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#ChegaDeAgrotóxicos

Inseticidas domésticos: terríveis contra os insetos. E contra os humanos também

Pesquisas recentes mostram que agrotóxicos usados como inseticidas domésticos não são inofensivos como diz a propaganda: além de intoxicações, podem causar leucemia, autismo e muitos outros males graves
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 12/07/2018 14h07, última modificação 13/07/2018 18h22
Pesquisas recentes mostram que agrotóxicos usados como inseticidas domésticos não são inofensivos como diz a propaganda: além de intoxicações, podem causar leucemia, autismo e muitos outros males graves
Rogério Cassimiro/Folhapress
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A maioria dos produtos omitem a maior parte dos componentes, tão tóxicos como o princípio ativo

São Paulo – Com slogans como "terrível contra os insetos", "defenda sua casa" e promessas de "proteção prolongada", os agrotóxicos usados como inseticidas domésticos exterminam ratos, baratas, moscas, mosquitos, formigas. Mas também fazem um mal danado para a saúde das pessoas de todas as idades. Isso porque o princípio ativo da maioria desses produtos – os piretróides – não são tão inofensivos como se acreditava há mais de 20 anos, quando passaram a ser utilizados. 

Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz (Sinitox/Fiocruz) mostram que de 2008 a 2012 foram registrados 12.617 casos de intoxicação por piretróides, em sua maioria de crianças menores de 4 anos. São reações alérgicas, como dermatites, asma, rinite, parestesias (sensações de queima, picada, coceira, formigamento, dormência), dor de cabeça, fadiga, salivação, náusea e vômito, tremor, diarreia, irritabilidade e desmaios.

Os problemas, porém, vão muito além. A exposição crônica está associada a diversos distúrbios graves. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Teerã, no Irã, publicaram estudo na revista Archives of Toxicology, um periódico médico criado em 1930 e que atualmente pertence ao mesmo grupo da prestigiada revista Nature. Eles identificaram aumento da incidência do distúrbio do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo e atraso no desenvolvimento infantil. Em adultos, encontraram risco aumentado para o desenvolvimento de leucemia, esclerose lateral amiotrófica, diabetes e alterações no sistema reprodutivo, com diminuição na contagem e na mobilidade de espermatozoides.

Outra pesquisa publicada ano passado, por pesquisadores das universidades estaduais de Nova York e da Pennsylvania, ambas nos Estados Unidos, mostram dados igualmente preocupantes: nas cidades em que esses inseticidas são pulverizados no combate a mosquitos transmissores do vírus Zika e outras doenças, há aumento na prevalência de atraso no neurodesenvolvimento infantil, prejudicando o aprendizado. O dado confirma aqueles obtidos em 2015 por cientistas da Universidade de Rennes, na França, que estudaram os efeitos da exposição infantil a essas substâncias.

Como os piretroides atravessam a placenta, põem em risco também os fetos. Em 2013, pesquisadores do Departamento de Neurologia do Hospital Central em Jiaozuo, na China, constataram efeitos negativos da exposição de gestantes sobre o desenvolvimento neurológico e mental dos bebês. 

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As informações foram reunidas pelos professores do Departamento de Ciências Naturais e Sociais do Campus de Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sonia Corina Hess e Cristian Soldi, autores do capítulo sobre os riscos associados aos pesticidas domésticos piretróides do livro Ensaios sobre Poluição e Doenças no Brasil (Outras Expressões). A versão em PDF já está disponível para acesso gratuito (clique aqui). A versão impressa logo estará à venda, na editora, ao preço de R$ 40. 

Ensaios reúne 15 capítulos sobre temas como nanotecnologia, transgênicos, aditivos alimentares e câncer, entre outros.

Efeito tóxico prolongado

Os dados coletados por Sonia e Cristian demonstram que a concentração dos piretróides permanecem no ambiente por até 17 horas após o desligamento do vaporizador elétrico de inseticidas. E que, em caso de produtos em aerossol, pulverizado por apenas dois segundos, o princípio ativo pode ser encontrado no chão e sobre móveis em quantidades significativas horas depois, suficientes para elevar os riscos de intoxicação em seres humanos. Como passam a maior parte do tempo brincando no chão, e levam as mãos com frequência à boca, as crianças são mais vulneráveis à intoxicação.

Conforme Sonia e Cristian, entre os piretroides mais utilizados está a cipermetrina, produzido pela Syngenta. Eles lembram que a própria ficha de segurança da substância fornecida pelo fabricante informa se tratar de "um material mutagênico, que pode causar efeitos no sistema reprodutivo, na fertilidade e na saúde de fetos e bebês em lactação; a exposição a esta substância pode, ainda, ocasionar sonolência, convulsões, tremores, contrações musculares, efeitos nas glândulas salivares e no sistema motor; aumento no volume de urina, proteinúria e decréscimo da resposta imune". 

Por isso os autores defendem que a autorização de uso da cipermetrina no país deveria ser reavaliada. No entanto, este princípio ativo não consta da lista de agrotóxicos em processo de reavaliação de uso no Brasil.

E mais: que a regulação de inseticidas domésticos contendo princípios ativos piretróides seja revista no país e que sejam proibidas propagandas que estimulem o uso.