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Empresas esportivas que abastecerão Olimpíada desrespeitam direitos trabalhistas

Relatório denuncia salários baixos, horas extras forçadas e restrições à liberdade sindical em fábricas chinesas, filipinas e cingalesas que produzem para os Jogos Olímpicos de Londres
por Tadeu Breda, da RBA publicado 07/05/2012 13h11, última modificação 07/05/2012 14h16
Relatório denuncia salários baixos, horas extras forçadas e restrições à liberdade sindical em fábricas chinesas, filipinas e cingalesas que produzem para os Jogos Olímpicos de Londres

O relatório reconhece que houve um cuidado em fazer dos Jogos de 2012 um evento sustentável, mas advertem que os esforços falharam (Foto: Andrew Winning. Reuters)

São Paulo – Entidades do sindicalismo internacional e organizações não-governamentais publicam hoje (7) um relatório denunciando desrespeitos aos direitos humanos, trabalhistas e sindicais na cadeia produtiva de empresas que fornecerão artigos esportivos para os Jogos Olímpicos de Londres. O texto também faz recomendações para que os mesmos abusos não se repitam no Rio de Janeiro em 2016.

O documento foi elaborado a partir de 175 entrevistas com trabalhadores de dez fábricas instaladas na China, Filipinas e Sri Lanka. Oito delas está produzindo para abastecer a Olimpíada de 2012 sob licença de marcas como Adidas, New Balance, The North Face, Nike e Speedo, entre outras, cujas etiquetas luzirão nos uniformes esportivos utilizados na capital inglesa a partir de 27 de julho.

Trabalho precário, baixíssimos salários, horas extras forçadas, restrições à liberdade sindical e condições insalubres foram detectadas pela pesquisa, conduzida pelos colaboradores locais da campanha Play Fair (Jogue Limpo), iniciativa global que combate a exploração de quem trabalha na cadeia produtiva dos grandes eventos esportivos.

“As fábricas foram escolhidas ao acaso, pois não estávamos caçando empresas más”, disse Ashling Sheely, da Federação Internacional de Trabalhadores de Têxteis, Vestimentas e Couro (ITGLWF), uma das entidades envolvidas na pesquisa. “Mas descobrimos que nenhuma fábrica paga sequer o salário mínimo a seus trabalhadores. Nenhuma possuía sindicatos, embora tenham tentado organizar-se no passado. A maioria dos empregadores se utiliza de trabalho precário para fugir das obrigações trabalhistas.”


Competição sustentável

Ashling explica que a campanha Play Fair resolveu monitorar as condições de trabalho nos países asiáticos principalmente porque o Comitê Organizador de Londres 2012 propagandeia que realizará os Jogos Olímpicos mais sustentáveis da história. De fato, as autoridades londrinas submeteram-se a um código de ética inédito, que previa respeito integral ao meio ambiente e aos direitos humanos e trabalhistas durante a produção dos Jogos. Esse, aliás, foi um dos motivos que pesaram na escolha de Londres para sediá-los.

“Porém, o Comitê falhou em conscientizar os trabalhadores sobre seus direitos na maioria dos países que produzem para os Jogos”, critica Ashling. “Apenas quando fizemos as primeiras denúncias, em fevereiro, é que decidiram treinar os trabalhadores — mas apenas no Reino Unido e na China. No Sri Lanka e nas Filipinas, eles simplesmente não conheciam seus direitos. Portanto, não podem exigir que sejam respeitados. Até porque os sindicatos não estão permitidos.”

A campanha Play Fair exige que os trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva dos Jogos Olímpicos devem receber salários dignos e exercer suas funções em ambientes que respeitem integralmente seus direitos. “Queremos que os mesmos ideais olímpicos de ética e respeito se apliquem aos trabalhadores”, esclarece Ashling. “Convocamos as marcas mencionadas no relatório — Adidas, Nike, Speedo, New Balance — a dialogar com os sindicatos e combater as violações.”

De olho no Rio

Para que os abusos não se repitam na próxima Olimpíada, que ocorrerá no Brasil, a campanha Play Fair elaborou algumas recomendações ao Comitê Organizador do Rio 2016. ONGs e sindicatos internacionais esperam que as autoridades brasileiras usem sua influência sobre as empresas nacionais e estrangeiras para que observem os direitos dos trabalhadores e exijam a divulgação dos locais de produção, dentro e fora do país, como condição contratual de patrocínio, licenciamento e comercialização.

“Junto com as centrais sindicais, vamos apresentar esses estudos ao Comitê Organizador do Rio 2016 e às autoridades brasileiras para exigir respostas e medidas do país e evitar, assim, que novos abusos aconteçam”, anuncia Ramon Szermeta, coordenador da campanha Play Fair no Brasil. “A maioria dos abusos se relaciona com as restrições impostas pelas fábrica à atuação sindical nos locais de produção. Queremos nos antecipar a estes problemas, até porque o histórico do Brasil no setor têxtil é desfavorável, com exploração de imigrantes e casos de trabalho forçado.”

Szermeta destaca, porém, que o monitoramento dos sindicatos ainda se atém às empresas que produzem oficialmente para os megaeventos. “São as que têm mais visibilidade”, admite. “Porém, existe uma cadeia não oficial imensa, e aqui o desafio de garantir o respeito aos direitos trabalhistas é ainda maior.”