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Uísque e destilados geram mais dificuldade para largar bebida, aponta estudo

A pesquisa da Faculdade de Medicina da USP demonstra, pela primeira vez, que preferência está associada a recaídas e menor aderência ao tratamento
por Cida de Oliveira publicado , última modificação 24/09/2009 13h50
A pesquisa da Faculdade de Medicina da USP demonstra, pela primeira vez, que preferência está associada a recaídas e menor aderência ao tratamento

Consumidores de cerveja apresentaram mais aderência ao tratamento, resultado que contradiz estudos anteriores (Foto: Alexandre Jaeger Vendruscolo/Scx.hu)

Bebedores de uísque, cachaça, vodca e outras bebidas alcoólicas destiladas têm maior dependência alcoólica, mais recaídas e menor aderência ao tratamento para parar de beber. A conclusão é de um estudo da Faculdade de Medicina da USP, que comparou os consumidores de diferentes drinques.

Segundo os autores do estudo, é a primeira vez no mundo que uma pesquisa relaciona a preferência por uma bebida à dificuldade que o alcoolista tem para seguir as recomendações médicas e o número de abandonos.

A maior dependência, no entanto, já era conhecida. A grande quantidade de açúcar presente nos destilados faz com que eles sejam absorvidos mais depressa que os fermentados, como cerveja e vinho. Quanto mais rápida a absorção, maior o potencial de gerar dependência.

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Coordenador da pesquisa, o psiquiatra Danilo Baltieri trata alcoolistas há 12 anos. Ele diz  que as constatações resultam de testes clínicos para dois tipos de medicamentos que envolveu 100 consumidores de destilados e 53 que preferem beber cerveja. “Os que bebiam destilados aderiram menos aos tratamentos, independente do remédio usado”, explica o psiquiatra.

A dependência também era mais grave, com maiores prejuízos físico, psicológico e social,  além da maior "fissura" por beber. "Já os que preferiam cerveja ficavam mais tempo longe da bebida e sofriam menos com isso”. Segundo ele, estudos anteriores verificaram maior fissura em bebedores de cerveja.

Voluntários
O Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (PRO-Grea), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo recruta alcoolistas voluntários que queiram receber tratamento e participar de pesquisas. Além do álcool, os interessados só podem estar viciados em cigarro. Mais informações pelo telefone (11) 3069-6960.

Segundo estimativas feitas em 2005 por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 12,3% da população brasileira das grandes cidades é dependente de álcool. Isto é, bebe mais do que pretendia beber, perde interesse por outros assuntos, consome progressivamente maiores doses de bebida e pode sofrer crises de abstinência.

Atualmente, os médicos não tratam de forma diferenciada quem bebe cerveja ou destilados.  A idéia de separar, durante o tratamento, grupos de acordo com as bebidas que mais consomem é nova, originada de pesquisas dos últimos cinco anos.

Recaídas

Para o psiquiatra, é possível que recaídas anteriores desanimem os bebedores de destilados a seguir o tratamento até o fim. Se isso for verdade, os médicos devem analisar com mais profundidade o comportamento desses pacientes e trabalhar para ajudá-los a prevenir esse risco. “Eles podem auxiliar o alcoolista a mudar seu estilo de vida, a encontrar novos prazeres e estabelecer novas redes de relacionamento.

Há consenso entre os especialistas que a associação de terapia psicológica com remédios é a melhor maneira de tratar quem tem problemas com álcool. Baltieri explica que tanto dependentes de álcool que preferem cerveja quanto aqueles que preferem destilados têm chance de se recuperar. “O sucesso do tratamento depende da família, da pessoa e da proposta de tratamento, que deve ser individualizada”.

Segundo ele, cabe ao especialista mostrar ao dependente a responsabilidade pelo seu próprio comportamento, assim como incentivá-lo a superar recaídas e investir no lado saudável que ainda existe. “Provavelmente o álcool tenha consumido progressivamente este 'lado saudável', mas sempre resta algum ainda gritando por sobrevivência”, ressalta.

A pesquisa foi realizada com voluntários inscritos no setor de assistência do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (PRO-Grea), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo. No momento, o grupo está recrutando alcoolistas que queiram receber tratamento e participar de pesquisas. Além do álcool, os interessados só podem estar viciados em cigarro. Mais informações pelo telefone (11) 3069-6960.

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