PANDEMIA

Na terceira onda da covid-19, Manaus é retrato do negacionismo

Cientistas temem nova explosão de casos, mas prefeitura e governo estadual ignoram os alertas

Juliana Pesqueira/Amazônia Real
Em agosto de 2020, uma equipe de cientistas previu o segundo colapso na saúde em Manaus por causa da covid-19, através de um artigo publicado

São Paulo – A cidade de Manaus está próxima da terceira onda do coronavírus, de acordo com cientistas e especialistas, que previram o segundo colapso na saúde na capital. O epidemiologista da Fiocruz/Amazônia, Jesem Orellana, afirma que o cenário é grave e a prefeitura amazonense tem ignorado os alertas da comunidade científica.

Na última semana, o governador Wilson Lima (PSC) reeditou as normas de isolamento social no estado e desconsiderou as avaliações dos especialistas. Agora, as novas regras limitaram horários de funcionamento de estabelecimentos comerciais, mas não conseguiram a redução esperada de circulação das pessoas pela capital Manaus, por exemplo.

Em agosto de 2020, uma equipe de cientistas previu o segundo colapso na saúde em Manaus por causa da covid-19, que ocorreu no último janeiro, em um artigo publicado na revista Nature. Eles novamente apontam para uma possível nova onda na região. Segundo Jesem, permitir uma nova grande quantidade de contágio aproxima Manaus de um cenário “medieval”. “A terceira onda de uma doença era prevista num cenário medieval, não numa cidade com uma das maiores economias do país. Manaus é o epicentro mundial da covid-19, por causa dos erros inaceitáveis do governo no controle da disseminação. É resultado do negacionismo”, afirmou ao programa Brasil TVT.

Negacionsimo

Antes de explodir a segunda onda em Manaus, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, foi avisado sobre a escassez crítica de oxigênio em Manaus por integrantes do governo do Amazonas, pela empresa que fornece o produto e também por especialistas da região.

Jesem Orellana lembra que os especialistas emitiram inúmeros alertas ao secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo, e órgãos de controle sobre a grave situação da cidade. “Portanto, dizer que ninguém sabia do problema sanitário é difícil de acreditar. Dei várias entrevistas apontando a saturação da rede hospitalar. Você não precisa ser especialista para saber que se não há leitos sobrando porque tem muita gente se contaminando na cidade. Portanto, era óbvio que a falta de controle do vírus ocasionaria a falta de insumos básicos”, criticou.

A terceira onda de Manaus poderá se repetir em outras cidades do Brasil, na avaliação do epidemiologista, que credita o descontrole da pandemia à inaptidão técnica dos governos estaduais e federal. “Tivemos três ministros da Saúde em menos um ano, essa troca constante só acontece em time de futebol rebaixado. Então, a falta de estratégia sanitária e a priorização da economia tem colocado o Brasil em situação dramática, por isso temos o segundo maior número de mortos. Nós precisamos recorrer a mecanismos internacionais e documentar essa série de atrocidades cometidas pelo governo federal contra a população brasileira”, finalizou.