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PL 4.330

Ato contra terceirização em SP termina com ‘gosto de vitória’ após adiamento da votação

Manifestação reuniu cerca de 40 mil, segundo organizadores, entre o Largo da Batata e a avenida Paulista; dirigentes acreditam que pressão popular foi decisiva para recuo dos deputados
Publicado por Redação RBA
18:37
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Gerardo Lazzari/RBA
Largo da Batata

Manifestantes de vários movimentos sociais se concentraram no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo

São Paulo – Os milhares de manifestantes que marcharam nesta quarta-feira (15) em São Paulo contra o PL 4.330, que trata da terceirização do trabalho, encerraram o ato iniciado no Largo da Batata, na zona oeste, em frente à sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na avenida Paulista, com a sensação de vitória. Forçados pela pressão popular, deputados chegaram a acordo para adiar a votação de emendas do projeto para a próxima quarta-feira (22) dando mais tempo para as bancadas discutirem. Segundo os organizadores, a marcha reuniu aproximadamente 40 mil pessoas, e não houve policiamento ostensivo. A PM disse que eram 1.300.

O dia começou com manifestações promovidas por sindicatos e cinco centrais sindicais em todos o país, com paralisações em fábricas e bancos e atos públicos. Em São Paulo, a principal movimentação das centrais ocorreu no meio da tarde, também diante da sede da Fiesp. O presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, descreveu uma vaia que os militantes deram ao presidente da federação patronal, Paulo Skaf. “Se o 4.330 do jeito que está redigido seguir adiante e for aprovado pelos senadores, acabou a CLT. O projeto não é terceirização, companheiros. É mentira do Skaf”, disse.

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Vagner Freitas, presidente da CUT: greve geral, se preciso

Ele criticou também a maioria dos deputados que aprovaram o PL e, em especial, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). “Nem a ditadura militar ousou em retirar o direito dos trabalhadores com um corte tão profundo como quer fazer o ditador Eduardo Cunha.”

No ABC, metalúrgicos realizaram assembleia a partir das 7h nas montadoras Ford, Volks e Scania e pouco antes das 8h os trabalhadores ocuparam a via Anchieta. Na Mercedes-Benz, a empresa suspendeu o ônibus para impedir que os trabalhadores se engajassem na luta contra as terceirizações, mas a categoria se juntou aos demais na mobilização.

Os bancários de São Paulo iniciaram o dia de paralisação em agências do centro da cidade e do entorno do Largo da Batata e em importantes unidades administrativas e operacionais do Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Federal. “O número de estabelecimentos que prestam serviço de correspondente bancário cresceu 2.313% entre 2000 e 2014, atingindo 331 mil em junho do ano passado, de acordo com o Banco Central. Com a aprovação do PL, a terceirização vai aumentar e atingir todos os setores, como as gerências, caixas e áreas de tecnologia, podendo colocar em risco o sigilo bancário”, afirma a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, Juvandia Moreira.

Concentração e marcha

A coordenadora estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Natalia Szermeta, informada da suspensão da votação das emendas, no final do ato, avaliou que se tratou de resultado da pressão popular, “uma vitória das mobilizações”. “Hoje o dia começou com greves e protestos, e vai terminar com greves e protestos. Isso dá mais força para seguir na luta e demonstra que o povo na rua vai conseguir barrar o projeto. Não existe acordo sobre o projeto. Ou ele será barrado no Congresso ou vai ser vetado por Dilma. Os trabalhadores não arredarão pé dessas posições”, garantiu.

“Os empresários exploradores e os coxinhas fascistas não passarão. Quantos mais vocês quiserem precarizar a vida dos que lutam, quanto mais pobres querem nos deixar, mais vão nos unir e mais vamos lutar pelos nossos direitos”, alertou a ativista.

Gerardo Lazzari/RBAGuilherme Boulos
Boulos, do MTST: ‘Não vamos permitir ataque a trabalhadores pobres. Não temos rabo preso’

No discurso final, o coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, ressaltou a greve dos professores estaduais, lembrando que ocuparam hoje a Assembleia Legislativa. Lembrou os atos da manhã em rodovias e movimentos grevistas por todo o país e disse que hoje foi um dia de vitória. “Acabamos molhados, mas lavamos a alma contra os que querem cercear os direitos dos trabalhadores e do povo pobre.”

No início do ato, às 17h, no Largo da Batata, Boulos disse que havia três recados a ser transmitidos com a manifestação: o primeiro, para a “elite preconceituosa”: “Vamos passar pelo ninho deles, pelos Jardins, para dizer que a rua é do povo, e que eles não vão nos impedir de ocupar as ruas”.

O segundo recado do MTST, à frente da organização do ato, é para a presidenta Dilma Rousseff: “Se o PL for aprovado, a Dilma tem o dever de vetá-lo. Não vamos aceitar as MPs (medidas provisórias) do ajuste (fiscal). O governo Dilma não foi eleito para cassar direito de trabalhador, nem pra fazer ajuste, nem pra colocar o (Joaquim) Levy na Fazenda (ministério). Não vamos ataque contra trabalhadores pobres, venha de onde vier. O MTST não tem rabo preso com ninguém”.

Quando a marcha chegou em frente ao escritório da presidência da República, já na avenida Paulista, Boulos repetiu o recado mencionado no início, reforçando que o movimento não vai aceitar cortes nos direitos dos trabalhadores, exigindo o veto ao PL 4.330 e o lançamento imediato do Minha Casa, Minha Vida 3, além da garantia das verbas de programas sociais para que não sofram com cortes do ajuste fiscal.

O último recado foi direcionado ao empresariado: “Nós vamos terminar este ato na Fiesp pra dizer que eles não devem cantar vitória antes da hora. O PL 4.330 não vai passar. E se passar, vamos barrá-lo, nem que seja na marra”. Boulos acrescentrou que na manifestação não vão ser vistas coisas como no domingo (12), quando, segundo ele, muita gente afirmou que Dilma tem que ir embora, mas ninguém questionou Eduardo Cunha (presidente da Câmara), que comandou a votação do PL 4.330, nem protestou contra Renan Calheiros (presidente do Senado), que coloca em pauta novamente a lei antiterrorismo, que na prática ataca o direito de manifestação, nem contra o governador Geraldo Alckmin, que deixou acabar a água em São Paulo e ignora a greve dos professores.

Para Altino de Melo Prazeres Junior, presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e representante da CSP-Conlutas, a suspensão da votação significa que as paralisação repercutiram, que “o povo começou a entender as medidas e pegou muito mal para os deputados ir contra os trabalhadores”. Ele acredita que a pressão é um caminho para barrar o projeto, que o adiamento é um sinal, mas não é o fim. “Se preciso for faremos greve geral.”

Vagner Freitas, da CUT, disse que é essencial a unidade da esquerda para derrotar a mobilização da direita. Afirmou que o PL 4.330 é só o primeiro de uma série para suspender direitos dos trabalhadores. A redução da maioridade a lei antiterrorismo vieram para acabar com direitos da população e mandou recado a Eduardo Cunha: “Você não manda no Brasil. Vamos fazer uma greve nacional se for preciso”.

Na Oscar Freire, mais um recado: “É povo, não é ladrão”

Ao chegar na rua Oscar Freire, na esquina com a avenida Rebouças, a manifestação já ocupava toda a faixa no sentido da avenida Paulista. A marcha se estendia da Oscar Freire até a avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros, perfazendo cerca de dois quilômetros. Grande número de nordestinos ocupou a rua Oscar Freire, nos Jardins, conhecida pelo comércio da alto padrão e frequentado pela elite paulistana. No carro de som, militantes do MTST lembraram a discriminação que sofreram, em ataques, inclusive durante as eleições. Ao som de forró, os militantes pediram para o povo dançar, debaixo da chuva, para homenagear a elite de São Paulo. Em frente às lojas da Oscar Freire, manifestantes ficaram irritados com o gesto de lojistas que se plantaram em frente aos seus estabelecimentos, para protegê-los. Os manifestantes entoaram cânticos, segundo os quais os lojistas não precisam “ter medo porque que é povo, não é ladrão”.

Candidata pelo Psol à presidência da República em 2014, Luciana Genro ressaltou que hoje há 30 mil trabalhadores se manifestando, professores em greve, mas a cobertura da imprensa não chega nem perto dos atos do fim de semana. “É preciso garantir a união entre o povo, os jovens, os negros, as mulheres, as centrais, para juntos barrar o PL 4.330 e o ‘ajuste’, que as medidas para sair da crise são o imposto sobre grandes fortunas e auditoria da dívida e não onerar ainda mais o trabalhador.”

Gerardo Lazzari / RBABatata-faixa-no-chão.jpg
Concentração contra o PL 4330

O secretário-geral da Intersindical, Edson Carneiro, o Índio, disse: “Não vamos  permitir uma senzala sobre o povo. Os ajustes e o PL 4.330 afetam principalmente os jovens. Não vamos aceitar barbárie contra os trabalhadores”.

O filósofo Vladimir Safatle, professor da USP, disse que o povo está sendo “fuzilado” pelo Congresso. “Estamos sendo levados a um futuro em que as pessoas não terão mais férias, 13º salário e condições dignas para o trabalho.” Ele disse ainda que a esquerda precisa entender que a sociedade não ouve mais os seus discursos. “Hoje somos nós, mas logo serão todos vítimas de dessas medidas.”

Personagens

RBAMaria de Fátima
Maria de Fátima: ‘terra pra plantar’

Maria de Fátima Silva, no MST há 17 anos e moradora em um assentamento no Vale do Paraíba, chamado Egídio Brunet, diz que está no ato para lutar por terra: “Meu povo precisa de terra pra plantar”.

Cícero Raimundo, militante do MTST, está há dois anos em uma ocupação na Vila Silvia, na zona leste da capital, e o local está para passar por reintegração de posse em breve: “Nossa principal pauta, além de barrar as terceirizações, é pressionar a Dilma para que ela abre logo a terceira fase do Minha Casa, Minha Vida”.

O integrante do movimento negro Circuito Palmarino Vanderlei Victorino diz que foi ao ato principalmente contra a redução da maioridade penal e pelo fim do genocídio da juventude negra nas periferias.

RBAVanderlei
Vanderlei: fim do genocídio da juventude negra

“Nós sabemos que a redução só vai encarcerar ainda mais a população negra e não consegue resolver a questão da violência. Menos de um por cento dos homicídios é cometido por jovens com menos de 18 anos”, disse.

Com informações dos repórteres Rodrigo Gomes e Sarah Fernandes