não gosta, que um dos principais objetivos da greve era a resistência à ditadura militar. Qualquer insinuação, qualquer gesto na direção de um regime totalitário deve ser rechaçado pelo conjunto da população. A greve de Osasco e sua história foram muito felizes nesse sentido, de levantar essa bandeira, fazer essa discussão. No momento em que alguns se alvoroçam no sentido de pedir a volta de regime militar, quando alguns insistem num terceiro turno, acho que deveríamos ter isso muito em conta. O processo eleitoral acontece a cada quatro anos e os insatisfeitos que aguardem a próxima eleição, trabalhem, e que o povo brasileiro escolha o que julgar adequado no próximo processo.

Há motivos para se temer um golpe?

Acho que temos as instituições funcionando, o Congresso, o sistema Judiciário, o Supremo. Não enxergo, do ponto de vista institucional, um golpe como o que já passamos na história do nosso país. Mas golpe dentro da política temos que rechaçar porque podem de fato acontecer. Digo golpes no sentido de brechas regimentais, brechas para votar de novo, como foi o caso da maioridade penal, e você não vê o Supremo dizer que foi inválido.

Agora, uma situação que provoque uma animosidade que leve a desestruturar alguns segmentos e o governo, e com isso se tentar assumir o poder, essas possibilidades infelizmente não podem ser descartadas. Temos que trabalhar muito e resistir a esse tipo de apelo. Não vejo em hipótese alguma elementos que justifiquem o afastamento da presidente Dilma.

No início de 2015, você escreveu um artigo onde diz que as medidas então anunciadas pela presidenta Dilma não tinham sido baseadas no diálogo com os trabalhadores...

O ajuste fiscal continua sendo algo que não foi e não vem sendo tratado com os trabalhadores. Tivemos medidas que para nós são caras, como mexer nos benefícios previdenciários, com o seguro-desemprego, por exemplo. Essas coisas trazem prejuízo aos trabalhadores, principalmente os mais jovens. Imaginar que o país passe ileso, que não tenha que fazer nada, a gente sabe que não tem como. Agora, o que fazer, como fazer, de que forma minimizar os impactos aos trabalhadores, nisso faltou e continua faltando um diálogo maior.

Você tem dito que o Programa de Proteção ao Emprego (PPE) precisa de aprimoramentos. Quais?

As últimas medidas anunciadas, em relação ao programa de proteção ao emprego, acho extremamente positivas. Mesmo assim, acho que faltou um diálogo com o movimento sindical para que se pudesse fazer um ajuste fino maior. Caso alguma empresa nos procure para tratar disso, não vamos seguir da forma como está ali. Penso que o período de garantia de emprego deveria ser maior. Se você tem redução de salários e jornada por seis meses, a garantia de emprego deveria ser por mais seis meses, portanto um ano. E se, ao término disso, até porque uma parte vai ser custeada pelo próprio governo, a empresa ainda assim demitir, então que ela devolva ao trabalhador o que ele deixou de receber. Coisas como essa deveriam ser pensadas para colocar no programa. São coisas que eventualmente numa discussão vão ser colocadas na mesa.

Está correto o termo “até” 30% de redução de jornada e salários. Mas evidente que não vamos fazer não vamos concordar com uma redução desse tamanho, mesmo tendo complemento do governo, que vai completar até 15%, no caso dos salários reduzirem 30%. Na jornada, tudo bem, mas nos salários, você falar em 15%... Você tirar 15%, 300 reais, da pessoa que ganha 2 mil reais é um impacto muito grande, embora a garantia do emprego seja muito importante. O parâmetro para a redução do salário não pode ser o salário mínimo, mas na pior das hipóteses o piso da categoria. A medida é positiva, mas de fato precisa ser aprimorada.

Embora o governo vá divulgar os critérios para a adesão de empresas ao PPE na semana que vem, existe sinalização das empresas da região de Osasco em aderir?

Já tivemos alguma sinalização de empresas que talvez venham a adotar esse sistema. Mas vamos saber se as empresas primeiro atendem aos requisitos exigidos, inclusive quanto a certidões negativas de débito. E se o governo vai ter recurso para atender a todos os setores, porque 100 milhões de reais (custo estimado do programa) é modesto. Ao mesmo tempo em que é modesto, é uma sangria ao Fundo de Amparo ao Trabalhador. Não dá para ter clareza sobre a capacidade do governo. Com as empresas que nos procurarem, vamos dialogar. Mas a última palavra é dos trabalhadores. Na Mercedes, por exemplo, os trabalhadores rejeitaram redução de jornada e salários.

A tendência atual de exportação em alta afeta positivamente a categoria?

Claro que ter exportação para o país é importante, desde que tenha continuidade. Se você exporta hoje e não sabe se exporta amanhã, os investimentos nem sempre acontecem porque as empresas não sabem se isso vai durar um semestre ou seis anos. É uma situação é muito volátil para que a empresa continue a se estruturar. Precisa esperar para ver se esse é o câmbio que vamos ter, ou próximo disso, para ver se vai dar retorno e recompor parte da nossa indústria, que realmente perdeu muito nos últimos anos.

Como está vendo a atuação do Congresso mais conservador desde a redemocratização?

Nossas críticas vão continuar sobre tudo o que estabelece de prejudicial aos trabalhadores, como terceirização, a redução da maioridade penal e reforma política. Coisas muito ruins que esse Congresso tem produzido. Ao mesmo tempo, algo que ficou positivo foi a votação pelo fim do fator previdenciário. O Congresso que está aí é muito ruim, mas foi democraticamente eleito.

O financiamento privado de campanha é o principal eleitor desse Congresso...

Mas aí os movimentos sociais, com todo esforço que temos feito, não têm dado a ressonância necessária para termos uma reforma política com participação popular. Nós defendemos num determinado momento uma Constituinte exclusiva que discutisse a reforma política, e isso foi rejeitado por muitos. Depois defendemos uma consulta popular para a reforma política, através de um plebiscito, e também não acontece. Então essas coisas não vêm acontecendo e deixar o Congresso com seus interesses discutir qual é a reforma, vai ser a reforma dos interesses desse Congresso.

O mesmo presidente da Câmara que chegou a aventar a possibilidade de remeter à população a maioridade penal, que ele sabe que por falta de informação ou por outras razões é amplamente favorável, não quer jogar a discussão da reforma política e do financiamento para a população se manifestar, porque sabe qual vai ser o resultado, dificilmente teria a anuência da sociedade. É lamentável, mas nos cabe continuar trabalhando.

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