Imunização

O que a segunda onda de covid-19 na Índia significa para a cobertura de vacinas no mundo

A covid na Índia levou o país a redirecionar uma parte maior de sua produção para o programa doméstico de imunização, o que ameaça a vacinação em todo o mundo

Hélia Scheppa/SEI
Mesmo que toda a capacidade de produção de vacinas da Índia seja dedicada ao abastecimento doméstico nos próximos meses, a capacidade ainda pode ser insuficiente

Tradução a partir de The Conversation – Com os países ricos comprando a maioria das vacinas contra a covid-19 do mundo, o resto do planeta tem contado com a Índia – um dos maiores produtores e exportadores de imunizantes do mundo – para aumentar o acesso às doses.

Mas agora as exportações da Índia – que incluem suprimentos para a Covax, o programa global de compartilhamento de vacinas, bem como doações bilaterais e acordos comerciais sob a marca de seu programa de “Amizade da vacina” – estão sendo interrompidas. A devastadora segunda onda da Índia levou-a a redirecionar uma parte maior de sua produção para o programa doméstico de imunização. Com tantos países dependendo do abastecimento indiano, isso está ameaçando o progresso da vacinação em todo o mundo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou a capacidade de produção de vacinas da Índia como “um dos melhores bens que o mundo possui hoje”.

A Índia é um fornecedor chave da Covax. No início do ano, previa-se que a Covax entregaria 2,3 bilhões de doses para países de baixa e média renda em 2021, com mais de 1 bilhão delas produzidas pelo Serum Institute of India, o maior fabricante de imunizantes do mundo.

Das 53,9 milhões de doses compartilhadas ao redor do mundo pela Covax até 6 de maio, 19,8 milhões foram exportadas a partir da Índia, com mais 10 milhões de doses sendo fornecidas diretamente pelo país.

Mudando as prioridades

No início do ano, o CEO do Serum Institute, Adar Poonawalla, declarou que a Índia tinha mais estoque de vacinas do que poderia administrar fisicamente. Mas a segunda onda viu a posição indiana se deteriorar rapidamente – e com ela a perspectiva de o país cumprir seus compromissos com a Covax.

Em meados de março, o Serum Institute estava dedicando muito mais de sua capacidade à Índia do que o planejado originalmente.

O governo indiano afirmou repetidamente que não há proibição de exportação de vacinas contra a covid-19, mas as remessas devidas a muitos países – incluindo o Reino Unido – foram adiadas. Apenas 6 milhões de vacinas foram exportadas desde o final de março, ante 60 milhões nos dois meses anteriores.

Ao mesmo tempo, o número de doses da vacina contra a covid-19 administradas mensalmente na Índia aumentou de 3,7 milhões em janeiro para 10,1 milhões em fevereiro, 50,6 milhões em março e mais de 90 milhões em abril. Em 6 de maio, mais de 162 milhões de doses foram administradas – o terceiro maior número do mundo em termos absolutos, depois dos Estados Unidos e da China.

Tem havido um esforço claro para aumentar a vacinação à medida que a segunda onda da Índia se materializa. O programa de vacinação foi ampliado no início de maio para que todos os adultos pudessem se registrar para receber uma dose.

A farmácia do mundo está sem estoque

A segunda onda não é a única razão pela qual as exportações secaram. A crise crescente também revelou escassez crítica de produção: o aumento da demanda está sendo correspondido com a diminuição da oferta. A média de semanal de doses administradas caiu de 3,6 milhões por dia no início de abril para 1,7 milhão um mês depois.

Esse problema está crescendo desde antes da segunda onda. Em fevereiro, Poonawalla avisou que o Serum Institute não faria 1 bilhão de doses da vacina contra a covid-19 como estava previsto para este ano, mas sim 400 milhões de doses “se tivermos sorte” . Ele, portanto, lançou dúvidas sobre a capacidade da Covax de fornecer mais de 2 bilhões de doses a países ao redor do mundo até o final de 2021, sugerindo que 18 meses era um cronograma mais provável.

Mesmo que toda a capacidade de produção de vacinas da Índia seja dedicada ao abastecimento doméstico nos próximos meses, a capacidade ainda pode ser insuficiente. O Serum Institute fabricou mais de 90% das vacinas administradas na Índia até agora, mas sua produção mensal é estimada em apenas 60 milhões de doses. A meta de aumentar para 100 milhões de doses tem sido frequentemente adiada – de março para abril , maio , junho e agora, julho. O único outro fornecedor da Índia, a Bharat Biotech, tem uma capacidade mensal estimada de apenas 5 milhões de doses.

A meta da Índia em janeiro era aumentar a produção o suficiente para vacinar totalmente 300 milhões de seus habitantes até agosto. Para conseguir isso agora é necessário dar mais 440 milhões de doses, em média mais de 3,5 milhões por dia, durante os próximos quatro meses – uma tarefa difícil.

Então, o que acontece agora?

De acordo com Poonawalla, a ausência de acordos de compra antecipada de vacinas do Serum Institute desacelerou seu ritmo de produção em 2020. No entanto, tais acordos foram mais presentes em 2021. O maior até o momento foi anunciado em 19 de abril , com compras antecipadas de Rs 3.000 crore (US$ 406 milhões) para o Serum Institute e Rs 1.500 crore (US$ 203 milhões) para a Bharat Biotech. Este montante deve permitir que ambos aumentem a produção.

Outras vacinas também devem estar disponíveis no final do ano. A Sputnik V da Rússia recebeu aprovação em 13 de abril, tornando-se o terceiro imunizante com permissão para uso na Índia, com o primeiro lote importado em 1º de maio e parcerias firmadas com empresas indianas para produção local. A vacina da Johnson & Johnson poderá ser importada a partir de julho, com parceria de produção local também em vigor. Mas a vacina Novovax, cuja fabricação é do Serum Institute, possivelmente não estará disponível até setembro.

Com a Índia lutando agora apenas para atender à demanda doméstica, a perspectiva imediata de gerar exportações substanciais de vacinas parece sombria. Reconhecendo a crise doméstica indiana, o México dispensou a entrega de 870 mil doses. O Serum Institute também está emitindo reembolsos para alguns governos, está sendo processado por outros e recebeu notificação legal da AstraZeneca sobre atrasos.

O fornecimento insuficiente e atrasado da Índia – potencialmente por vários meses – será um grande revés para a Covax.

Doações recentes de 500.000 e 1 milhão de doses da França e da Suécia, respectivamente, são gotas no oceano em comparação com o fornecimento que se esperava da Índia. O novo acordo da Moderna anunciado em 3 de maio para fornecer à Covax 500 milhões de doses inclui apenas 34 milhões em 2021.

A necessidade de aumentar a produção da vacina contra a covid-19 nunca foi tão evidente. Mas enquanto isso acontece, outros países além da Índia precisam urgentemente aumentar suas doações para a Covax. A imunização pode então continuar em outro lugar enquanto a Índia luta contra sua crise doméstica – ajudando a prevenir outros países experimentando tal devastação.

Rory Horner é professor titular de Globalização e Economia Política no Global Development Institute da University of Manchester