Insistência no erro

Doria usa dados incompletos da covid-19 para afrouxar quarentena em São Paulo

Governador eliminou a fase vermelha aos finais de semana para regiões em fase laranja, mas dados indicam que pandemia em São Paulo segue grave

GovSP

São Paulo – Pouco mais de uma semana depois de determinar fase vermelha da quarentena contra a covid-19 aos sábados e domingos, em regiões que estão na fase laranja, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afrouxou hoje (3) as regras do Plano São Paulo e eliminou a restrição. O recuo significa que bares, restaurantes, shoppings e outros serviços poderão funcionar no próximo final de semana.

O governador alegou que houve melhora nos índices da pandemia. No entanto, foram apresentados dados parciais. Os números de novos casos, mortes e pessoas internadas seguem elevados. A redução na taxa de ocupação de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) se deu principalmente por aumento de leitos.

O coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, Paulo Menezes, justificou a medida, embora tenha admitido que a situação é indicativa e que a transmissão do vírus segue alta, equivalente à situação de julho do ano passado. “Temos uma estabilização e redução lenta, mas progressiva dos indicadores da pandemia em São Paulo, especialmente das internações, que vêm se reduzindo nas últimas três semanas”, afirmou.

No entanto, na entrevista coletiva de hoje, foram utilizados dados parciais, apenas dos três dias da atual semana epidemiológica, o que impede uma leitura real da situação. Na média diária de novos casos, por exemplo, o governo Doria indicou tendência de queda, por ter registrado 8.496 casos por dia, nesta semana, ante 11.238 na semana anterior. Mas só foram considerados três dias dessa semana, sendo um deles o domingo – quando normalmente já existe uma queda significativa nas notificações.

Como fica

A proposta de Doria de relaxar a quarentena contra a covid-19 em São Paulo, baseado em uma melhora mínima na pandemia, responde à pressão de empresários que não aceitam as maiores restrições. Desde o anúncio das medidas, em 22 de janeiro, vários protestos foram realizados contra a fase vermelha aos finais de semana, ignorando o claro agravamento do surto.

A reação de Doria se opõe totalmente à forma como ele agiu quando a situação começou a se agravar, em novembro do ano passado. Ou seja, em meio à eleição para prefeitos e vereadores. Com os números de casos, internações e mortes subindo semana após semana, o tucano manteve o discurso de que a situação estava sob controle e retardou as ações para aumentar o rigor da quarentena – o que só foi feito efetivamente em janeiro. A ideia do governo é “conviver com a covid-19”, garantindo leitos para receber os doentes graves, o que leva a uma maior mortalidade.

Na atual regra do Plano São Paulo, em regiões que estão na fase vermelha só serviços essenciais podem funcionar. Já as que estão na fase laranja, podem ter todos os serviços operando durante o dia – desde que com lotação máxima dos estabelecimentos de 40% – e bares e restaurantes sejam fechados para consumo no local. Mas a partir das 20h, nos dias úteis, e o dia todo no final de semana e feriados, fica valendo a fase vermelha, com funcionamento apenas de serviços essenciais. Com a mudança apresentada hoje, a restrição de finais de semana não vale mais.

Covid-19 em São Paulo

Os dados mostram que a média de internações por dia, caiu de 1.747, na semana de 10 a 16 de janeiro, para 1.545, na semana de 24 a 30 de janeiro. No entanto, o número ainda é equivalente ao registrado em agosto do ano passado, superando todos os demais meses entre setembro e dezembro. Além disso, o total de pacientes internados em UTIs teve queda pouco significativa nas últimas duas semanas e segue mais alto que nas duas primeiras semanas de janeiro. Hoje há 5.945 pessoas em UTI e 6.993 em enfermaria. Há duas semanas eram 6.053 e 7.764, respectivamente. No início de janeiro, eram 5.254 em UTI e 6.947 em enfermaria.

Também houve queda na taxa de ocupação de UTI para covid-19 em São Paulo, que foi de uma ocupação de 71,3%, em 22 de janeiro, para 67,8% hoje. No entanto, houve aumento de 424 leitos de UTI nesse período, parte deles oriunda do fechamento do atendimento de quatro hospitais estaduais na periferia da capital paulista, que passaram a atender exclusivamente pacientes com covid-19. No mesmo período, a média móvel de leitos ocupados passou de 6.020 para 6.009, redução muito menor do que se entende do anúncio do governo Doria.

Gráfico do governo paulista mostra que mortes por covid-19 estão em tendência de alta

Por outro lado, o índice de mortes está estável, mas em números elevados. A média de mortes diárias segue acima de 200 desde o dia 9 de janeiro. Só no primeiro mês de 2021, 6.237 pessoas morreram de covid-19 em São Paulo. Apenas ontem (2), foram notificadas 365 mortes em todo o estado de São Paulo. É o maior número desde 9 de setembro – desconsiderando dados que ocorreram por acumulo de notificações, no dia 17 de dezembro. O gráfico do próprio governo Doria mostra que a tendência das mortes é de alta.

Já o número de novos casos segue sendo equivalente ao do primeiro pico da pandemia, no ano passado. O mês de janeiro teve a maior média diária de casos de toda a pandemia. Foram confirmados 310.727 novos casos no mês, uma média de 10.023 novos casos por dia. Hoje, a média móvel é de 11.252 novos casos por dia. E o gráfico do governo também mostra tendência de alta nesse índice.

Gráfico do governo Doria mostra que número de novos casos segue em tendência de alta


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