Alerta

Fui vacinado. Ainda posso me infectar e transmitir o coronavírus?

Imunização não impede a forma leve da doença e não freia proliferação, esclarece infectologista; conheça caso real

Arquivo Pessoal
"Eu realmente fiquei pensando que se não fosse a vacina, talvez tivesse complicações porque sou fumante", diz Priscila

Brasil de Fato – Priscila Oliveira, 38 anos, estava relativamente tranquila em relação à pandemia do coronavírus. Trabalhando como assistente social do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, recebeu, em 20 de janeiro, a primeira dose da vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan. Pouco mais de duas semanas depois, prestes a tomar a segunda dose, sentiu que o que imaginava ser sua sinusite crônica estava mais forte do que o normal. “Passei café e não senti cheiro. Percebi que estava sem paladar, diferenciava o que era doce e salgado, mas não sentia o gosto”, lembra. 

Em 11 de fevereiro, ela tomou a segunda dose, mas, com a persistência dos sintomas suspeitos, decidiu fazer o teste PCR. O resultado positivo para covid-19 foi recebido com surpresa. 

“Realmente não contava que fosse ser contaminada após tomar a primeira dose. Eu não acreditei no resultado. Tomei a segunda dose com covid”, conta Oliveira.

O caso da assistente social serve como um alerta diante da proliferação do vírus, mesmo para aqueles que estão nos grupos prioritários da campanha de vacinação e já começaram a imunização. 

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Primeira dose não garante proteção

A partir desse exemplo, o médico infectologista Eder Gatti esclarece que a primeira dose não garante proteção imediata contra o vírus. Quando uma pessoa toma a vacina, seu corpo é exposto aos antígenos, substâncias que desencadeiam a produção dos anticorpos, em um processo que pode levar de duas a três semanas.

A segunda dose, aplicada 14 dias depois, em média, consolida a defesa e estimula ainda mais a proteção de anticorpos específicos, consolidando a memória imunológica. 

“A pessoa só é considerada vacinada plenamente quando recebe a segunda dose, considerando as duas vacinas usadas no Brasil [CoronaVac e AstraZeneca]. Neste meio tempo, entre a primeira e a segunda dose, muita coisa pode acontecer. Uma pessoa pode, eventualmente, ser vacinada enquanto já está infectada em período de incubação e ainda não manifestou a doença. Nesse caso, a vacina não faz diferença. Temos caso de pessoas que estão vacinadas e poucos dias depois manifestam a doença, porque foi vacinada sem saber que estava infectada com o coronavírus”, explica o infectologista. 

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Medidas de proteção devem ser mantidas após vacina

Há também casos como o de Priscila, em que logo após a vacinação com a primeira dose, a pessoa é exposta ao vírus, mas seu organismo ainda não produziu as defesas necessárias, e a doença evolui com sintomas leves.

“Os estudos de eficácia das vacinas mostraram que nenhuma delas é 100% eficaz para evitar a infecção. A pessoa infectada, mesmo com duas doses, eventualmente pode se infectar. O risco é menor do que se não fosse vacinada, mas mesmo assim existe. Por isso mesmo, depois de semanas após a segunda dose, as pessoas devem continuar com as medidas de proteção, porque pode se infectar e infectar outras pessoas”, ressalta o presidente da associação de médicos do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Gatti rejeita a hipótese de que a própria vacina poderia desencadear uma contaminação por coronavírus. Isso porque tanto a CoronaVac quanto a Covishield, produzida pela Astrazeneca/Fiocruz, não têm vírus vivo ou adenovírus com capacidade de se replicar no organismo humano.

Como frear a proliferação do vírus?

O fato de mesmo as pessoas vacinadas ainda terem a possibilidade de se infectar e transmitir a covid-19 evidencia que, mesmo com a chegada dos imunizantes, os protocolos sanitários devem continuar sendo seguidos à risca por todos, sem exceção.

“Apesar da vacinação, não podemos fraquejar, não podemos abrir mão das medidas de proteção e contra a exposição ao vírus. Temos que manter o uso de máscara, higienização das mãos. Evitar ambientes aglomerados e mal ventilados. A vacinação não é garantia de proteção absoluta”, reitera o infectologista.

Uso de máscara mesmo após vacina

De quarentena em razão da infecção, Priscila Oliveira não abre mão da máscara e das medidas de prevenção mesmo dentro de casa, para tentar evitar ao máximo a infecção de seu marido. 

“É muito importante que a população seja informada. Acho que as pessoas ainda não estão entendendo que a imunização não é 100%, que é possível pegar o vírus e os sintomas serem tão amenos que as pessoas podem contaminar os outros sem saber que estão com o vírus”, lamenta.

Eficácia garantida

Ainda que as vacinas impeçam a contaminação pelo vírus propriamente dito, não significa que a eficácia das substâncias é questionável. Muito pelo contrário. 

Dados de estudos clínicos do Instituto Butantan sobre a CoronaVac, por exemplo, mostraram que a prevenção para casos leves de covid-19, com sintomas, mas sem necessidade de internação, é de 78%.

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Já a taxa de eficácia geral mostrou uma proteção de 50%, o que significa que quem foi vacinado contra o coronavírus, com as duas doses, tem 50% menos risco de adoecer. E, caso essas pessoas ainda sejam contaminadas, a taxa de eficácia para impedir as formas graves é de 100%.

“A pessoa [contaminada] tem risco menor de ser hospitalizada, de precisar de oxigênio, de eventualmente ser intubada e, o mais importante, tem o risco menor de morrer”, frisa Eder Gatti em referência às informações preliminares. 

Estudos da fase 4

De acordo com ele, agora, com a campanha de imunização em larga escala, será possível dar início aos estudos da fase 4 da vacina e identificar sua eficácia real em uma população massiva.

Priscila comemora o fato de ter sido vacinada e ter manifestado apenas sintomas leves da doença respiratória.

“Os sintomas foram sintomas que eu sinto sempre por ter a sinusite crônica. A vacina amenizou o que poderia ser mais grave do covid. Não tive febre, não tive espirros, só uma dor de cabeça pesada”, relata.

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“Eu sou muito agradecida por ter conseguido tomar a vacina por ser trabalhadora da saúde. Eu realmente fiquei pensando que se não fosse dessa forma talvez tivesse complicações porque sou fumante. Me sinto privilegiada mesmo”.

Eder Gatti também endossa a importância da vacina: “Uma vez que a gente reduz o número de infecções, de hospitalizações e de óbitos, além de salvarmos vidas, estamos diminuindo a sobrecarga do SUS e contribuindo para que os desfechos econômicos ruins sejam diminuídos. Vacinar só traz benefícios”.


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