Morra quem morrer

Doria ignora índices ‘de emergência’ da pandemia e mantém fase de transição ‘verde’ em São Paulo

Praticamente sem restrições na fase de transição, SP tem hoje 18% mais pacientes em UTI com covid-19 do que quando Doria decretou a fase emergencial

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Fase de transição de Doria abandona ações para evitar proliferação da doença e resultado será mais mortes em São Paulo

São Paulo – “Uma medida de cautela, de proteção, para proteger a vida das pessoas”. Assim o governador paulista, João Doria (PSDB), justificou a prorrogação da atual fase de transição da quarentena no estado até próximo dia 30. O discurso, no entanto, esconde que hoje a pandemia está descontrolada e mais grave do que quando o governo Doria decretou a fase emergencial, a mais restrita da quarentena até agora, em 11 de março. E que, na prática, a fase de transição se tornou uma “nova fase verde” do Plano São Paulo, com funcionamento de todo o comércio e os serviços, sem limite real de ocupação dos estabelecimentos, apenas com limite de funcionamento até as 21h.

Quando a fase emergencial foi decretada, havia 21.731 pessoas internadas com covid-19, sendo 12.279 em enfermaria e 9.452 em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). No pico da pandemia, em 3 de abril, chegou a 31,5 mil. Depois caiu até 21,9 mil, mas desde então sobe sem parar. Até ontem (9), quando Doria prorrogou a fase de transição, já eram 25.010 pessoas internadas, 15,1% a mais do que há três meses. Nas enfermarias, são 13.786 pessoas, diferença de 12,3%. No caso das UTIs, já são 11.224, mais 18%.

Mortalidade ignorada

As taxas de ocupação de UTIs são menores hoje, mas porque o governo paulista ampliou significativamente o número de leitos. Essa gestão do número de leitos tem sido apresentada pelo governo Doria como uma demonstração de que a situação está sob controle, já que “ninguém ficou, nem ficará sem atendimento em São Paulo”, como o governador costuma repetir. O tucano ignora, porém, que a mortalidade de pacientes com covid-19 em UTI é de 55,7% na rede pública e 31,5% na rede privada. Entre pacientes intubados, as taxas pioram: 74,6%, na rede pública e 63,7%, na rede privada.

Comparação entre a média diária de internações no início da fase emergencial e atualmente

Outros números demonstram que a situação é muito mais grave hoje, com a fase de transição tendo praticamente nenhuma restrição de circulação ou funcionamento do comércio, do que era quando a fase emergencial foi decretada. A média de pacientes internados por dia era de 2.477, em 11 de março. Ontem já estava em 2.700, sendo que apenas ontem foram internadas 2.974 pessoas, o maior número desde 3 de abril. Embora o ritmo de internações atual seja menor do que o de março, o ritmo de crescimento é contínuo há 35 dias.

A média diária de mortes também segue mais elevada na fase de transição do que quando Doria decretou a fase emergencial. Em 11 de março, a média era de 330 óbitos por dia. Ontem estava em 433, mas o número caiu nos últimos dias devido à instabilidade no sistema de notificação do Ministério da Saúde. Na semana passada, estava em mais de 500 mortes por dia. A média diária de novos casos registrados também está maior: eram 11.888 por dia, em março; hoje são mais de 14 mil por dia.

Fase de transição x Plano São Paulo

Apesar de toda a gravidade da situação, o governo Doria demonstra cada dia mais que o Plano São Paulo foi abandonado. No final de abril, o coordenador-executivo do Centro de Contingência do Coronavírus, João Gabbardo, afirmou que a expectativa era que o mês de março fosse “a última vez que São Paulo tenha que ficar totalmente na fase vermelha”. Dias antes, associações empresariais publicaram em vários jornais um manifesto dizendo que não aceitariam mais medidas de restrição de circulação e funcionamento na pandemia.

Como a situação não melhorava o suficiente após duas semanas do fim da fase emergencial, o governo Doria criou a primeira fase de transição, que embora ficasse entre as fases vermelha e laranja da quarentena, era tão branda quanto a fase amarela. Com o passar das semanas, sem melhora significativa nos índices da pandemia, Doria foi afrouxando a fase de transição. Hoje ela se assemelha à fase verde do Plano São Paulo, mas com todos os índices da pandemia piores do que quando a fase emergencial foi decretada.

Enquanto na fase emergencial, houve restrição de funcionamento até para alguns serviços considerados essenciais, torneios esportivos e celebrações religiosas coletivas foram proibidas e as escolas foram fechadas, na etapa atual da fase de transição a única restrição ao funcionamento do comércio e dos serviços é o horário das 21h, quando passa a valer o toque de recolher contra aglomerações. O governo Doria apenas recomenda que a ocupação dos locais seja limitada a 40% da capacidade, mas não há qualquer punição a quem não cumprir esse percentual. Campeonatos, templos e escolas funcionam nas regras já estabelecidas.

Discurso mudou

Ontem, o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, chegou a minimizar as recomendações para que a população fique em casa, apesar da gravidade da situação. “Ainda mantemos patamares elevados, e isso faz com que o governo de São Paulo se mantenha alerta. Por isso, manter essa fase de transição por mais 14 dias é diminuir a circulação do vírus. Antes, falamos: ‘fique em casa enquanto arrumamos a saúde. Agora, falamos: ‘saiam com responsabilidade, evitem as aglomerações, usem a máscara, façam o distanciamento social’”, disse.

Na mesma linha, Gabbardo minimizou o aumento de pacientes internados com covid-19 bem acima da pior estimativa feita pelo Centro de Contingência, alegando que a situação ainda é muito distante do pico da pandemia, em abril. Em 19 de maio, Gabbardo disse que, mesmo com mais flexibilizações da quarentena, São Paulo chegaria no máximo a 13 mil pessoas em enfermarias e 11 mil pessoas em UTIs, até a próxima quarta (16). Já no dia 2, o número de pacientes em enfermarias era 13.049. E no dia 6, havia 11.114 pessoas em UTIs, superando a pior estimativa do governo Doria, com 10 dias de antecedência.

O governo tucano apostava que a vacinação contra a covid-19 fosse começar a mudar a situação a partir da metade de junho. No mesmo dia 19 de maio, Gabbardo disse que o estado ainda teria “números elevados” por 15 a 30 dias. Hoje, em entrevista à CNN Brasil, o discurso mudou: “A expectativa que nós temos é de uma redução mais importante [de internação] da população do estado ocorra a partir do momento que tivermos 75% da população vacinada. Para isso precisamos ainda de pelo menos 60 dias para obtermos esse resultado”, disse.