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Descoberta há 100 anos, mal de Chagas continua negligenciado por laboratórios

Cerca de 3 milhões de brasileiros têm a doença sem saber. A maior concentração de infectados no país está em Minas Gerais e nos estados da região nordeste. Médicos Sem Fronteiras defendem mais investimento em diagnóstico e tratamento
por Rodrigo Rodrigues, Jornal Brasil Atual publicado , última modificação 10/07/2009 16h25
Cerca de 3 milhões de brasileiros têm a doença sem saber. A maior concentração de infectados no país está em Minas Gerais e nos estados da região nordeste. Médicos Sem Fronteiras defendem mais investimento em diagnóstico e tratamento

Besouro conhecido como barbeiro é vetor do "Trypanossoma cruzi", parasita causador do mal de Chagas. Brasil está livre de novas contaminações, mas pessoas não sabem que têm a doença (Foto: fundep.ufmg.br)

A ONG Internacional Médicos Sem Fronteira lançou na quinta-feira (9) uma campanha mundial em favor do diagnóstico do mal de Chagas. A doença transmita pelo barbeiro foi descoberta há exatos cem anos pelo médico brasileiro Carlos Ribeiro Chagas.

Entretanto, um século depois da descoberta, a entidade denuncia que existem apenas dois remédios no mundo para o tratamento da enfermidade, como conta o médico Davi de Souza. “A doença de Chagas compartilha do problema de outras doenças negligenciadas, como por exemplo a malária, a leishmaniose, a tuberculose, que acometem principalmente a população mais pobre”, lamenta.

Por não representarem um mercado interessante para a produção de medicamentos, já que não têm recursos para arcar com compras de remédio. De 1977 a 1999, das 1.390 novas drogas descobertas, menos de 1% eram para doenças tropicais.

“É um problema global”, critica Davi de Souza. “É impressionante que, depois de 100 anos, há apenas duas medicações com efeitos colaterais potencialmente graves para tratar os pacientes.

O levantamento da ONG revela que pelo menos três milhões de brasileiros sofrem com o mal de Chagas. Em 1996, o país foi considerado livre de novos casos, por conseguir controlar e alertar a população sobre a transmissão.

O representante dos Médicos Sem Fronteira também diz que muitos médicos no Brasil e no mundo saem da faculdade sem conhecer o diagnóstico correto do mal. 

Mal silencioso

Porém, o médico Davi de Souza diz que muitos pacientes não sabem que são portadores da doença. “O problema é que temos no país milhões de pessoas que, antes de a eliminação acontecer, foram infectadas. Muitas delas não sabem nem que são doentes, e vão adoecer anos depois porque o Trypanossoma vai agindo silenciosamente no organismo e vão abrir quadro com problema cardíaco em um momento em que é muito difícil de tratar”, explica.

Na campanha “Doença de Chagas: é hora de romper o silêncio”, a entidade pede investimentos para identificação dos pacientes infectados: “É preciso, para o futuro, realmente um investimento corajoso na pesquisa de novos medicamentos e de novas técnicas diagnósticas que permitam fazer o diagnóstico da doença de Chagas rapidamente e tratá-la com drogas eficientes, de baixo custo, que possam ter respostas boas”, avisa.

Mais rapidamente, o ativista defende a busca dos pacientes que estão infectados mas não sabem. “Neste momento, milhões de pessoas não sabem sua condição e que podem até morrer sem ter o direito de saber seu próprio diagnóstico.”

De acordo com o médico Davi de Souza, 70% dos brasileiros portadores do mal de Chagas migraram para as áreas urbanas do país.  Segundo o representante da ONG Médicos sem Fronteira, a maior concentração de infectados no país está em Minas Gerais e nos estados da região nordeste.

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