Diário do Bolso

Diário, tem uma voz de 100 mil na minha cabeça. Será que é um sinal?

Ontem me aconteceu uma coisa muito estranha, não conseguia nem respirar. Pô, só se fala nesse negócio de 100 mil

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Números da doença são passíveis de ampla subnotificação. O Brasil é um dos países que menos testa no mundo

Diário, eu nem consigo respirar direito. Acabou de acontecer uma coisa muito estranha. Foi assim:

Ainda estava escuro, mas eu já tinha acordado. Então uma voz disse:

– Tem dois tipos de políticos ruins: o idiota e o canalha. Você é os dois.

– Quem falou isso aí?

– Eu. O cem mil.

– Cem mil? Você é um dos mortos? Um fantasma? Uma alma penada?

– Chame como quiser.

– Pô, a culpa não foi minha. O STF disse que os governadores e prefeitos é que são responsáveis pela coisa toda.

– Mentira! O STF determinou que as medidas restritivas eram de responsabilidade de cidades e municípios. Mas, mesmo assim, você podia ter feito muita coisa.

– Tipo o quê, pô?

– Tipo um gabinete de emergência com cientistas e sanitaristas, tipo uma estratégia nacional de combate à covid, tipo usar o dinheiro reservado para a crise. Ou, pelo menos, podia não ter feito nada.

– Foi o que eu tentei!

– Mentira! Você fez de tudo para atrapalhar. Disse que máscara era frescura, fez questão de passear nos fins de semana e dar mau exemplo para o país inteiro. Falou que a cloroquina é uma cura e não é. Demitiu ministros que entendem do assunto, encheu o Ministério da Saúde de militares que não entendem nada. Pediu que o comércio reabrisse e as pessoas voltassem a circular…

– O remédio não pode ser pior que a doença.

– Você repetiu essa besteira um monte de vezes. Mas a verdade é que você não deixou a gente “tomar o remédio”, porque ficou forçando o fim da quarentena. Você sabotou o isolamento! Tanto que disse: “a vida tem que voltar ao normal, morram quantos tiverem de morrer”.

– Não tenho culpa. O Osmar Terra me garantiu que iam morrer menos de oitocentas pessoas. E o Olavo falou que no planeta inteiro não tinha uma única morte causada por covid.

– Quem acredita nesses dois é idiota ou canalha. Você é os dois. Pegou essa mentira e ficou repetindo sem parar. Disse que a pandemia era “fantasia”, “histeria”, “só uma gripezinha”, que não podia ter “medinho” e que ela já estava “indo embora”.

– Fazer o quê? Lamento muito.

– Mentira! Não lamenta nada! Quando chegamos a cinco mil mortes, você perguntou “E daí?”. E, quando chegamos em dez mil, você foi passear de jet-ski.

– Vamos tocar a vida!

– Foi o que você falou na sua live de quinta. Era só isso o que eu e os outros cem mil queríamos. Mas, hoje, quantos filhos não estarão sem os seus pais por sua culpa? E o meu filho? E a minha filha? Você faz ideia da dor que eles estão sentindo agora? Tem ideia da tristeza deles. Não tem. E sabe por quê? Porque você é idiota e canalha.

Aí o ar ficou frio e senti uma coisa me apertando a garganta. Então me levantei correndo e vim escrever isso aqui.

Não sei, não, Diário, mas sinto que isso foi um sinal. Até me fez tomar uma atitude: vou suspender o passeio de jet-ski.

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