Erro de subnotificação

México corrige dados oficiais e mortos por covid-19 chegam a 322 mil. No Brasil, seriam 410 mil, diz Fiocruz

Países aplicam poucos testes, o que leva à subnotificação de casos e óbitos. Estudo aponta que distorção dos dados oficiais no Brasil pode ser superior a 60%

Altemar Alcântara Semcom Fotos Públicas
Com o acréscimo, o México foi de 173.711 para 322.000 mortos, superando assim o Brasil, que tem, oficialmente, pouco mais de 312 mil vítimas

São Paulo – O governo do México anunciou, no sábado (27), que reconhece a subnotificação de mortes por covid-19 no país e o presidente Andrés Lopes Obrador atualizou o número oficial de vítimas da pandemia em cerca de 60%. A atualização levou em conta o número de mortos “em excesso” desde a chegada do surto ao país, em comparação com anos anteriores, mas sem o diagnóstico de covid-19. Assim como o México, o Brasil sofre do mesmo tipo de problema. Faltam testes, o que também tornam os números daqui defasados.

Com o acréscimo, o México foi de 173.711 para 322.000 mortos por covd, superando assim o Brasil, que até a noite de ontem (28) tinha, oficialmente, pouco mais de 312 mil vítimas. Foram acrescentados mais de 290 mil mortes ao cálculo do país da América Central. No entanto, o posto do México como segundo país com mais mortes em números absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos, seria superado se o Brasil adotasse os mesmos parâmetros.

Estimativas

Estimativas do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam para uma realidade mais trágica do que a que revelam os números oficiais. A partir de dados de “excesso de mortes”, levando em conta apenas os que morreram em decorrência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), mas sem diagnóstico de covid-19 por falta de testes, a entidade aponta para mais de 410 mil mortes tendo a infecção como causa.

Um estudo da Fiocruz publicado em fevereiro deste ano exemplifica a dimensão da subnotificação da covid no Brasil. Se no México o cálculo foi adaptado com um erro de 60%, este número é maior no Brasil, variando com a região analisada. A publicação leva em conta a primeira onda da doença, em um período entre 23 de fevereiro e 13 de julho de 2020. Em algumas cidades, o excesso de mortes superou 100%.

“O maior excesso de mortes ocorreu em Manaus, 112% (IC95%: 103-121), seguido por Fortaleza, 72% (IC95%: 67-78), Rio de Janeiro, 42% (IC95%: 40-45) e São Paulo, 34% (IC95%: 32-36). O excesso de mortes foi maior nos homens e não significativo nas Semanas Epidemiológicas (SE) 9-12, exceto em São Paulo, 10% (IC95%: 6-14). Em geral, o pico de mortes excedentes ocorreu nas SE 17-20. O excesso de mortes não explicado diretamente pela Covid-19 e de mortes em domicílios/via pública foi alto, especialmente em Manaus”, afirma a publicação.

De acordo com outro levantamento divulgado hoje (29) pelo Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), o número de mortes naturais em excesso em 2020 no Brasil foi de 22%. Foram 275 mil mortes a mais do que o esperado. No período, foram notificadas 193 mil mortes confirmadas por covid-19, o que aponta para um erro de 82 mil vítimas que deveriam ser incluídas nas estatísticas da pandemia.

No mundo

O problema da subnotificação da covid atinge a outros países da comunidade internacional. Em dezembro, a Espanha chegou a reconhecer uma realidade mais sombria da covid-19 do que a relatada pelos números oficiais. Em um movimento similar ao mexicano, o país europeu corrigiu mortes em um período de três meses em 2020, entre março e maio, de 27.127 mortos para 45.658.

De acordo com levantamento do The New York Times, em 2020, outros países apresentaram erros significativos no balanço das mortes. O Peru, por exemplo, notificou 37.680 mortes e apresentou excesso de 103.600. Ainda na América do Sul, embora o Equador tenha notificado 12.553 mortes, a realidade aponta para 36.800 em excesso.