normalizando a desgraça

Doria quer São Paulo na fase verde em junho, mesmo com 490 mortes por dia e UTIs lotadas

Doria ignora situação grave da pandemia e anuncia criação de nova fase da quarentena, mas que é praticamente igual à fase verde do Plano São Paulo

Governo de São Paulo
Com um discurso eleitoreiro, Doria deixou de lado o agravamento da pandemia para anunciar uma nova fase verde

São Paulo – O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou hoje (19) que vai criar uma nova fase da quarentena, praticamente igual à fase verde já existente no Plano São Paulo, mas entre as fases vermelha e laranja. A proposta do governo paulista é que a nova fase comece a valer em 1º de junho, em todo o estado, ignorando a atual média de 490 mortes diárias pela covid-19, o aumento das internações e de novos casos.

Será liberada a ocupação de até 60% dos espaços de todos os estabelecimentos comerciais, serviços, espaços culturais e restaurantes, com funcionamento até as 22h. Ao mesmo tempo, o tucano empurrou de vez para os municípios a decisão por estabelecer restrições de circulação e funcionamento, caso a situação se agrave.

Até o próximo dia 31, segue valendo a fase de transição, que embora fique entre as fases vermelha e laranja da quarentena, é tão branda quanto a fase amarela, com funcionamento de todos os estabelecimentos das 6h às 21h e recomendação de que a ocupação dos espaços seja de até 30% – mas sem nenhuma punição por descumprimentos dessa norma. A nova fase verde também vai ficar entre as fases vermelha e laranja, mas amplia o horário de funcionamento e duplica a ocupação máxima recomendada. Será mantido o toque de recolher, sendo válido agora das 22h às 5h.


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Para justificar a criação da nova fase verde, o governo Doria aposta que a continuidade da vacinação vai derrubar o número de casos graves, internações e mortes, em cerca de 30 dias. E já responsabiliza o comportamento da população por um eventual aumento de casos, internações e mortes. No entanto, até hoje, não houve normalização na entrega dos insumos para fabricação das vacinas, nem para o Instituto Butantan, nem para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“Estamos cientes de que estamos em patamares elevados. Mas hoje as projeções são mais baseadas no comportamento das pessoas. Se 95% delas usarem máscaras, teremos cenário otimista. Se pessoas vacinadas mantiverem os cuidados, vamos ter uma boa evolução. Até 15 ou 30 dias, vamos manter números elevados e vai começar a cair. O comportamento das pessoas é que vai determinar a velocidade da redução”, afirmou o coordenador-executivo do Centro de Contingência, João Gabbardo.

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O secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, também alega que é possível ampliar a flexibilização com a nova fase verde, porque, segundo ele, a vacinação teria impacto significativo nas próximas semanas. “Mesmo em países que avançaram na vacinação, o número de casos continua. Mas reduz-se os casos graves, internações e óbitos”, afirmou.  

Além disso, na nova fase verde, caberá aos municípios tomar a decisão de aplicar medidas mais rígidas de redução da circulação de pessoas e fechamento de comércios e serviços. Com isso, Doria retira de si o ônus de determinar as medidas, após ser fortemente pressionados por grupos empresariais que disseram que não aceitam mais restrições por conta da pandemia de covid-19.


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O governo do estado também deu uma guinada na política de testagem. No início da pandemia, Doria alegava necessidade de economizar recursos e orientava os testes apenas para casos graves. Especialistas em saúde apontaram à época que isso contribuiria para o aumento dos casos, já que essas pessoas não teriam confirmação da infecção, mas poderiam transmitir a doença. Mesmo hoje, pessoas com sintomas leves ainda encontram orientações difusas sobre a aplicação do teste.

Agora, o governo pretende aplicar testes de antígenos, que dão resultados em 15 minutos, em qualquer pessoa com suspeita de covid-19, como forma de rastrear contatos e evitar uma explosão de casos na nova fase verde. “Podendo identificar precocemente os pacientes, mesmo com sintomas muito leves, para que sejam isolados de forma precoce”, justificou Gorinchteyn. Os testes poderão ser feitos tanto no sistema público quanto na rede privada. O governo Doria vai apresentar planos de testagem para cidades com situação mais grave na próxima semana.

Após seis semanas de fase de transição, os números da pandemia estão estagnados, já apresentando pequenos aumentos, que podem piorar com a nova fase verde. O número de novos casos cresceu 11% na última semana, com média diária de quase 13 mil. É o pior número em 20 dias. Dez das 17 regiões do estado tiveram aumento do número de casos por 100 mil habitantes, e 14 estão com mais de 400 casos por 100 mil, número 300% maior do que os parâmetros mundiais para considerar que a pandemia está fora de controle.

Agravamento da pandemia

Os novos casos são o primeiro parâmetro que piora e leva depois ao aumento de internações e posterior aumento nas mortes. No caso das internações, o total de pacientes cresceu 3,23% na última semana. No dia 11 de maio, havia 21.160 pacientes internados no estado, sendo 9.981 em unidades de terapia intensiva (UTI) e 11.179 em enfermaria.

Hoje são 21.844 internados, sendo 10.159 em unidades de terapia intensiva e 11.685 em enfermaria. O número de pacientes internados por 100 mil habitantes cresceu em 15 das 17 regiões. E a taxa de ocupação de UTI está em fase vermelha em 12 regiões, sendo nove acima de 90% e três acima de 80%.

doria fase verde
Dados da pandemia mostram agravamento generalizado da situação

O único índice que apresentou redução na maioria das regiões foi o de mortes pela covid-19. No entanto, em todas as regiões, o número segue muito acima do máximo de 8 mortes por 100 mil habitantes, que é considerado um índice ruim pelo governo Doria. São Paulo registra hoje uma média de 490 mortes diárias por covid-19, número 76% acima do registrado em todo o ano passado.

Além disso, com o atual aumento de casos e internações, o número de mortes deve voltar a subir em três ou quatro semanas. Isso, inclusive, é admitido por Gabbardo. “As projeções indicam que podemos chegar a 11 mil pacientes em UTI e 600 mortes por dia. E depois o número começa a cair”, afirmou.

Vacinação em julho

Para defender a criação da nova fase verde, o governo Doria anunciou que pretende vacinar todas as pessoas com comorbidades, até o final de junho. E em julho iniciar a vacinação geral de pessoas com idades de 55 a 59 anos e profissionais da educação de 18 a 46 anos. Além dos grupos que já estão em vacinação no momento.