Perguntas e respostas

Covid nas crianças: o vírus ataca todo mundo, não deixa escapar ninguém

O médico Alexandre Padilha responde dúvidas sobre vacinação, sequelas da doença, prazo de contaminação pela covid-19 e a importância do lockdown

TV Brasil/Reprodução
Retomada de aulas presenciais na atual situação da pandemia aumenta o risco de contágio de toda a população

São Paulo – O aumento do adoecimento de crianças e jovens pela covid-19 está preocupando as famílias brasileiras. Dados do InfoTracker, plataforma criada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), revelam crescimento médio de 24% nas internações de crianças e adolescentes com covid-19, na comparação entre os meses de dezembro de 2020 e fevereiro de 2021.

O infectologista Alexandre Padilha explica que o maior contato das crianças com pessoas infectadas está entre as causas da alta no índice de adoecimentos. “O que está diretamente relacionado a retomada de aulas presenciais. Não só no Brasil, mas sobretudo no hemisfério norte, onde isso aconteceu no segundo semestre do ano passado”, afirma o médico, que é também deputado federal (PT-SP).

Mais perguntas e respostas sobre a covid-19

Ex-ministro da Saúde e integrante da Comissão Externa de Covid na Câmara dos Deputados, Padilha lembra que o quadro nas crianças, na média em geral, é menos grave que o quadro nos idosos. “Mas isso não significa que não tenha tido crianças com casos graves. Também houve crianças no Brasil e no mundo inteiro que chegaram a óbito por causa da covid-19. Ou seja, o vírus ataca todo mundo.”

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Perguntas e respostas sobre a covid

Caso o vacinado contraia covid, terá sintomas leves da doença? E após a recuperação, ele terá sequelas?

Sim, toda pessoa infectada pela covid-19 que se recupere pode desenvolver sequelas. Lógico que as sequelas estão mais ligadas às pessoas que tiveram quadro grave ou moderado, internação, acometimento pulmonar. Quanto mais grave, maior o risco de sequela. Como a vacina diminui casos graves e moderados, diminui o risco de sequela.

E essas sequelas são permanentes ou temporárias? 

Algumas sequelas são temporárias e muitas vezes não são relacionadas à covid em si, mas ao tempo que as pessoas ficam na UTI. Uso de cateter, intubação, pode causar sequelas por conta desse período de UTI. Outras sequelas por conta da covid-19 estão demonstrando ficar por mais tempo. Acometimento pulmonar grave pode levar a sequelas pulmonares por mais tempo. Sequelas neurológicas estamos aprendendo ainda por quanto tempo podem ficar. Ou seja, a covid-19 é grave porque mata muita gente e porque gera colapso no sistema de saúde pela quantidade de casos que lotam esses sistemas. Inclusive os extremamente consolidados, como o inglês, o espanhol, de Portugal. E é grave também porque pode deixar muitas pessoas sequeladas.

Cuidados com as crianças

A que se deve o aumento no número de casos de crianças com covid-19. Há que se deve isso? Quais os riscos para as crianças?

Dois motivos principais levam ao aumento dos casos em crianças. Primeiro o maior contato das crianças com pessoas infectadas, o que está diretamente relacionado a retomada de aulas presenciais. Não só no Brasil, mas sobretudo no hemisfério norte onde isso aconteceu no segundo semestre do ano passado. Segundo, suspeita-se que as novas variantes da covid-19 tenham maior capacidade de infectar um público mais jovem. Transmite mais rápido para mais pessoas e isso pode fazer com que mais crianças estejam acometidas.

O quadro nas crianças, quando a gente pega a média em geral, é menos grave que o quadro nos idosos. Mas isso não significa que não tenham tido crianças com casos graves. E também tiveram crianças no Brasil e no mundo inteiro que chegaram a óbito por causa da covid-19. Ou seja, o vírus ataca todo mundo. Não deixa escapar ninguém.

E quais medidas de prevenção podem ser adotadas para preservar as crianças?

A principal forma de aglomeração das crianças em todo mundo são as aulas presenciais. Os países que retornaram aulas presenciais, mesmo com muito cuidado, tiveram nas escolas locais principais de novos surtos. Crianças, assim como os adultos, devem manter o distanciamento, além de lavar as mãos com frequência, usar álcool em gel e máscaras.

Sobre a vacina da AstraZeneca

Quem tomou vacina da AstraZeneca deve se preocupar diante da suspensão da vacinação devido aos casos de reações mais graves?

A suspensão inicial em alguns países no uso da vacina da AstraZeneca não encontrou respaldo na própria agência europeia de vacinação. Estudos mais detalhados da agência europeia deixaram claro que o risco de não tomar vacina é muito maior que o risco de ter algum tipo de evento adverso. E reforçaram a importância da vacinação. 

Como fica a situação de quem deve tomar a segunda dose da AstraZeneca?

A análise da agência europeia reforçou o uso da vacina da AtraZeneca que aqui no Brasil é feita em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ou seja, não existe nada que justifique a interrupção da vacinação com a vacina da AstraZeneca. Pelo contrário. Deve-se reforçar a continuidade da vacinação. Eu que já fui vacinado por ser médico, profissional de saúde, tomei a vacina da Fiocruz/AstraZeneca que estava disponível naquele momento na cidade de Campinas onde dou aula e atendo pacientes.

Importância da segunda dose

E pessoas que tomaram a primeira dose, mas estão com dificuldade de locomoção para tomar a segunda dose? O que ocorre se tomarem depois do prazo determinado?

Cada vacina tem um calendário específico da segunda dose. A Coronavac, vacina chinesa que é junto com Instituto Butantan, a segunda dose é de duas a três semanas depois da primeira dose. A vacina da AstraZeneca, que é junto com a Fiocruz, os estudos mostraram que a defesa vai ser maior se tomar 12 semanas depois, praticamente três meses depois.

Toda pessoa que tomou a primeira dose, deve tomar a segunda dose no prazo estabelecido. Não perca a oportunidade de se vacinar. A segunda dose é que vai garantir o máximo de proteção da vacina. Se a pessoa tem dificuldade de locomoção, pode avisar à unidade de saúde e os agentes podem ir até essa pessoa.

Tempo de imunização

Quanto tempo depois de contaminada uma pessoa ainda pode transmitir o vírus? Fala-se em 14 dias de isolamento, mas há relatos de gente que está com PCR positivo faz quase dois meses. Como isso pode acontecer?

Em geral, se estabelece um prazo de isolamento de 10 a 14 dias para quem tem o exame de PCR positivo. Essa é a medida tomada em saúde pública no mundo inteiro. Existem situações em que as pessoas continuam eliminando vírus num período muito maior do que esse, até 30, 40, 50 dias. Não se sabe se o fato de a pessoa estar com esse exame positivo signifique que ela esteja transmitindo. O exame, o PCR, pega fragmento do genoma do vírus. Não se sabe se aquilo que é detectado é de um vírus que esteja vivo, ativo, transmitindo ou apenas fragmento do vírus. Estudos apontam que a chance maior de transmissão é nesse período até 14 dias, por isso essa é a recomendação em caso de isolamento. 

Por quanto tempo as vacinas deixam a pessoa imunizada?

Os testes realizados comprovam que a pessoa desenvolve imunidade com a vacina. Por quanto tempo essa imunidade estará presente não sabemos ainda. Só a continuidade dos testes já com uso da vacina vai dar clareza de qual será o tempo da imunidade que as pessoas têm. O que se sabe é: mesmo a pessoa que tomou vacina e pegou o vírus da covid-19, se infectou, não tinha imunidade para proteger 100%, mas não desenvolveram para casos graves nem morte.

Reinfecção pela covid

Quem já teve covid pode pegar novamente ou só se for outra variante?

A covid-19 é diferente do sarampo, da rubéola, da catapora, que você pega uma vez e não pega nunca mais. Com a covid-19 a pessoa pode se infectar mais de uma vez independente de que sejam variantes. O que estamos observando é que o fato de ter variantes aumenta o risco de uma reinfecção. Por isso o Brasil vive um momento de tanto crescimento de casos, de internação e de óbitos. As variantes têm uma capacidade maior de infecção, de transmissão. E devem, de alguma forma, ter poder maior de infectar uma pessoa que já teve a covid-19 com outra variante.   

Parar pela vida

Com cerca de 100 mil novos casos todo dia, o Brasil não deveria estar em lockdown?

Todos os países e regiões do mundo – sobretudo os países que estão tendo uma resposta melhor em relação à covid – implantaram lockdown em situações tão graves como está a do Brasil. O fato de não estarmos implantando lockdown nas regiões com alta concentração de internados é uma demonstração de irresponsabilidade na condução da pandemia no nosso país.

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O Brasil, sim, precisaria implantar restrição absoluta da circulação nas cidades, com funcionamento exclusivo de serviços essenciais com protocolos rígidos de funcionamento. Suspensão inclusive de transporte coletivo para restringir a circulação nas cidades em todas as regiões do país que tenham mais de 75% dos leitos de UTI ocupados pela covid-19.

E como fazer um lockdown se milhões de pessoas nem têm o que comer em casa?

Em todos os países onde o lockdown foi adotado, os governos tiveram um papel decisivo em garantir renda para quem não tem. Garantir crédito e redução de impostos para os pequenos e médios empresários e fiscalização para quem burla e insiste em se aglomerar. Ou o governo ajuda e fiscaliza ou não tem lockdown.


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