Ditadura e trabalhadores

Dilma já disse que prorrogará trabalhos da Comissão da Verdade, diz Rosa Cardoso

'Ela sabe que precisa', afirmou a integrante da comissão, depois de evento em São Paulo que reuniu líderes do CGT, principal entidade sindical do período Jango

CNV
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Sindicalistas dizem que a cultura de repressão aos trabalhadores se mantém e cobram punição a culpados

São Paulo – A Comissão Nacional da Verdade (CNV) espera pelo anúncio de Dilma Rousseff sobre a prorrogação dos trabalhos do colegiado, que a princípio vão até maio. “Ainda não (confirmou), mas a presidente já disse que vai prorrogar. Ela sabe que precisa”, afirmou Rosa Cardoso, integrante da CNV, ao final de ato sobre o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), principal entidade sindical no governo João Goulart, desmantelada após o golpe de 1964. Durante o evento, na sede do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, alguns dirigentes afirmaram que a “cultura policial” é a mesma desde então.

“Será que vamos continuar apanhando? Não era tempo de mudar a cultura militar? Repressão virou uma cultura”, disse o presidente estadual da CUT em São Paulo, Adi dos Santos Lima. “É preciso que haja punição aos militares, aos torturadores. É essa não punição que fez com que a tortura continue solta nas periferias das cidades, que tenhamos de perguntar onde está o Amarildo”, acrescentou o secretário-geral da CSP-Conlutas, Luiz Carlos Prates, o Mancha. Quase todos os dirigentes afirmaram que o movimento sindical segue sendo “criminalizado”, criticando autoridades policiais e do Judiciário.

Também para o ex-líder ferroviário Raphael Martinelli, um dos três remanescentes do comando do CGT, existe ainda uma “educação de bater” no meio policial. “Isso tem de acabar um dia”, afirma. Da mesma forma, para o atual presidente do Fórum de Ex-presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, muitas reivindicações daquele período, como a reforma agrária, ainda estão por serem atendidas. “O programa continua o de 1964.”

No encontro que reuniu dirigentes de hoje e de ontem, três gerações se encontraram. Os sindicalistas atuantes nos anos 1960, na era Jango e sob a ditadura, os que vieram a partir da reabertura política, já nos anos 1980, e os atuais. Na mesa, por exemplo, se viam desde Carlos Rogério Nunes, da CTB, de 47 anos, até Clodsmidt Riani, líder do CGT, com 92 anos. Estavam lá também Oswaldo Lourenço, de 88 anos, dirigente da CGTB e antigo líder portuário – que viu uma filha nascer em pleno dia do golpe e teve de fugir –, e José Calixto, presidente da Nova Central, que completará 85 anos este mês. Coincidentemente, Martinelli e Riani também fazem aniversário em outubro – completarão 89 e 93 anos, respectivamente.

A criação do CGT foi aprovada em um encontro sindical nacional realizado em agosto de 1962, em São Paulo. Era tempo de pressão por um gabinete “nacionalista” e pela volta do presidencialismo – vice de Jânio Quadros, que renunciou, Jango, vetado pelos militares, só conseguiu assumir com a aprovação às pressas do sistema parlamentarista. Em janeiro de 1963, um plebiscito decidiu pelo retorno do presidencialismo, mas o governo só duraria pouco mais de um ano.

O comando do CGT era ocupado, basicamente, por dirigentes sindicais ligados ao PCB e ao PTB, à frente das principais entidades, caso de Riani, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), e Martinelli, da Federação Nacional dos Ferroviários. Tempos de abrir e encerrar um congresso ferroviário ao som de A Internacional, como lembrou Martinelli. O terceiro remanescente daquela direção, o comandante Paulo de Mello Bastos, aeronauta, não compareceu.

“O golpe militar foi dado contra o movimento sindical e contra os trabalhadores”, diz o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, para quem algumas visões posteriores sobre o comportamento do sindicalismo ou mesmo do PCB prejudicaram um conteúdo histórico “mais abrangente”. Coordenadora do grupo de trabalho responsável pelo movimento trabalhista, Rosa Cardoso disse que a preocupação é reconstituir o golpe e seus antecedentes.

“A repressão não começou em 1964. A tarefa é complexa, mas esse grupo tem muita clareza dos pontos que está investigando. Nossa pesquisa não é só sobre a integridade das pessoas, mas sobre algo que dá sustentabilidade à classe trabalhadora. Por isso este grupo investiga o que aconteceu com os sindicatos, o conluio dos empresários com os mecanismo de repressão. O SNI, nas suas franjas, trabalhava com entidades privadas, que eram empresariais.” Segundo ela, todos os grupos de trabalho terminarão com recomendações “que são políticas”. “Esta comissão tem de ter um sentido, que é lutar por mais democracia.”

Vindo do setor eletricitário, Riani foi presidente da CNTI e deputado pelo PTB. No golpe, ele lembrou que, depois de alguns dias tentando organizar alguma resistência e proteção a dirigentes, ele voltou a Juiz de Fora, sua cidade, em 4 de abril. “Acordei meus filhos, dei a bênção e fui ao quartel-general e me apresentei, sem nenhum medo.” Defendido por Sobral Pinto, chegou a ser condenado a 17 anos, mas teve a pena reduzida posteriormente para sete anos e depois para um ano e dois meses. Contou que levou muitos “chutes no tornozelo” por ter se recusado a assinar um documento apontando Jango e Leonel Brizola como comunistas.

“Os sindicatos, federações e confederações precisam se unir cada vez mais. Igual ao que estávamos fazendo naquela época”, disse o ex-dirigente. Para ele, o sindicalismo “não é interesse pessoal, mas da classe trabalhadora, do povo”.

Um pronunciamento fora do roteiro provocou emoção no auditório. Antigo dirigente do setor de transportes, Alcídio Boano, 87 anos – que teve um pronunciamento em vídeo exibido durante o evento –, saiu da plateia e postou-se ao lado de um microfone, que estava desligado. Avisado, passou para o outro lado do palco, até que pôde falar, brevemente. “O que eu passei nas torturas do Doi-Codi não desejo a ninguém.” Contou que passou por “dez operações de vista”, a mais recente três meses atrás. “Agora estou plenamente habilitado a enxergar.” Alcídio esteve na mesma cela do jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975 pela repressão.

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