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Sergio Nobre: retomada da produção de automóveis deve vir no segundo semestre

por Michelly Cyrillo, do ABCD Maior publicado , última modificação 28/05/2012 13h01

São Bernardo do Campo – O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, em entrevista ao ABCD Maior, avaliou que de 30 a 60 dias será possível sentir os efeitos das medidas anunciadas nesta semana pelo governo federal para incentivar o setor automotivo e toda a economia brasileira. O sindicalista lembrou que a categoria já vinha alertando sobre a queda nas vendas de carros, caminhões e ônibus, e para o fato de as montadoras adotarem férias coletivas, semana reduzida de produção e licença remunerada, decisões que sinalizam para a quase estagnação no mercado. Sérgio Nobre alerta que os bancos restringiram o financiamento para a compra de veículos, eletrodomésticos e outros bens. O sindicalista analisa que as dificuldades na produção, que ocorrem desde o final do ano passado, foram provocadas pela restrição ao crédito.

Qual a opinião do Sindicato dos Metalúrgicos sobre as novas medidas anunciadas para o setor automotivo?

Sérgio Nobre –- As medidas são muito importantes e corretas, o sindicato já estava há duas semanas dizendo que era necessário adotar essas ações nesse momento, isto porque claramente o setor estava parando. Com os anúncios de férias coletivas e licenças remuneradas em importantes empresas da nossa base, esse cenário se demonstrou mais evidente e alarmante. Vale lembrar que essa situação ocorre nas grandes empresas que estão no topo da cadeia de produção e se olharmos a cadeia como o todo é ainda mais desesperador, já que quando as grandes começam a parar, imaginem o ritmo de produção das menores.

Qual é a expectativa de reflexos positivos na produção nacional e na economia brasileira. E em quanto tempo?

É importante lembrar que essas medidas não têm efeito imediato. É igual a um bolo, você mistura os ingredientes leva ao forno e espera um tempo para crescer e assar. Essas medidas carecem também de um tempo de maturação até chegar ao consumidor. A nossa esperança é que haja uma retomada no segundo semestre, e então vamos saber se as medidas são suficientes ou não. Só após 30 ou 60 dias vamos começar a sentir os efeitos. Enquanto isso, cabe a nós (sindicato) trabalharmos para manter os empregos em toda a cadeia produtiva. Manter os empregos e os salários é fundamental para gerar consumo.

Essas medidas são frutos de um diálogo do sindicato com o governo federal?

Nós reivindicamos muito essas medidas, mas não sozinhos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores também cobrou. No Conselho de Competitividade do setor automotivo do Plano Brasil Maior esse foi um dos temas mais discutidos e consenso entre todos os membros de que era necessário nesse momento o governo estimular o consumo. Além disso, também o governo apertou os bancos para liberar dinheiro, já que parte dessa retenção do consumo está ligada à redução do crédito. Os bancos aumentaram as restrições ao financiamento. De cada dez pessoas que pedem financiamento, três são aprovados. Desta maneira, a economia fica estagnada. O trabalhador não tem condições de comprar à vista, ele precisa parcelar.

Haverá retomada nas vendas de caminhões, que caíram consideravelmente neste ano?

Os caminhões são bens de capital, é como uma máquina que só vende quando há confiança na economia. A expectativa é que com um conjunto de fatores somados as essas novas medidas, a confiança na economia seja retomada. No caso dos caminhões, houve a mudança para o motor Euro 5, que é menos poluente, mas também é mais caro, o que causou certa estagnação das vendas neste início de ano. Em junho acabam os estoques do modelo anterior, o Euro 3 e a expectativa é que melhorem as vendas do novo modelo. E isso, aliado à perspectiva de um aquecimento da economia, traz a confiança necessária para investir em caminhões.

E qual é a previsão de os turnos das fábricas voltarem ao normal e evitar demissões?

Existe uma diferença entre o setor de caminhões e de automóveis sobre recuperar produção. No setor de carros, a redução do consumo está associada à restrição do crédito. Com as medidas de redução do IPI (Imposto sobre Produto Industrializado) e o compromisso dos bancos em facilitar o crédito, creio que vamos voltar a trabalhar em jornadas normais no setor de automóveis, que vinha com semana de quatro dias na produção. A tendência é recuperar muito em breve. Existe a procura pelo carro, e não vendia por conta da restrição ao crédito. O IPI é algo que traz resultados rápidos. Agora, no setor de caminhões, depende destes fatores que já citei: é uma questão de confiança na economia. Quanto mais otimista, mais rápido será o resultado. Porém, em 30 ou 60 dias é possível fazer uma breve avaliação do impacto dessas medidas. Temos que avaliar nesse período se estas ações serão suficientes para absorver os trabalhadores que estão em casa nesse momento, só na Mercedes-Benz são 1.700 metalúrgicos em licença remunerada.

Qual a expectativa de produção no ano com as novas medidas?

É manter a produção prevista, de vender cerca de três milhões de veículos. Acredito que em 30 dias, as linhas de produção irão se ajustar de acordo com o volume de vendas após as medidas. Se conseguimos restabelecer a concessão ao crédito e a confiança na economia, vamos conseguir seguir a nossa rota, resolver esse problema. A economia é um estado de espírito e as medidas trazem doses de otimismo, agora é esperar para sentir o impacto dos resultados.

Qual a diferença da atual situação com a crise de 2008?

Em 2008, a crise foi importada de outros países. E esta foi provocada pela restrição ao crédito. Por isso, o resultado positivo depende muito de como será o procedimento dos bancos, se vão liberar todo dinheiro à disposição para o financiamento de veículos. O carro é um bem caro, assim como geladeiras, televisores só podem ser comprados a prazo. E se isso não acontece, há uma estagnação do consumo. Os trabalhadores necessitam do crédito, se perdem a condição de pagar a prazo não podem consumir. Acredito que essa restrição ao financiamento seja uma reação à pressão do governo para a redução dos juros. A inadimplência que os banqueiros alegam não é tão exorbitante quando dizem. As taxas praticadas é que são um abuso ao trabalhador. Com juros menores, a taxa de inadimplência também diminui porque o trabalhador consegue honrar melhor o seu compromisso.