Necropolítica

Aliar-se ao coronavírus é o maior erro de Bolsonaro na pandemia, diz sanitarista

Para o sanitarista Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco, a situação sanitária no país seria outra sem as ações do presidente

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Bolsonaro defende medicamentos sem benefício no tratamento da covid-19, mas que que fazem mal

São Paulo – O maior erro do presidente Jair Bolsonaro na pandemia foi aliar-se ao coronavírus, avalia o médico sanitarista Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Uma opção que, segundo ele, explica as ações que estão resultando na maior crise sanitária da história do Brasil.

O país ultrapassou os 340 mil mortos por covid-19 ontem (7), tem a maioria das capitais com as UTIs lotadas e o presidente Jair Bolsonaro mantém a postura de quem escolheu se aliar ao coronavírus. Em visita a Chapecó (SC) hoje, o presidente voltou a defender o uso de medicamentos comprovadamente sem eficácia no tratamento de pacientes com covid-19, como a hidroxicloroquina.

Nessa aliança com o vírus, Bolsonaro sabota todas as possibilidades de conter a disseminação do agente causador da doença. Ignora todos os apelos para que seu governo passe a unificar e conduzir as ações de enfrentamento à pandemia. E coleciona declarações que minimizam a gravidade da doença e que reiteram a continuidade da sua omissão.

Crise humanitária

Para além do discurso, Bolsonaro faz escolhas que convergem para uma crise humanitária pela qual o Brasil não deveria estar passando. “Temos o SUS que, apesar de suas falhas, é um sistema organizado, com capilaridade nos mais de 5 mil municípios brasileiros, e corpo de profissionais que, embora pudesse ser mais numeroso, tem boa qualidade técnica. Além disso, temos duas instituições públicas (Butantan e Fiocruz) que dão mostras de atender o mercado por vacinas”, diz o dirigente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, (Abrasco), Reinaldo Guimarães.

Entre as más escolhas do governo, dar continuidade ao subfinanciamento crescente do SUS, iniciado a partir do governo de Michel Temer com a aprovação do teto de gastos, que congela os investimentos federais por 20 anos. E também alterar as regras e o financiamento da atenção básica, abrindo caminho para a redução de sua cobertura.

Além disso, Bolsonaro negligencia a atenção básica à saúde, na qual estão inseridas as unidades básicas (UBSs) e as equipes de saúde da família. “Deixaram de aproveitar o contingente de agentes comunitários na busca ativa para detecção de novos casos e realização de testes. Acabaram com o Mais Médicos, algo criminoso, e valorizaram apenas a alta complexidade”, destaca Reinaldo, frisando que esta última é igualmente importante.

Fome na pandemia

A “cereja do bolo” do desastre da condução do governo Bolsonaro ante a pandemia ficou por conta das relações exteriores. Conduzidas por Ernesto Araújo, já demitido, agravaram a pandemia. Como já fazia desde o início do governo, dedicou-se a atacar a Índia, a China e outros países com base em aspectos puramente ideológicos, quando não preconceituosos.

Rompendo com a tradição diplomática brasileira, o governo chegou a deixar de apoiar a África do Sul e a própria Índia em uma iniciativa junto à Organização Mundial do Comércio para a suspensão das patentes de medicamentos, vacinas e insumos destinados ao tratamento da covid-19 durante a pandemia. “Ficamos para trás quando surgiram as vacinas. Estamos vacinando devagar, infelizmente. É claro que há um desequilíbrio entre a oferta e demanda por imunizantes, e muitos países também têm dificuldades. Mas faltou diplomacia”, completa o dirigente.

Para o especialista, a gravidade da situação é causada também pela falta de políticas para auxiliar financeiramente as populações mais vulneráveis. Sem emprego e sem renda, aumentam a fome e os demais determinantes para o adoecimento.