"Engano"

Ministério da Saúde retira do ar aplicativo que indicava cloroquina até para bebê e cachorro de estimação

Aplicativo para “ajudar” médicos no tratamento da covid-19, indicava medicamentos ineficazes para qualquer sintoma apresentado. Professor de direito afirma que código de programação da ferramenta é “prova objetiva” de crime de responsabilidade

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Ministério da Saúde disse que site entrou no ar indevidamente pois foi invadido. Entretanto, Casa Civil tinha comemorado lançamento da plataforma

São Paulo – O Ministério da Saúde tirou do ar hoje (21) a plataforma “TrateCOV”. O aplicativo tinha sido desenhado pelo governo Bolsonaro para “auxiliar” médicos na indicação de remédios contra a covid-19. Entretanto, a ferramenta digital servia apenas para receitar remédios comprovadamente ineficazes contra o vírus, como a cloroquina e a ivermectina. Seja para cachorros ou bebês com náuseas, a recomendação era sempre a mesma: o “kit covid” do governo Bolsonaro.

Em nota, a pasta alegou que a plataforma foi ativada indevidamente por hackers. “Informamos que a plataforma TrateCOV foi lançada como um projeto-piloto e não estava funcionando oficialmente, apenas como um simulador. No entanto, o sistema foi invadido e ativado indevidamente – o que provocou a retirada do ar, que será momentânea”, disse o ministério.

A explicação da pasta não condiz com nota da Casa Civil divulgada no dia 14 deste mês. No texto, o governo comemora a criação da plataforma e afirma que que ela seria testada primeiro em Manaus. “Diante do cenário epidemiológico atual, a capital do Amazonas foi escolhida para estrear o TrateCOV. A prefeitura de Manaus, com apoio do Governo do Amazonas, está em processo de exportação do cadastro dos médicos para a plataforma. Até o momento, 342 profissionais já foram habilitados”, afirma a nota.

Batalhas

O deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) comemorou o recuo da pasta, conduzida pelo militar Eduardo Pazuello. O parlamentar ainda afirmou que a Justiça já havia sido acionada. “Pazuello recuou e tirou do ar o aplicativo TrateCov, que indicava cloroquina de forma ilegal. Ontem eu acionei a Justiça Federal pedindo a derrubada da plataforma. Vencemos uma batalha importante e seguimos na luta pela vacina e pelo impeachment”, disse.

TrateCov, a prova do crime

O professor de direito especializado na área de tecnologia da universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Ronaldo Lemos, afirma que o aplicativo por si configura prova de crime de responsabilidade. “Uma prova objetiva e incontestável de que houve crime de responsabilidade por parte do presidente é o código de programação do aplicativo do Ministério da Saúde, o TrateCov. A palavra cloroquina aparece 86 vezes no código e ivermectina 113”, disse.

Ronaldo explica que um “código de programação é a materialização de uma tomada de decisão objetiva. O código segue uma linguagem lógica, não tem espaço para ambiguidades. A decisão de colocar cloroquina e ivermectina é uma decisão de política pública consciente e muito clara (…) O mais revoltante é que o site da Casa Civil se vangloria de ter lançado o TrateCov em Manaus! Deu no que deu”.


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