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No Paraná, trabalhadores lembram um mês do ‘Massacre de Curitiba’ e que luta continua

Dia Nacional de Paralisação no Paraná é marcado por repúdio à repressão contra professores e servidores em abril, pela qual Richa gastou quase R$ 1 milhão em armamentos e pagamentos a soldados
Publicado por Ricardo Gozzi, para a Rede Brasil Atual
11:09
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Curitiba – Milhares de professores e servidores públicos paranaenses em greve marcaram na sexta-feira o aniversário de um mês do Massacre do Centro Cívico. Eles denunciaram a truculência do governo e a falta de diálogo com o governador Beto Richa (PSDB) e rebatizaram simbolicamente a Praça Nossa Senhora de Salete, em frente à Assembleia, como “Praça 29 de Abril: Menos Bala, Mais Giz”. O ato coincidiu com a apresentação de documentos da PM ao Ministério Público de Contas do Paraná de acordo com os quais o Estado gastou quase R$ 1 milhão somente em munições e diárias pagas a policiais que participaram da repressão de um mês atrás.

Em 29 de abril, a polícia militar partiu com violência e força desproporcional para cima de milhares de manifestantes contrários ao trâmite pela Assembleia Legislativa do projeto de lei por meio do qual o governador tucano conseguiu retirar do Tesouro e transferir para o fundo de previdência bancado por servidores da ativa o ônus pelo desembolso de mais de R$ 120 milhões por mês para o pagamento de aposentadorias e pensões.

Durante quase duas horas ininterruptas de ataque, mais de 200 pessoas foram feridas por balas de borracha e/ou intoxicadas por gás lacrimogêneo e spray de pimenta – grande parte das vítimas foi atingida na região da face, o que para muitos indica que a PM teria assumido o risco de provocar lesões irreversíveis, como a cegueira, em caso de impacto diretamente sobre os olhos.

Para marcar o primeiro mês do evento, os professores concentraram-se pela manhã na Praça 19 de Dezembro, popularmente conhecida como Praça do Homem Nu, e seguiram em caminhada até o Centro Cívico de Curitiba.

Durante o percurso, do alto de um caminhão de som, o secretário de comunicação da APP Sindicato, Luiz Fernando Rodrigues, avisou que os professores e demais servidores paranaenses não permitirão que a data caia no esquecimento e que voltarão ao Centro Cívico todos os anos no 29 de abril para atos de preservação da memória de lutas pelo respeito aos direitos, trabalhistas e humanos.

Enquanto isso, documentos apresentados pela PM paranaense ao Ministério Público de Contas revelaram que o governo gastou quase R$ 1 milhão somente na repressão aos servidores. O ofício detalha que a ação repressiva contou com a participação de 1.661 policiais, sendo que a metade foi deslocada do interior para a capital. Isto significa que 15% de todo o contingente da PM paranaense estavam concentrados em volta da Assembleia Legislativa naquele dia.

O ato de sexta-feira reuniu 10 mil pessoas, segundo a APP Sindicato (3 mil segundo a prefeitura e a polícia). O trauma provocado pela repressão era evidente. Muitos dos feridos em 29 de abril estiveram presentes e a passeata seguiu em tom grave pelo percurso de pouco mais de um quilômetro entre a Praça do Homem Nu e o Centro Cívico.

“Foi tudo muito injusto”, desabafou à RBA o funcionário de escola Alderico José Dana Júnior, ao lembrar da truculência de um mês atrás. Ele foi ferido na perna durante o massacre.

Greve continua

Os manifestantes chegaram ao Centro Cívico, onde situam-se as sedes dos três poderes do estado do Paraná, pouco depois do meio-dia. Ali realizaram um ato no qual denunciaram o autoritarismo do governador tucano Beto Richa e prometeram voltar a protestar na segunda-feira (3) na tentativa de dissuadir os deputados estaduais de aprovarem uma confusa proposta de reajuste apresentada esta semana pelo executivo.

Pela proposta, o governo compromete-se a pagar este ano 3,45% de reajuste em três parcelas de 1,15% cada e, “se houver condições”, antecipar de maio para janeiro de 2016 a data-base dos servidores e reajustar os salários em 8,5%. Os servidores exigiam 8,17% de reajuste em parcela única ainda este mês.

As categorias em greve rejeitaram a proposta, qualificada por Richa como “irrecusável”, e mantiveram as paralisações. Os professores das escolas públicas do Estado protagonizam no momento a segunda greve no ano. Somadas, as duas paralisações já superam os 60 dias.

 

Ao longo de quase duas horas de repressão, os policiais dispararam contra professores, alunos, servidores e outros manifestantes um total de 2.323 balas de aço revestidas por borracha, 1.094 granadas de “efeito moral” e 300 bombas de gás lacrimogêneo de longo alcance.

Segundo o ofício, as despesas com a operação totalizaram R$ 948 mil, somadas as munições empregadas na ação e as diárias extras pagas aos policiais deslocados do interior para a capital – muitos dos quais foram obrigados a devolver ao governo o dinheiro destinado a sua alimentação. É possível, porém, que os gastos tenham sido ainda maiores. Ainda não há informações, por exemplo, sobre outros gastos decorrentes ao massacre, entre eles o atendimento às vítimas da violência policial.