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Impactos da nanotecnologia na saúde dos trabalhadores e no meio ambiente preocupam especialistas

De todos os recursos investidos em pesquisas de novos produtos e aplicações, menos de 10% é usado para avaliar seus efeitos nocivos
por Cida de Oliveira publicado 11/09/2009 18h45, última modificação 11/09/2009 18h45
De todos os recursos investidos em pesquisas de novos produtos e aplicações, menos de 10% é usado para avaliar seus efeitos nocivos

São Paulo - Pesquisadores da área de saúde do trabalhador estão preocupados com os impactos que a nanotecnologia pode gerar sobre a saúde humana e ambiental. Também conhecida como tecnologia em nanoescala, a nanotecnologia é um termo abrangente, que engloba diversas áreas de pesquisa e de manipulação de materiais minúsculos, invisíveis a olho nu, medidos em nanômetros – uma unidade de medida que corresponde à bilionésima parte de um metro.

Em 2007, em vários países, principalmente nos mais ricos, já havia 1.300 empresas, de 76, fazendo pesquisas para aplicação em eletrônica, engenharia, máquinas, vestuário, defesa, veículos, agricultura, alimentação, medicina, odontologia e cosméticos, entre outros.

Não há dúvida de que toda essa tecnologia traz muitos benefícios. Afinal, estamos falando de instrumentos médicos e farmacêuticos como bandagens capazes de impedir a respiração das células dos micróbios ou biomembranas que induzem a formação de novos vasos sanguíneos e tecidos na superfície onde é aplicada. Ou mesmo de aparelhos de tevê que podem ser dobrados e colocados no bolso, celulares que conjugam telefone, e-mail, câmera fotográfica e muitas outras utilidades. 

Incrível e invisível

Para ter uma ideia da diminuta dimensão de 1 namômetro (nm), ou 1 bilionésima parte de 1 metro, ou 1 milionésima parte de 1 milímetro, pense que:

  • A espessura (diâmetro) de um fio de cabelo é de cerca de 80.000 a 100.000 nanômetros;
  • Bactérias têm tamanho de alguns mil nanômetros;
  • Um glóbulo vermelho do sangue tem cerca de 5.000 a 7.000 namômetro;
  • Os vírus – os menores seres vivos – têm diâmetros que variam entre algumas dezenas de nm até 200 nm;
  • Uma molécula de DNA (que carrega o código genético) tem cerca de 2 nm de largura;
  • 10 átomos de hidrogênio, um ao lado do outro, têm tamanho de 1 nm

O problema é que não há estudos sobre os impactos dessas nanopartículas à saúde e ao meio ambiente. Faltam ainda instrumentos e modelos para avaliar tanto a exposição como o impacto ao longo de seu ciclo de vida. Ninguém sabe nada. Nem médicos, nem cientistas. “De tudo que se gasta em pesquisas de novos nanoprodutos, em todo o mundo, nem 10% é destinado à pesquisa de impacto”, afirma a química Arline Arcuri, pesquisadora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego.

No final de agosto, ela esteve num evento sobre o tema promovido pela Organização Mundial da Saúde em Helsinque, capital da Finlândia, onde apresentou a cartilha Nanotecnologia – o transporte para um novo universo, material produzido em forma de história em quadrinhos que será lançado no próximo dia 22 de setembro, em São Paulo, e o projeto Impactos da Nanotecnologia na Saúde dos Trabalhadores e Meio Ambiente, que tem a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre outras.

A cartilha, destinada ao público trabalhador, conta com apoio do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP, da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio ambiente (Renanossoma), do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat) e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entre outros. O lançamento será durante um seminário que reunirá trabalhadores, sindicalistas, empresários, profissionais de segurança e saúde do trabalhador, professores e estudantes.

Já o projeto visa estudar os efeitos sobre as pessoas e o meio ambiente. Iniciado há quase dois anos, encontra-se agora na etapa de mapear empresas, universidades e centros de pesquisas que atuam no setor, bem como os pesquisadores ou trabalhadores diretamente envolvidos com a manipulação de nanopartículas.

“Precisamos gerar conhecimento sobre esse que é considerado o fato mais importante desde a Revolução Industrial mas que, ao mesmo tempo, pode ser uma ameaça”, diz Arline. Segundo ela, o ideal é que todas as pessoas expostas sejam identificadas, submetidas a um exame minucioso e acompanhadas periodicamente. Assim será possível conhecer um pouco do impacto à saúde.

Em agosto, pela primeira vez, foram publicados resultados de uma pesquisa com humanos expostos a nanopartículas. O estudo, feito na China, relatou que sete moças chinesas sofreram danos pulmonares permanentes e duas delas morreram após trabalharem por meses sem proteção numa fábrica de tintas que usa a tecnologia. No entanto, vários estudos já constataram danos pulmonares em ratos de laboratórios expostos às nanopartículas.

Eles estão em toda a parte

Com nanotecnologias, já estão à venda ou será possível fabricar, entre
inúmeras outras coisas, aditivos e suplementos alimentares, vitaminas, bandagens antimicrobianas (que impedem a respiração das células dos micróbios), baterias, biocidas para uso médico e farmacêutico, biomembrana (induz a formação de novos vasos sanguíneos e de novos tecidos na superfície sobre a qual é aplicada - Biocure®, bolas de tênis que impedem a saída de ar (Wilson Double Core), borracha natural com nanopartículas, cartões de memória de câmeras digitais e de celulares, cosméticos de penetração profunda, desinfetantes e limpadores de água de piscina (gotas de óleo misturadas a um bactericida), embalagens “inteligentes” para alimentos, materiais de construção, materiais de uso médico (cateteres, válvulas cardíacas, marca-passo, implantes ortopédicos, etc), materiais para a indústria automobilística e aeronáutica, medicamentos com liberação lenta e precisa, materiais odontológicos, nanocolas que grudam qualquer material a um outro, películas anticorrosão em metais, películas resistentes a riscos (usadas desde vidros de carro até lentes de óculos), pendrives, pneus, raquetes de tênis mais leves e mais resistentes do que o aço (Babolat), roupas (com película para proteger de raios UV, ou cobertas de ‘fiapos’ que ajudam a repelir água ou outros materiais tornando o tecido resistente a manchas, ou que não amassam), suplementos alimentares, tintas e vernizes antimofo e/ou resistentes a riscos e arranhões, têxteis, tocadores de MP3, vidros autolimpantes (capazes de eliminar sozinhos a poeira que cai sobre eles).

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