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Em colapso na saúde, Brasil registra 2.724 mortos por covid-19 em 24 horas

Um dia após registrar mais de 3 mil mortes, país chega à maior média diária de vítimas: 2.087. A covid-19 no Brasil se revela uma tragédia de erros e inconsequências, especialmente do governo federal

©Mathias Dantas/AFP/Divulgação
Trata-se do pior momento do surto do coronavírus no Brasil. Ainda existe uma tendência de piora para as próximas semanas

São Paulo – O Brasil registrou, nas últimas 24 horas, 2.724 mortos pela covid-19. Com isso, o país chega a 287.499 vítimas desde o início da pandemia, em março de 2020. Em pouco mais de um ano, a covid-19 provoca o maior colapso sanitário e hospitalar da história, de acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A média de mortos, calculada em sete dias, aponta para 2.087 vítimas em média em períodos de 24 horas. Trata-se do pior momento do surto do coronavírus no Brasil. Ainda existe uma tendência de piora para as próximas semanas. O fato fica claro com o número diário de novos casos, que está também em seu momento de maior disseminação. A média diária de novos infectados está em 71.872.

Os números são do Painel Conass, do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). E eventualmente pode divergir dos informados pelo consórcio da imprensa comercial em função do horário em que os dados são repassados pelos estados aos veículos de comunicação. As divergências para mais ou para menos são sempre ajustadas após a atualização dos dados.

Pior cenário

Ainda de acordo com o Conass, o Brasil deve manter o período trágico por um período de até mais seis semanas. Nas últimas 24 horas foram registrados 86.982 casos, totalizando 11.780.820 contados a partir do início da pandemia. Desde o dia 9, o país ocupa o posto de epicentro da covid-19 no mundo. Nessa data, passou a apresentar mais casos e mortes diárias do que os Estados Unidos, o mais afetado pelo vírus em números absolutos. E isso, sem levar em conta que o Brasil testa menos sua população do que os norte-americanos.

Números da covid-19 no Brasil. Fonte: Conass

Fator Bolsonaro

Entre os fatores que levaram o Brasil ao colapso por falta de leitos e à disseminação desenfreada da covid-19 estão a má gestão do governo federal e a morosidade dos governos estaduais e municipais na adoção de medidas mais rígidas de isolamento social. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro desdenhou da doença, estimulou aglomerações, ridicularizou o uso de máscaras e atacou vacinas, o colapso foi se desenhando.

A pressão do bolsonarismo fez com que fossem postergadas medidas comprovadas pela ciência como as únicas eficazes no controle da covid-19, a exemplo da vacinação e adoção de lockdown. Estimulados pelo presidente, populares seguidores do político radical chegaram a promover atos presenciais contra o isolamento, contra o uso de máscaras, e em defesa da cloroquina e da ivermectina (o chamado kit covid). Os dois medicamentos foram tratados por Bolsonaro como “milagrosos” contra a covid-19. Entretanto, desde o início da pandemia e de acordo estudos no mundo inteiro, a ciência cravava que as substâncias em questão são ineficazes no combate ao vírus.

“O Brasil promoveu e estocou o ‘kit covid’ de tratamento precoce, que não funciona. Agora isso sobra, enquanto começa a faltar o ‘kit intubação’. E são remédios que podem faltar para qualquer cirurgia, não só internação por covid”, alerta o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino. A falta de insumos básicos nos hospitais é reportada por todo o país, enquanto sobra cloroquina.

Dimensão global

O negacionismo influencia no aprofundamento do colapso. Assim, 25 das 27 unidades da federação já estão com falta de leitos de UTI. O Brasil agora caminha para uma catástrofe humanitária de escala global e sem precedentes na história recente. “Já é bem visível nossa tendência. Com a vacinação na Europa e nos EUA, acho bem possível termos os piores números absolutos e relativos entre os países mais populosos, registrados até o fim do inverno”, afirma Atila, sobre a possibilidade de o Brasil ultrapassar os Estados Unidos.

Os norte-americanos somam 543.481 mortos e 29.846.814 casos. Entretanto, o país deu uma guinada no combate à covid-19 com a saída do republicano Donald Trump da presidência. Negacionista no início, o par ideológico de Bolsonaro chegou a mudar sua visão, diferentemente do brasileiro. Mas foi tarde e o país viu o descontrole da covid-19, com dias sombrios de colapso na saúde de cidades como Nova York e Sacramento.

Novo panorâma

Agora, com a posse do democrata Joe Biden, no início do ano, os Estados Unidos passaram a adotar uma postura mais ligada à ciência. O resultado veio brevemente e com força. A tendência é de queda no número de casos e mortes desde o início do ano. Soma-se a isso o processo de vacinação ousado colocado em prática por Biden. O presidente norte-americano promete imunizar todos os adultos até o fim de maio. Já são aplicadas mais de 4 milhões de doses por dia no país.

Já no Brasil, a lentidão e o descaso de Bolsonaro com a covid-19 também têm reflexo na vacinação. Com a rejeição de contratos para compra dos imunizantes por parte de Bolsonaro, durante o momento oportuno, o Brasil sofre com a escassez de vacinas. No meio do ano passado, quando as nações correram para garantir doses, o governo brasileiro ignorava a situação.

Hoje, com pouco mais de 12 milhões de doses aplicadas, mesmo o baixo número só foi possível contra a vontade política do presidente. O estado de São Paulo, de seu ex-aliado João Doria (PSDB), insistiu na produção da CoronaVac por meio do Instituto Butantan. Enquanto isso, Bolsonaro fazia campanha contrária, dizia que não pagaria pelas doses do imunizante e chegou a disseminar mentiras sobre efeitos colaterais. O resultado é o aumento de casos da covid-19 e o colapso da saúde no Brasil.

Curva epidemiológica da covid-19 nos Estados Unidos. Destaque para a data de posse de Joe Biden, no dia 20 de janeiro. Fonte: Microsoft Data


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