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Mercado de trabalho choca quem está a procura de emprego, diz socióloga

Pesquisadora identificou os motivos que levam as pessoas a desistirem de procurar emprego
por suzanavier publicado 09/11/2009 13h18, última modificação 09/11/2009 16h34
Pesquisadora identificou os motivos que levam as pessoas a desistirem de procurar emprego

Desalento está relacionado com esperança ou desesperança, define socióloga (Foto: Glenda Otero/Sxc.hu)

José desistiu de procurar emprego porque não compreendia as novas exigências do mercado de trabalho. Sueli preferiu voltar a estudar e se preparar melhor. Mário estudava para encontrar um bom emprego, mas também desistiu da procura, por não se conformar com a precariedade dos trabalhos oferecidos. Cada um a seu modo, José, Sueli e Mário representam 1,1% dos desempregados brasileiros que desistem de procurar emprego. As histórias dessas três pessoas subsidiaram uma pesquisa sobre desemprego por desalento, da socióloga Fabiana Jardim.

Fabiana foi a campo, no Centro de Solidariedade de Osasco (SP), entre 2002 e 2003, e encontrou sete pessoas que haviam passado pela condição de desemprego por desalento. “Isso acontece quando as pessoas estão desempregadas há 12 meses e desistem de procurar emprego por 30 dias. Elas têm vontade e disponibilidade de trabalhar imediatamente, mas por inúmeros motivos desanimaram, desistiram”, esclarece a socióloga.

Ao analisar a trajetória de vida das sete pessoas, Fabiana procurou identificar motivos que levaram um homem adulto, duas mulheres e quatro jovens a abandonar os esforços por um novo trabalho. “Vivíamos um momento específico de crise, de mudanças profundas, de reestruturação do mercado de trabalho, de processos de terceirização e desindustrialização”, contextualiza. O momento também era de altas taxas de desemprego. “Todos esses fatores criaram um cenário muito propício ao desalento”.

Em 2003, o desemprego por desalento respondia por 2% do total de desempregados. Segundo a pesquisadora, apesar da necessidade de emprego, as mudanças no mercado de trabalho deixaram as pessoas tão perplexas que preferiram desistir da busca por um emprego formal. “As pessoas expressavam um sentimento de choque, estranhamento e perplexidade”, pontua.

O desalento, conforme constatou Fabiana, tem muitas faces, principalmente numa época de crise e transformações econômicas. “Era muito diferente de hoje. Falava-se em fim do mundo, fim do emprego, fim do estado de bem-estar”.

Desalento e trabalho precário

A taxa total de desemprego é medida pelo número de pessoas em situação de desemprego aberto e de desemprego oculto. Este último se subdivide em:  trabalho precário e desemprego por desalento.

De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) divulgada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos SocioEconomicos (Dieese) e Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), em setembro de 2009, 1,48 milhão de pessoas estavam desempregadas na região metropolitana de São Paulo.

Pelos cálculos da pesquisadora Fabiana Jardim, 119 mil pessoas pessoas estavam em situação de desemprego por desalento – 1,1% do total. Em 2003, o percentual era de 2%.

Os homens adultos chegaram ao desalento por não compreenderem as novas regras do jogo. Os mais velhos demonstravam muito ressentimento em procurar emprego via agências.  José, por exemplo, como a maior parte dos homens que entrou no mercado de trabalho nos anos 1970, não conseguia mais entender a dinâmica do emprego. “Para homens desempregados e com mais de 40 anos é uma grande angústia ir a agência de emprego”, cita.

Para os jovens, o desalento assume a forma de precarização. No caso de Mário, um jovem com ensino médio, a desistência tinha ares de revolta. “Eles reclamam que têm escolaridade, têm segundo grau completo, têm cursos de qualificação. Mas manifestam desânimo ou raiva porque, mesmo com essa qualificação, não conseguem trabalho. É como se seguissem à risca as regras do jogo, mas fossem trapaceados por um sistema irracional, aleatório, dependente da sorte”, argumenta a pesquisadora.

Entretanto, a face mais comum do desalento, diagnosticado pela socióloga, era a descrença em si mesmo. “Era comum ouvir as pessoas dizendo 'só por Deus', 'só por um milagre'”, aponta.

Menos desalento

Embora a pesquisa de Fabiana seja baseada na realidade encontrada em 2003, a pesquisadora fez uma breve análise sobre o desalento em 2009 para a Rede Brasil Atual.

De 2% em 2003, a taxa de desalento caiu para 1,1% em 2009. “O desalento tem a ver com esperança e desesperança. Hoje, apesar da crise econômica mundial,  a situação é melhor”, analisa.

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