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São Paulo

Mais uma vez sem acordo, metroviários de São Paulo decidem manter greve

A pedido de sindicato, nova audiência no TRT é realizada, mas companhia rejeita avançar em proposta e é criticada por desembargador. Dirigente pede apoio das centrais sindicais para ampliar movimento
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 06/06/2014 18h20, última modificação 06/06/2014 21h01
A pedido de sindicato, nova audiência no TRT é realizada, mas companhia rejeita avançar em proposta e é criticada por desembargador. Dirigente pede apoio das centrais sindicais para ampliar movimento
Marcos Bezerra/Futura Press/Folhapress
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O segundo dia de greve na estação Ana Rosa: piquete de metroviários irritou presidente

São Paulo – Em assembleia encerrada às 20h45 desta sexta-feira, os metroviários de São Paulo decidiram manter a greve iniciada ontem (5). Não houve acordo em nova tentativa de conciliação realizada à tarde no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região. A inflexibilidade da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) foi a marca do fracasso na tentativa extraordinária de acordo para encerrar a greve iniciada na véspera. Audiência convocada a pedido do Sindicato dos Metroviários não conseguiu avançar na questão central, a respeito do índice de reajuste salarial a ser aplicado este ano. A falta de consenso foi criticada pelo desembargador Rafael Pugliese Ribeiro, da Seção Especializada em Dissídio Coletivo, relator das ações relativas à greve iniciada na quinta-feira. O TRT julgará o dissídio excepcionalmente neste domingo (8), às 10h. Amanhã, às 17h, os trabalhadores farão nova assembleia.

"Nós estamos nos esforçando na negociação, aceitamos reduzir o reajuste, que não é algo que fazemos com agrado. Esperamos que a companhia também se esforce", disse o presidente do sindicato, Altino de Melo Prazeres Junior. "Queríamos ter resolvido o problema. A empresa enviou cartas de ameaça de demissão aos trabalhadores, o secretário apareceu na TV dizendo que ia demitir trabalhadores e isso não ajuda, só tensiona mais a negociação." Os metroviários disseram aceitar reduzir a proposta de reajuste defendida na véspera, de 12,2%, desde que a companhia se dispusesse a elaborar planos de carreira de para seguranças e oficiais de manutenção. Na visão dos representantes da categoria, essa mudança não traria custo econômico para a empresa e seria suficiente para encerrar a paralisação.

Os advogados do Metrô, porém, mantiveram a postura da negociação realizada no dia anterior no TRT, dizendo que o máximo a que se pode chegar de reajuste é 8,7%. O presidente da empresa,  Luiz Pacheco, aproveitou para criticar a postura dos metroviários, que hoje pela manhã organizaram um piquete no pátio da estação Ana Rosa, na Vila Mariana, zona sul. Ele afirmou que este tipo de atuação visa a “denegrir” a imagem da companhia e se disse forçado a chamar a Polícia Militar, que atuou com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. "O Metrô não tem capacidade financeira para ir além das propostas já apresentadas", disse. "O Metrô tem acordo com o governo de que ele deve ser autossuficiente."

A postura mantida pelo representante patronal foi criticada pelo desembargador Rafael Pugliese, que afirmou durante a audiência que apenas os metroviários estavam dispostos a negociar. Ele apresentou proposta de reajuste de 9,5% e fez a ponderação de que o 0,8 ponto percentual de diferença para a proposta oficial não justifica o impasse criado em torno da greve. “Se o Metrô espera que indo a dissídio vai ter vantagem, fique sabendo que o dissídio não vai agradar a ninguém.”

Durante a assembleia realizada à noite na sede da entidade, no Tatuapé, zona leste, Altino pediu apoio das centrais sindicais e movimentos sociais contra o "grandão amarrado nas multinacionais", referência a Alckmin. Ele também lembrou do início das manifestações em 2013, que hoje completaram um ano. "Se a gente conseguir fazer isso (manter a paralisação), podemos repetir o que essa molecada fez em junho do ano passado. Se for ruim (a proposta), temos de avaliar nossas forças. Se (o governo) bater, quero que esses companheiros levantem suas categorias e façam um dia de greve em São Paulo. Quero ver se ele (Alckmin) vai ser gigante com bancários, metalúrgicos e com a gente junto. Vamos pedir apoio dos rodoviários, dos aeroviários, e vai estar na boca da Copa. Gosto do Neymar, porque ele é do Santos. Agora, mais do que Neymar, tem nossa vida, nossa dignidade."

Julgamento

No julgamento, além de avaliar se há abuso no exercício da greve, será avaliado o cumprimento de liminar expedida na quarta-feira pela vice-presidente judicial do TRT, desembargadora Rilma Aparecida Hemetério, determinando 100% da prestação de serviço no horário do pico (das 6h às 9h e das 16h às 19h) e 70% nos demais. Ontem, durante audiência, Rilma disse que os metroviários estavam descumprindo o determinado, ficando sujeitos a multa de R$ 100 mil por dia.

Depois de o Metrô rejeitar a proposta do desembargador por um reajuste de 9,5%, o Ministério Público do Trabalho sugeriu um índice de 9,2%, o que também foi rechaçado pela empresa. "Nosso diálogo está entre 8,8% e 9,2% do MPT, ou seja, estamos falando de 0,4. Considerem que essa é a distância que separa da conciliação", apelou o desembargador, que voltou a cobrar uma postura mais aberta da companhia após um intervalo para que as partes pensassem em um acordo.

Ele chegou a fazer dois intervalos para garantir que o Metrô pudesse consultar o secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, em nome da gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB), mas em momento algum houve sinais de abertura a uma proposta. Pugliese fez uma última sugestão de que as partes fechassem um reajuste de 9%, o que foi aceito pelos metroviários, com a condição de passar pela assembleia de trabalhadores, mas rejeitado pela empresa.

Na véspera, a estatal paulista também rejeitou a proposta dos metroviários de garantir um dia de catraca liberada para a população. O sindicato chegou a informar que a categoria aceitava o desconto de um dia de trabalho na folha salarial como demonstração de vontade de evitar a greve, mas a ideia foi rechaçada pela empresa, que alegou não poder arcar com as perdas econômicas provocadas pelo não pagamento de bilhetes.

A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) informou que manterá no fim de semana medidas adotadas desde o início da greve, como reforço da frota. A estação Corinthians-Itaquera (Linha 11-Coral, que faz integração com a Linha 3-Vermelha do Metrô) ficará fechada no início da manhã, segundo a empresa por motivo de segurança, já que as plataformas "não comportam a demanda conjunta" das duas companhias.

A operação da Linha 7-Rubi (Luz-Francisco Morato) será estendida até a estação Brás, até as 14h de amanhã.  A integração com a Linha 4-Amarela nas estações Pinheiros e Luz vai funcionar normalmente, enquanto as integrações com o Metrô nas estações de transferência (Palmeira-Barra Funda, Brás, Tamanduateí, Santo Amaro, Tatuapé e Luz - só para a Linha 1-Azul) "ficarão fechadas até que se inicie a circulação dos trens do metrô".

Ao fim da audiência, o desembargador Pugliese afirmou que vai se esforçar para garantir o julgamento no domingo, mas as defesas de ambas as partes somam 1.500 páginas e isso pode atrasar um pouco o processo. Serão dez desembargadores no julgamento.

Para Pugliese, os dois lados vêm sendo intransigentes no processo de negociação. "São 13 cartas do Metrô ao sindicato, cinco do sindicato ao Metrô, três reuniões extrajudiciais e três reuniões no núcleo de negociações do TRT e não houve acordo. Me parece que as partes têm dificuldade na negociação", afirmou.

O presidente do Metrô reafirmou que a companhia não tem como melhorar a proposta e disse que o sindicato também não apresentou nada novo. "O Metrô chegou no seu limite. Eles também não têm um número. Nossa proposta traz bons ganhos aos trabalhadores. Nós vamos esperar a decisão da Justiça", afirmou. O Metrô vai continuar operando em contingência como nos últimos dias.

Para o presidente dos metroviários, o resultado foi frustrante e o governador está tomando a questão como pessoal. "Nós propusemos essa reunião e acreditávamos que haveria solução. Me parece que o governador está tomando a questão como uma birra pessoal". Para ele, a assembleia provavelmente deve votar pela continuidade da greve. "Infelizmente", disse Altino, que afirmou que a categoria está muito cansada pelo processo de mobilização e greve.